quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Uma espécie de nada

Deus de papel rasca.
Leve, que nem se ouve quando cai;
transparente, que nem se vê quando chega;
silencioso, que nem se escuta quando fala.


nem sequer tem cheiro. 


Imensidão



A estrada é larga
tão larga...
 Foge a referência, perde-se o destino
desnorteia-se
sem tino.

Não há limites ao horizonte
não há barreiras
os olhos só vêm a distância.
Não há caminho,
há ânsia.

Nem portas abir
nem portas a fechar.
Só este espaço descomunal a toda à volta.
E o pensamento voa
à solta.

Passam os dias
felizes? Infelizes?
Dias que se perdem na lonjura.
Não há razão
porque não há raízes.


domingo, 18 de janeiro de 2015

Razão

Momentos sem sentido
em que a vontade perde força
e os limites te estreitam o fazer.
num cerco de razões que não entendes.

Momentos em que alma grita
e tu a calas,
e a alma implode
dentro dum corpo incapaz de a deixar voar.

Momentos
em que a razão não deveria ter razão
mas que ainda assim, ganha.


E perde é o coração.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

No estranho reino da Dinamarca (4) (final)


I -  A descoberta do mistério

Nem todos os mistérios deste reino, porém, permanecem misteriosos para sempre. Alguns acabam por se esclarecer, duma forma, por vezes, de causar espanto, pela sua, afinal, tão grande simplicidade.
Infelizmente, descobre-se um mistério e, logo atrás dele, surgem outros cuja explicação se oculta de novo, nos densos nevoeiros caraterísticos do reino.
Sentado mesmo ao lado da famosa e pequena marmaid dinamarqueza, Axel observa o longe do mar, o contínuo vai e vem dos navios rumo à Suécia,  liberta o pensamento e resolve um dos mistérios que há tanto tempo não havia meio de perceber, mas que agora, uma vez percbido, o faz estremecer ao pensar na irrealidade que criou, na sua mente,e que , não obstante todas as evidências, foi permitindo que permanecesse.
Axel, na verdade, manteve ao longo de anos um relacionamento totalmente equívoco com Soren, sem se aperceber da gigantesca diferença de registos entre ambos. Para Axel, o seu relacionamento com Soren, estava enquadrado num registo de uma amizade muito intensa, de grande empatia e proximidade. Agora, finalmente, conseguiu perceber que esse nunca fora, porém, o registo de Soren. Na verdade, para Soren, Axel sempre foi um simples conhecido, por quem, se nutre alguma simpatia, mas, nada mais que isso.
A descoberta deste mistério, permite agora a Axel entender um vastissimo conjunto de situações, que, absurdamente, ao não ter anteriormente percebido esta diferença de registos, lhes foram causando, uma após outra, inúmeras situações de tristeza, mágoa, incompreensão.
Resolvido o mistério, tudo fica completamente claro e explicado.
Valeu para a resolução deste mistério, uma afirmação/interrogação, que lhe foi colocada por Soren. Afirmação/interrogação essa, que claramente lhe mostrou que todas as conversas que anteriormente haviam tido, e, até mesmo um livro, escrito e publicado por Axel,   passaram o "gap" da comunicação.

II - Um novo mistério

Surge logo de seguida, porém, na mente de Axel, um segundo mistério, talvez tão, se não mais, complicado que o primeiro: como foi possível, durante tanto tempo, que o seu raciocínio tivesse sido incapaz de compreender uma situação tão clara, com tantas evidências, que se foram sucedendo, uma atrás outra. ao longo de anos?
Talvez culpa dos duendes. Os mesmos, que de forma tão decisiva foram capazes de inspirar  Hans Christian Andersen nos seus fantásticos contos para crianças, tivessem também eles perturbado o raciocínio de Axel, criando um filme na sua mente delirante.
Ou talvez que Axel tenha andado a frequentar vezes demais as salas de cinema: é que "amigos improváveis", não passa, realmente, de um filme!

III
Esclarecido um mistério, restando outro.
Axel olha o mar e sabe que, mesmo que feche os olhos, continua a sentir o mar.
Não há portas que fechem sentimentos.




segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

face

Vira a cara
olha para o outro lado do sentir,
já podes rir
já podes estar de bem contigo.

Vira a cara,
não vejas à tua frente
que assim caminhas sempre.

Pensa apenas
no destino da tua vontade,
nada mais é realidade.

Avança, pois, sem pejo,
serás o deus da tua vida!
Viverás com classe!

Bastou-te apenas
um virar da face!
Passou por mim o vazio
e falou
como se eu ouvisse o nada
e o nada me tirasse o frio.

Uma conversa de palavras feitas gelo
que se quebram de se ouvir
e me quebram o sentir
e me entristecem.

O vazio do que dizes
enche o espaço e o tempo de mágoa.
Transforma o mundo e a vida em água
que se escoa em sumidouros de morte.

Já nem água há
apenas um deserto:
um imenso vazio de tudo
e cheio de solidão.
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