Chego àquela vila pobre, pequena, de ruas estreitas, e caminho. As portas não estão trancadas e por isso posso entrar e entro. Na cassa feita casas, de tão pequenas, uma só não chegava para a velhinha que ali me lembro de ver morar e que partilhava genes comigo. Já não partilha agora.
Uma porta, a casa de jantar. Outra porta o quarto.
Na casa de jantar, ainda lá está mesa e cadeiras, mas que fizeram dos "meus" pratos e travessas? Eram lindos, de madeira, com desenhos de motivos agrícolas. Estavam pendurados nas paredes e daí vinham diretamente para a mesa, Também as travessas eram de madeira, com desenhos de motivos agrícolas e também elas, penduradas nas paredes. E eram lindas. Mas já não estão.
Está tudo cheio do pó do tempo, que a velhinha já não está para limpar.
Saio da casa casa de jantar, para a rua e entro na porta da casa ao lado, casa quarto. Lá está a cama, ainda pronta para quem se quiser deitar (não fosse o pó). E na cómoda...lembro-me...e abro a gaveta, e no meio de duas folhas brancas (mais cinzentas que brancas, na verdade) lá está guardado o manuscrito, como se fosse relíquia, como se fosse tesouro, ou talvez seja mesmo. As letras a tinta de caneta permanente estão lá todas e a assinatura. Aquele papel com aqueles dizeres, não cabia no coração da velhinha saía fora, por isso o tinha de ter guardado ali na gaveta da comoda, bem protegido, por duas folhas brancas (mais cinzentas que brancas, agora) e escondido entre lençóis e toalhas. E chegam lágrimas por um tempo que já não é.
Já não é nem nunca foi.
Percorro hoje assim os caminhos duma memória que não tenho, para rever uma terra onde nunca estive e contar duma velhinha que nunca conheci e que, mesmo assim, partilhou os seus genes comigo. Agora já não partilha.
Bizarra memória tenho eu que até me lembro de pratos e travessas que nunca houve e de papéis, que o tempo nunca produziu,
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