sábado, 23 de março de 2013

Os peixes


Foi numa noite igual a esta. Uma noite sem luar, em que os cantos das cigarras e dos grilos, o tocar dos sinos, ao longe, as estrelas a brihar em cima, tornavam tão suave o passar das horas.

Mas claro que não há, de facto, noites iguais. Da mesma forma que não há nem pessoas, nem animais, nem plantas, nem rochas iguais.  Apenas nos parecem iguais, pela falta de empenho em observá-las.

Nessa noite, igual e diferente de todas as outras, aconteceu o inimaginável. Do leito da ribeira que se faz esconder das vistas, pelas folhas e ramos das árvores que trepam pelas encostas que a enformam, um peixe saltou para fora de água. E logo a seguir outro e depois mais outro, de forma que, em escasso tempo, centenas de peixes tinham saído da água da ribeira e iniciado, em simultâneo,  uma aventura coletiva terrestre. E isto porque conseguiram começar a respirar o ar gasoso, as barbatanas ventrais, viraram patas, com garras nas extremidades, permitindo-lhes assim novas caminhadas por locais que nem imaginavam existir.

Como aconteceu e porquê? Vá se lá saber...

 Dirão uns que foi um acaso da genétca, outros descobrirão ali a mão do Criador, outros dirão que é a vontade que domina o corpo, e que a ânsia de se libertarem do fluido existencial, ganhou tão forte energia transformadora , que impôs ao corpo a criação de novas aptidões - ou seja, uma transformação psicossomática.

Fosse  lá porque razão fosse, a verdade é que mal puseram barabatanas em terra firme, os peixes iniciaram a sua caminhada, que, não passou desapercebida a  um rapaz da aldeia ali ao lado, que, ao passar de manhã junto à ribeira, se deparou com o extarordinário caso de ver centenas e centenas de peixes fora de água, mas vivos e bem vivos, caminhando em terra, e trepando aos troncos das árvores, numa estranha ânsia de ascender, como se o simples visualizar do céu, os impelisse a caminhar para cima, sempre para cima.

Ficar calado é próprio dos peixes, que não falam, mas não dum ser humano. E assim foi que de imediato correu este rapaz à sua aldeia a contar o que acabara de ver. O difícil foi fazer que acreditassem nele. Chamaram-lhe, pois, grande mentiroso, disseram-lhe que se embebedava logo de manhã, sabemos lá nós, que mais lhe terão dito! 

 Acreditar seja em quem for, é sempre tão difícil, até mesmo nas situações mais simples, quanto mais num caso como aquele. Acreditar implica confiança e confiar é um risco que pode ter um preço que o mais das vezes não se quer pagar.

E foi por isso que uma delegação de gentes respeitáveis lá da aldeia, se decidiiu a acompanhar o moço, pois de outra forma não havia meio de o fazer calar.

E logo a seguir foram os jornais, as entrevistas, as notícias, que colocaram aquela aldeiazita com nome nos mapas. O caso estava mais que confirmado. O caso estava mais que divulgado.

Foi a partir dessa noite memorável, que os hábitos das pessoas se alteraram, já que, a zona da ribeira rapidamente se transformou em local de romaria de fim de semana, para todos os moradores das aldeias da região. E era vê-los, logo pela manhã, a caminharem quais romeiros pelos caminhos da encosta, cesta do farnel e garrafão de vinho, mantas para colocar no chão, enfim, tudo o necessário para um dia bem passado. 

E foi assim que, num desses fins de semana, alguém que já perdeu o nome devido ao tempo que se encarregou de o apagar dos registos das memórias vãs, se lembrou de, enquanto assava um chouriço na fogueira, deitar a mão a um dos peixes que trepava por uma árvore logo ali ao seu lado, e colocá-lo na grelha, ao lado do dito chouriço. Estranho, de facto, era não ter havido ainda alguém com a mesma ideia...

Assada que estava a criatura, foi dividida em pedacinhos pela família e amigos. Um espanto! Esquecendo o pormenor das patas, em tudo o mais um peixe como os outros, e fresquinho, pois acabado de "ser pescado" da árvore!

Mais dois fins de semana, bastaram.  Dois fins de semana de matança e festim, foram o suficiente para que não sobrevivesse nem sequer uma única daquelas estranhas criaturas.

Mas também nunca mais se voltou a repetir o estranho fenómeno daquela noite aparentemente igual a tantas outras.

Há quem diga que a razão de nunca outra vez tal transformação ter acontecido, está na aprendizagem:

- os peixes aprenderam que, o ser diferente, mesmo no caso dum simples peixe, pode ter como custo a sobrevivência.

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