terça-feira, 25 de outubro de 2011

Tempos de tropa

Raul Caldeira....Era enorme, mais alto que eu, mocado na parada....Parecia bêbedo.
O homem que nunca faltava a concertos. O homem que tinha sempre música a tocar na camarata.

O Bárbara... Gordo, peidorrento...
Tantos outros cujo nome já não sei.
Estávamos em Vendas Novas - Escola Prática de Artilharia...Pelotão de Instrução. Quanto tempo!!!
Tudo isto, saindo do recanto escondido da memória por causa dum telefonema e dum email: convite para uma confraternização entre todos os que fomos incorporados em Vendas Novas nesse ano.

Vou?
Não vou?
Não sei.
Não sei quem vai.
Porque entre tanta gente há sempre alguém que nos faz falta, alguém que nos marcou. E tanta, tanta gente por quem passámos e....nada nos disseram cá dentro.
Mas,  se é verdade que me lembro do Bárbara por causa dos seus persistentes e tonitruantes "peidos", também me lembro do Raul.
Ambos na minha camarata.
Mas ao Raul lembro-me "pela amizade nas entrelinhas", que é uma coisa engraçada e estranha. Nunca lhe chamei amigo nem ele a mim. Mas tanto eu como ele sabiamos que podiamos contar um com o outro. No limite: no cansaço do "mar-corre", ou da "ginástica até à morte", na procura das rolhas de cortiça para virarmos pretos e nos escondermos na noite do "inimigo", na solidariedade activa que não se diz mas que se faz.

Lembro-me de  saber que ele precisava, e simplesmente passar-lhe para as mãos as chaves do meu carro. Tout simplement. E de ele as receber, sem grande espanto.
Lembro-me das vezes em que ele estava completamente "high", lembro-me dos "nonsenses" que dizias nessas alturas, e da minha cumplicidade em o ouvir.
E claro, do regresso a casa no fim de semana, ele e mais quantos cabiam no meu carro....mas o lugar dele, era sempre o da frente, ao meu lado.
E lembro-me....E lembro-me....
E sei que nos matámos um dia. DE VEZ.
Tão mortos, que nem eu sei onde ele está enterrado nem ele sabe onde eu estou enterrado!
Contraditoriamente, o meu amigo Raul Caldeira, na minha memória, está bem longe de estar enterrado...E tenho a vaga esperança, que na memória dele, eu também não esteja completamente morto.
Quanto ao Bárbara...nem o matei nem ele me matou. Foi diferente, uma espécie de peido que se esvai no espaço....Sem direito a cerimónia fúnebre!
Mas, quem sou eu hoje?30 anos depois?
Quem é o Raul hoje? 30 anos depois?
Que nos dizemos se nos virmos????
Na verdade, iria provavelmente ao convívio se soubesse que ele também iria...
Na verdade, se fosse e ele também. provavelmente arruinaríamos o património da memória.
Matei-te, rapaz. E tu mataste-me.
Não por decisão, mas por Fortuna, essa terrível deusa que ninguém controla nem jamais controlará.
O curioso é que, mortos faz tempo, descubro agora que a minha amizade por ti nunca morreu.
E só dei por isso agora:
por causa dum telefonema de alguém que eu acho que nem sei quem é....

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Saber

Se achas que chove
é engano teu..
A chuva está apenas nos teus olhos....

Dizes que faz sol?
É engano teu.
O sol brilha só em tuas sinapses...

Encontras a verdade?
Engano teu.
A verdade és apenas tu.

A não pensares assim,
desenrolas as linhas do universo
tecendo conjunturas idiotas
de destinos ignaros mas irreais.

Fecha, pois, a porta.
Tranca-te por dentro.
Deixa o frio entar, o vento entrar, a chuva entrar,
mas barra passagem à loucura
de pensares que pode entrar alguém "que seja"
alguém de consistência,
alguém que te seja abraço
que te seja alma
que te seja vida.

Viverás assim o final da tua vida
consciente das certezas que a consciência velha dá.
Destituído da ilusão da esperança,
por certo!
Intranquilo do valor de ser...
Mas,
pelo menos,
sabendo saberes mais do que sabias antes.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O jogo

Invento uma história para contar, 
invento um pedido para fazer,
invento que preciso de saber...
Invento uma foto para mostrar.

Invento a razão que não tenho, para falar,
invento o que não preciso de dizer,
invento a necessidade de explicar
o que nada tem para se entender.

E faço disto um jogo de brincar,
um jogo em que só joga um jogador.
Por vezes é um jogo que faz dor
outras um jogo de encantar.

Jogo sozinho, eu sei, mas que interessa,
se o jogo me diverte e me faz bem?
 Não haverá nada nem ninguém
que este jogo de jogar  me impeça!

E invento que este jogo jamais há de acabar,
como se no Mundo houvesse eternidade!
E vou jogando...Jogando, sem parar
sem já saber se é jogo ou realidade...
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