sábado, 24 de setembro de 2016

O estranho caso duma flor

Era uma vez um menino que tinha uma flor guardada numa caixinha que transportava consigo, a toda a hora de todos os dias. Porque a flor era a mais bela que alguma vez tinha visto. 
Porém quando a mostrava a alguém, ninguém a achava assim tão bela.,
"Estúpidos", pensava o menino; "não percebem nada de flores!"
Os dias foram passando, os meses e o anos também, mas a flor dentro da caixinha permanecia ao lado do menino, sempre,
Um dia foi o dia da viagem. Para longe ia o menino, para terras distantes, e quis o acaso que, na confusão de malas e bagagens, deixasse a caixinha com a flor, esquecida, em casa.
O tempo da distância foram meses, em que, sempre ocupado a conhecer coisas novas, mundos diferentes, pessoas de outros modos e locais,  o menino, apenas à noite, ao regressar ao tempo de si mesmo, recordava e sentia enormes saudades, da sua querida flor.
Mas depois, recomeçava a vida, e mais um dia se passava sem a poder de novo ter ali, a acompanhá-lo o que fazia que a saudade fosse ficando cada vez mais densa.
Até que chegou o dia do regresso.
De volta à sua terra, ao seu espaço, a primeira coisa que fez foi correr e procurar a flor, sentindo remorsos de a ter abandonado e ansioso por receber de novo aquela visão magnífica que sempre o tornava um pouco mais feliz, todas as vezes.
Lá estava a caixa. Ali mesmo, no lugar onde a sabia ter deixado. Olhou e parou. prolongando o tempo do prazer do saber que a ia ver de novo, tocar de novo, cheirar de novo, sentir, de novo.
Por fim, abriu a caixa.
Espreitou,
Lá dentro a flor.
Uma flor sem graça, descolorida, mal cheirosa, feia.
O menino ficou perturbado. Quem lhe teria trocado a flor tão bela que ele trazia sempre consigo, por aquela tão sem graça?
Ficou triste, muito triste, mesmo. Tão triste, que alguém que o viu assim, logo teimou em saber o que se passava.
E o menino explicou e mostrou a flor sem graça.

"Ouve lá, rapaz. Essa é precisamente a mesma flor que tu transportavas sempre contigo para todo o lado. É a mesma e está exatamente como sempre foi. Nunca ninguém, aliás, chegou perceber porque gostavas tanto dela!!!"

O menino tanbém deixou de perceber.




segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O Sarmento

Tenho de me apressar.  daqui a uma horita chega o Sarmento e a família e a casa tem de estar preparada para os receber.
Muito agradável esta minha casa em Campo de Ouriuqe. Uma moradia térrea, pequena, mas acolhedora. E o melhor é a localização, porque, apesar de estar bem no centro da cidade, quando lá chegamos, parece termos entrado num pequeno largo duma aldeia. Sem barulho de trânsito, sem muito movimento, um oásis de tranquilidade no centro de Lisboa.
Bem, estou a chegar. Poucas vezes cá venho, só quando está para chegar alguém. Hm...Os vizinhos estão na rua. Nem me devem conhecer. A ver se preparo a chave para meter na fechadura mal chegue à porta, não vão eles pensar que eu sou um assaltante, se levar muito tempo a conseguir entrar.
Ok. Cá estou. Um pouco escuro, que os dias já são curtos. preciso de luz...onde diabo está o quadro elétrico...Ah, aqui. Pronto. Ligo a luz e....
Eish!!! Que confusão por aqui vai! Louiça espalhada nas mesa, roupas de cama pelo chão... Bem. Dá tempo. Uma hora ainda até o Sarmento cá chegar.
Mas...
Espera lá!
Sarmento?
Eu não conheço nenhum Sarmento nem nunca contactei nenhum Sarmento!!!!
O Sarmento e a família vem para a minha moradia em Campo de Ourique?
Mas.... Eu não tenho nenhuma moradia em Campo de Ourique!!!!

Bah!

Vou, mas é, comer um pêssego!

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Imaterial

Por todo aquele espaço!
(E não é terreno, nem rio nem mar nem céu...)
Brincam as almas.
Saltam, corem, riem-se,
tropeçam na alegria que constroem.
e caem  sem qualquer som de dor.

Gargalhadas entre sons de água que corre e que não há,
entre chilreios de pássaros que também não há,
múrmúrios de água a correr, mas não há rios nem fontes
e, muito menos, mar.

Sensações apenas.
Desprovidas de corpo.


Desnecessário

Lá, num outro tempo e num outro espaço
não haverá palavras,
nem desenhos,
nem sinais.

Da mesma forma que não se rega um rio.

Lá, num outro tempo e numa outra dimensão,
verás o que eu vejo e não te mostro,
ouvirás o que eu oiço e não te digo.

Da mesma forma que não se fotografa a alma.

Lá, nesse outro tempo e nesse outro local,
os telefones erguerão montanhas.
uns sobre os outros, a enferrujar.
Não haverá livros, que não haverá palavra,
e não haverá palavras que não haverá letras.

Da mesma forma que não se usa o que já não há.

Lá, nesse outro tempo e espaço,
o pensamento será como o ar que se respira
que todos assilmilam e que não é de ninguém.

Da mesma forma que não se guarda o vento.


Lá, não precisarás falar.

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