Quantas vezes olhei para o céu na esperança de o reconhecer. Na esperança que me enviasse pelo menos um sinal de que estava ali e que me estava a ver e a acompanhar. Em especial no final dos dias, quando a escuridão pemite às estrelas acordarem, lembro-me bem de vir a descer do monte, com o rebanho à minha volta e olhar para cima, pensando que poderia ser esse o momento esolhido para descer até cá abaixo e vir falar comigo, dar-me um beijo ou, simplesmente, mostrar-me o seu sorriso.
Nessa altura não percebia bem se seria um anjo ou um ser diferente de um mundo superior, mas acreditava firmemente que estava lá no alto a olhar por mim.
Levei muito tempo até perceber que aquela história estava mal contada...
E nunca sequer, mesmo quando me dei conta do embuste, tive coragem de confrontar a minha mãe com a realidade. O que ela deve ter passado, para precisar de inventar toda aquela história!
Imagino-a, agora, nesses anos, com o medo da culpa refletido na emoção, ao simplesmente imaginar apresentar-se naquele estado, aos olhos de todos. O que não diriam...
Ao mesmo tempo, a sua sensibilidade de mãe, não lhe permitia sequer pensar em levar a cabo a "solução radical", aquela que....não permitiria que eu hoje vos estivesse aqui a contar a minha história.
Compreendo, agora que os anos já me deram o dom da sabedoria, a enorme coragem que ela precisou para me apresentar aos olhos do mundo e para se apresentar a si, comigo ao colo e o José ao lado, mantendo sempre a cabeça erguida!
Por isso lhe desculpo a história do tal anjo, do tal espírito santo e lhe desculpo os anos que passei à procura, lá no céu, de quem lá não estava...
Ao José, só tenho a agradecer todo o amor que foi capaz de me dar, sabendo bem o que sabia, e esperando que me desculpe de, quando criança, procurar na distância, o que tinha, afinal ali bem perto. Pois não é o sangue que constrói o laço, que se ata sim, mas de sentimento!
Obrigado mãe, por me teres querido manter vivo, e também pela capacidade que tiveste em convencer o mundo dessa fantástica historia que inventaste e que resultou.
O teu filho, J.C.
"Por isso é que eu lhes falo em parábolas; porque eles vendo, não vêem, e ouvindo não ouvem, nem entendem." -(Mateus, XIII: 10-15)
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
sábado, 15 de dezembro de 2012
Convicções
Eras a convicção do tipo sol.
Eu explico: não precisamos confirmar, porque sabemos de saber certo, que todas as manhãs ele lá está, mais à vista ou mais escondido, mas está. Lá em cima. Contamos pois com ele e com a sua luz.
No entanto, criamos convicções do tipo sol, relativamente a situações, coisas , pessoas, também.
Convicções que nascem de sentimentos. Mas sem real razão.
Sentimentos não são mais que marcas cerebrais, registos estranhamente gravados no pensar, sem nascimento certo, sem vida independente, sem existência material concreta.
Sendo pois assim as convicções geradas do sentimento e tendo este as caraterísticas anteriormente referidas, são elas portanto de natureza semelhante, sem substância real que lhes dê corpo.
Um longo tempo decorreu. Em espera.
Um longo tempo em que convictamente o ranger da porta, o tocar do telefone, a escuta da palavra rompendo o negro do silêncio, se adivinhava e se acreditava certa.
Mas nem ranger de porta, nem toque de telefone, nem palavra audível se materializaram.
Como se subitamente e com a mesma força de decepção e espanto, naquele dia o sol tivesse desistido de nascer.
Aprende-se.
Aprende-se sempre que se vive.
Mesmo quando o aprender é guardar como conhecimento a destruição do próprio conhecimento que se julgava ter.
E o pensamento fica então mais estéril, incapaz agora de parir novas convicções.
Pelo menos... convicções do tipo sol.
Sente-se a violência nas palavras. O desânimo nos dedos que teclam sem brio e sem fervor.
E fecha-se uma porta, mais uma, mais uma vez.
Talvez pela última vez.
Encerramos, amargamente, dolorosamente e para sempre, o capítulo perfeitamente idiota das convicções do tipo sol.
Eu explico: não precisamos confirmar, porque sabemos de saber certo, que todas as manhãs ele lá está, mais à vista ou mais escondido, mas está. Lá em cima. Contamos pois com ele e com a sua luz.
No entanto, criamos convicções do tipo sol, relativamente a situações, coisas , pessoas, também.
Convicções que nascem de sentimentos. Mas sem real razão.
Sentimentos não são mais que marcas cerebrais, registos estranhamente gravados no pensar, sem nascimento certo, sem vida independente, sem existência material concreta.
Sendo pois assim as convicções geradas do sentimento e tendo este as caraterísticas anteriormente referidas, são elas portanto de natureza semelhante, sem substância real que lhes dê corpo.
Um longo tempo decorreu. Em espera.
Um longo tempo em que convictamente o ranger da porta, o tocar do telefone, a escuta da palavra rompendo o negro do silêncio, se adivinhava e se acreditava certa.
Mas nem ranger de porta, nem toque de telefone, nem palavra audível se materializaram.
Como se subitamente e com a mesma força de decepção e espanto, naquele dia o sol tivesse desistido de nascer.
Aprende-se.
Aprende-se sempre que se vive.
Mesmo quando o aprender é guardar como conhecimento a destruição do próprio conhecimento que se julgava ter.
E o pensamento fica então mais estéril, incapaz agora de parir novas convicções.
Pelo menos... convicções do tipo sol.
Sente-se a violência nas palavras. O desânimo nos dedos que teclam sem brio e sem fervor.
E fecha-se uma porta, mais uma, mais uma vez.
Talvez pela última vez.
Encerramos, amargamente, dolorosamente e para sempre, o capítulo perfeitamente idiota das convicções do tipo sol.
Subscrever:
Comentários (Atom)