sábado, 21 de fevereiro de 2015

A notícia


Apenas a voz do silêncio longe trazida pelo vento norte, se ouve na praça retangular, onde a vida se imagina no esvoaçar das folhas mortas, caídas no chão, que se deslocam em movimentos absurdos de quem vai para onde não sabe. Os bancos estão certamente à espera, o empedrado dos passeios, também à espera, a água do lago do jardim, ao centro , rodeado por quatro ruas, espera também que algo a justifique.

Talvez por já ser escuro. Ou talvez não.

De repente um grito. Desprovido de autor. Um grito absurdo que se ouve e logo morre, sem se saber origem nem razão. Fica de novo o silêncio do vento, a empurrar almas que insistem em vaguear por ali.

Um homem só caminha. Leva consigo a bagagem da memória, que lhe dificulta a marcha e lhe atrasa o passo. Deixou para trás a pressa,  e pessoas, centenas delas, que foi deixando cair pelo chão,  ao longo da viagem que iniciou um dia de que, na distância do tempo já não se lembra.

Senta-se, para dar razão de ser a um banco, que, agradecido, o recebe no seu colo de madeira, que tempos antes já deu frutos. Abandonado, um jornal caído mesmo ali ao lado, faz o homem esticar um braço e focar os olhos, na esperança de saber mais dos outros e talvez de si.

Espantosamente, logo na primeira capa, reconhece-se na fotografia! Ele próprio, na primeira página do jornal do dia! E, no entanto, nada recorda que justifique uma notícia sobre si próprio. Que será?

Será coisa boa? Coisa ruim? A dúvida faz nascer a hesitação. Valerá a pena ler? Ficar a saber mais de si próprio do que o que sabia, mas ficando sem saber à mesma, porque notícias, há as que são e as que se fabricam…

E assim ficou, jornal na mão, olhos na fotografia, não ousando, porém, tomar decisão de ler.

De manhã bem cedo, hora de ir para a escola, a Ana saiu de casa e reparou num homem sentado no banco do jardim com um  jornal na mão. Aproximou-se.  Abriu a boca de admiração, ao ver que na primeira página do jornal estava a fotografia do próprio homem que segurava o jornal na mão, e que persistia naquela posição, olhos abertos e fixos no jornal, como se tudo o que o rodeava não existisse. Nem sequer levantara os olhos com a aproximação da criança, que estava agora mesmo ao seu lado, mas que era como se não estivesse.

Sem hesitações, Ana  leu a notícia:

“Hoje, pelas 7 horas da manhã, uma criança, ao sair de casa para ir para a escola, deparou-se com o  um homem de meia idade, sentado num banco de jardim e um jornal na mão, já em estado de rigidez cadavérica.  O corpo foi levado para o instituto de medicina legal, procedendo-se agora à identificação do corpo”.

 Foi a única vez que aquele homem foi notícia.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Sem volta




Caminhos que já foram,

que se vêm lá atrás, ao longe

que existiram, um dia,

mas agora não.

Nem voltarão!



Rios de palavras ditas,

que se ouvem na lembrança do pensar

e que jorraram da nossa própria boca.

Mas agora não.

Nem mais se ouvirão!



Pensamentos que se cruzaram

e se lembram na distância da recordação.

Que fizeram sentido.

Mas agora não.

Nem mais se produzirão!



No monitor do tempo,

vês de onde vieste, não vês para onde vais.

O que foi, não é e não será:


É esta, pois,

a terra do nunca mais.
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