Estado de Consciência
Silêncio. Estás sozinha mas não Só.
Acompanhada por ti e por tudo o que te habita : memórias, pessoas passadas e presentes , paisagens , pequenas cenas , o que gostas , o que não gostas e o que te é indiferente .
Acabaste de jantar . Tens um jardim e os teus olhos seguiram o movimento dos arbustos porque está vento .
Dentro de casa , ouves o som do frigorífico. Pouco mais .
Não é um silêncio completo.
Sentes-te bem : em paz. Bem contigo e com aqueles outros a quem estás ligada com afecto.
Estás acompanhada e sentes prazer nisso : neste tipo de companhia que te permite continuar sozinha.
"Por isso é que eu lhes falo em parábolas; porque eles vendo, não vêem, e ouvindo não ouvem, nem entendem." -(Mateus, XIII: 10-15)
quinta-feira, 30 de maio de 2013
domingo, 26 de maio de 2013
Sentir
Projeto teias, elos e correntes
num contínuo pensamento que não pára,
dou a volta e volto lá
e saio e entro
e fico.
E não agarro.
Elaboro estratégias,
complicadas, que nem eu percebo!
Como num transe permanente
em que o que é pode bem não ser
e o que faço posso nem saber.
Estranho pedaço
de matéria e tempo
de matéria e vento.
Tão forte como o aço.
E voa pelo céu tão grande
meteorito que mal chega foge
deixando a sua luz cativa nos sentidos.
Sentidos gastos já
de tanto que sentiram.
Sentir,
aqui.
Aqui, o quê?
Se não se vê...
num contínuo pensamento que não pára,
dou a volta e volto lá
e saio e entro
e fico.
E não agarro.
Elaboro estratégias,
complicadas, que nem eu percebo!
Como num transe permanente
em que o que é pode bem não ser
e o que faço posso nem saber.
Estranho pedaço
de matéria e tempo
de matéria e vento.
Tão forte como o aço.
E voa pelo céu tão grande
meteorito que mal chega foge
deixando a sua luz cativa nos sentidos.
Sentidos gastos já
de tanto que sentiram.
Sentir,
aqui.
Aqui, o quê?
Se não se vê...
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Intrusões de vazio
Chegam visitas e palavras
trabalhos e dizeres
trapalhadas de tarefas e funções
e tu não dizes nada
e estradas a correr,
leituras a fazer,
e papéis, papéis e mais papéis
e vozes que se cruzam e falares
e opiniões, debates, discussões
e tu não dizes nada
A emissão no rádio,
mensagens no email
conversas na internet,
notícias nos jornais
os filmes na TV
problemas que há que resolver
e tu não dizes nada
e o almoço está no prato
é hora de almoçar
o jantar está servido
é hora de jantar,
a cama está à espera,
é tempo de dormir,
o sol já apareceu
é tempo de acordar
e tu não dizes nada,
manifestações, reuniões, protestos,
a luta, o surgir de manifestos
petições e declarações,
aclamações e rejeições
jornadas de luta
(tantos filhos da puta...)
e tu não dizes nada,
Porque diabo só tu não dizes nada?
trabalhos e dizeres
trapalhadas de tarefas e funções
e tu não dizes nada
e estradas a correr,
leituras a fazer,
e papéis, papéis e mais papéis
e vozes que se cruzam e falares
e opiniões, debates, discussões
e tu não dizes nada
A emissão no rádio,
mensagens no email
conversas na internet,
notícias nos jornais
os filmes na TV
problemas que há que resolver
e tu não dizes nada
e o almoço está no prato
é hora de almoçar
o jantar está servido
é hora de jantar,
a cama está à espera,
é tempo de dormir,
o sol já apareceu
é tempo de acordar
e tu não dizes nada,
manifestações, reuniões, protestos,
a luta, o surgir de manifestos
petições e declarações,
aclamações e rejeições
jornadas de luta
(tantos filhos da puta...)
e tu não dizes nada,
Porque diabo só tu não dizes nada?
Baús da memória inexistente
Chego àquela vila pobre, pequena, de ruas estreitas, e caminho. As portas não estão trancadas e por isso posso entrar e entro. Na cassa feita casas, de tão pequenas, uma só não chegava para a velhinha que ali me lembro de ver morar e que partilhava genes comigo. Já não partilha agora.
Uma porta, a casa de jantar. Outra porta o quarto.
Na casa de jantar, ainda lá está mesa e cadeiras, mas que fizeram dos "meus" pratos e travessas? Eram lindos, de madeira, com desenhos de motivos agrícolas. Estavam pendurados nas paredes e daí vinham diretamente para a mesa, Também as travessas eram de madeira, com desenhos de motivos agrícolas e também elas, penduradas nas paredes. E eram lindas. Mas já não estão.
Está tudo cheio do pó do tempo, que a velhinha já não está para limpar.
Saio da casa casa de jantar, para a rua e entro na porta da casa ao lado, casa quarto. Lá está a cama, ainda pronta para quem se quiser deitar (não fosse o pó). E na cómoda...lembro-me...e abro a gaveta, e no meio de duas folhas brancas (mais cinzentas que brancas, na verdade) lá está guardado o manuscrito, como se fosse relíquia, como se fosse tesouro, ou talvez seja mesmo. As letras a tinta de caneta permanente estão lá todas e a assinatura. Aquele papel com aqueles dizeres, não cabia no coração da velhinha saía fora, por isso o tinha de ter guardado ali na gaveta da comoda, bem protegido, por duas folhas brancas (mais cinzentas que brancas, agora) e escondido entre lençóis e toalhas. E chegam lágrimas por um tempo que já não é.
Já não é nem nunca foi.
Percorro hoje assim os caminhos duma memória que não tenho, para rever uma terra onde nunca estive e contar duma velhinha que nunca conheci e que, mesmo assim, partilhou os seus genes comigo. Agora já não partilha.
Bizarra memória tenho eu que até me lembro de pratos e travessas que nunca houve e de papéis, que o tempo nunca produziu,
Uma porta, a casa de jantar. Outra porta o quarto.
Na casa de jantar, ainda lá está mesa e cadeiras, mas que fizeram dos "meus" pratos e travessas? Eram lindos, de madeira, com desenhos de motivos agrícolas. Estavam pendurados nas paredes e daí vinham diretamente para a mesa, Também as travessas eram de madeira, com desenhos de motivos agrícolas e também elas, penduradas nas paredes. E eram lindas. Mas já não estão.
Está tudo cheio do pó do tempo, que a velhinha já não está para limpar.
Saio da casa casa de jantar, para a rua e entro na porta da casa ao lado, casa quarto. Lá está a cama, ainda pronta para quem se quiser deitar (não fosse o pó). E na cómoda...lembro-me...e abro a gaveta, e no meio de duas folhas brancas (mais cinzentas que brancas, na verdade) lá está guardado o manuscrito, como se fosse relíquia, como se fosse tesouro, ou talvez seja mesmo. As letras a tinta de caneta permanente estão lá todas e a assinatura. Aquele papel com aqueles dizeres, não cabia no coração da velhinha saía fora, por isso o tinha de ter guardado ali na gaveta da comoda, bem protegido, por duas folhas brancas (mais cinzentas que brancas, agora) e escondido entre lençóis e toalhas. E chegam lágrimas por um tempo que já não é.
Já não é nem nunca foi.
Percorro hoje assim os caminhos duma memória que não tenho, para rever uma terra onde nunca estive e contar duma velhinha que nunca conheci e que, mesmo assim, partilhou os seus genes comigo. Agora já não partilha.
Bizarra memória tenho eu que até me lembro de pratos e travessas que nunca houve e de papéis, que o tempo nunca produziu,
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