Foi numa noite igual a esta. Uma noite sem luar, em que os cantos das
cigarras e dos grilos, o tocar dos sinos, ao longe, as estrelas a brihar em
cima, tornavam tão suave o passar das horas.
Mas claro que não há, de facto, noites iguais. Da mesma forma que não há
nem pessoas, nem animais, nem plantas, nem rochas iguais. Apenas nos parecem iguais, pela falta de
empenho em observá-las.
Nessa noite, igual e diferente de todas as outras, aconteceu o
inimaginável. Do leito da ribeira que se faz esconder das vistas, pelas folhas
e ramos das árvores que trepam pelas encostas que a enformam, um peixe saltou
para fora de água. E logo a seguir outro e depois mais outro, de forma que, em
escasso tempo, centenas de peixes tinham saído da água da ribeira e iniciado,
em simultâneo, uma aventura coletiva
terrestre. E isto porque conseguiram começar a respirar o ar gasoso, as
barbatanas ventrais, viraram patas, com garras nas extremidades,
permitindo-lhes assim novas caminhadas por locais que nem imaginavam existir.
Como aconteceu e porquê? Vá se lá saber...
Dirão uns que foi um acaso da
genétca, outros descobrirão ali a mão do Criador, outros dirão que é a vontade
que domina o corpo, e que a ânsia de se libertarem do fluido existencial,
ganhou tão forte energia transformadora , que impôs ao corpo a criação de novas
aptidões - ou seja, uma transformação psicossomática.
Fosse lá porque razão fosse, a verdade
é que mal puseram barabatanas em terra firme, os peixes iniciaram a sua
caminhada, que, não passou desapercebida a
um rapaz da aldeia ali ao lado, que, ao passar de manhã junto à ribeira,
se deparou com o extarordinário caso de ver centenas e centenas de peixes fora
de água, mas vivos e bem vivos, caminhando em terra, e trepando aos troncos das
árvores, numa estranha ânsia de ascender, como se o simples visualizar do céu,
os impelisse a caminhar para cima, sempre para cima.
Ficar calado é próprio dos peixes, que não falam, mas não dum ser
humano. E assim foi que de imediato correu este rapaz à sua aldeia a contar o
que acabara de ver. O difícil foi fazer que acreditassem nele. Chamaram-lhe,
pois, grande mentiroso, disseram-lhe que se embebedava logo de manhã, sabemos
lá nós, que mais lhe terão dito!
Acreditar seja em quem for, é
sempre tão difícil, até mesmo nas situações mais simples, quanto mais num caso
como aquele. Acreditar implica confiança e confiar é um risco que pode ter um
preço que o mais das vezes não se quer pagar.
E foi por isso que uma delegação de gentes respeitáveis lá da aldeia, se
decidiiu a acompanhar o moço, pois de outra forma não havia meio de o fazer
calar.
E logo a seguir foram os jornais, as entrevistas, as notícias, que colocaram
aquela aldeiazita com nome nos mapas. O caso estava mais que confirmado. O caso
estava mais que divulgado.
Foi a partir dessa noite memorável, que os hábitos das pessoas se
alteraram, já que, a zona da ribeira rapidamente se transformou em local de
romaria de fim de semana, para todos os moradores das aldeias da região. E era
vê-los, logo pela manhã, a caminharem quais romeiros pelos caminhos da encosta,
cesta do farnel e garrafão de vinho, mantas para colocar no chão, enfim, tudo o
necessário para um dia bem passado.
E foi assim que, num desses fins de semana, alguém que já perdeu o nome
devido ao tempo que se encarregou de o apagar dos registos das memórias vãs, se
lembrou de, enquanto assava um chouriço na fogueira, deitar a mão a um dos
peixes que trepava por uma árvore logo ali ao seu lado, e colocá-lo na grelha,
ao lado do dito chouriço. Estranho, de facto, era não ter havido ainda alguém
com a mesma ideia...
Assada que estava a criatura, foi dividida em pedacinhos pela família e
amigos. Um espanto! Esquecendo o pormenor das patas, em tudo o mais um peixe
como os outros, e fresquinho, pois acabado de "ser pescado" da
árvore!
Mais dois fins de semana, bastaram.
Dois fins de semana de matança e festim, foram o suficiente para que não
sobrevivesse nem sequer uma única daquelas estranhas criaturas.
Mas também nunca mais se voltou a repetir o estranho fenómeno daquela
noite aparentemente igual a tantas outras.
Há quem diga que a razão de nunca outra vez tal transformação ter
acontecido, está na aprendizagem:
- os peixes aprenderam que, o ser diferente, mesmo no caso dum simples
peixe, pode ter como custo a sobrevivência.
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