segunda-feira, 18 de junho de 2012

memória do nada

Um dia aconteceu o olhar.
No meio da noite, sob a luz da lua.
Por instantes breves.  
Segundos feitos relâmpagos, de velocidade triste.

E logo se fechou o luar da possibilidade.

No regresso ao tempo infindo da permanência obscura, vozes que gritaram, ficaram abafadas pela imensidão do som do escuro. 
Porque o escuro tem som, um som que grita, que inunda, um som que destrói toda a possibilidade do ouvir. 
Consegue ser tão forte e tão intenso, que até o ver se incapacita.

Ficou ainda e por enquanto a memória.

A memória que diariamente se vai  confundindo com o espaço do negro que a envolve.
A memoria que se vai esquecendo de si própria,
A memória que progressiva e continuamente se vai dissolvendo no vazio do nada.

Ilusão

Sei lá do ar e do vento....
Sei lá da chuva, ou do sol
Sei lá do futuro que invento
Sei lá para que bate a água em pedra mole.

Porque existem horas e o tempo?
Porque existe a vida que se leva?
E leva-se, para onde?  Em sentimento?
Não! É só uma  ilusão de luz dentro da treva.

Existe o quê, se nem existo eu!
Nada é mais do que o imaginar
de matéria e pensamento que desceu
dum espaço-tempo, que nem é lugar.

Vivemos em morte continuada,
desde o dia e hora em que se diz termos nascido:
a prova é  não restar nada
após uns dias,  em que se fingiu ter-se vivido.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Vísceras autofágicas

Insisto em ver,
(mas os olhos fecham)
Quero ouvir
(o tímpano endurece)
Quero sentir,
(a pele virou quitina)

E na língua,
o tabaco fez das papilas estrada.

Assim desconectado,
sou apenas vísceras em autofagia:
no desespero de se entenderem.

A chama escura

É esta a chama do vazio:
arde, sem fumo,
acende, sem luz,
toca e queima, sem escurecer o que queimou.

É esta  a chama
que não se vê
nem sequer na noite mais escura.

É esta a chama fria,
que em vez de aquecer, 
faz descer a temperatura.

Chama que se assopra, mas se não apaga,
que se molha, mas continua acesa,

pois,
uma chama  morta, 
não se mata!

Desígnio

Naqueles dias, o tempo se faz chumbo
e a água pedra
e o ar opaco, até se bater nele.

O horizonte  está à distância de um palmo,
e não tem cor
e não tem luz .

Naqueles dias, o vento seca, e até o som se cala,
em espera das horas
que não acontecem.

Naqueles dias,
o futuro não existe, que o presente parou.
Não se cresce não se envelhece, não se nasce.

Naqueles dias 
em que acordar é sonho
e sonho é pesadelo,

a benção da Morte é o único desígnio.

 
poner un anuncio gratis