Só naquele dia tinham sido mais de 50 quilómertos. De carro não teria sido nada... Mas não, grande parte tinham sido quilómetros percorridos a pé, por caminhos sem caminho, por cima de pedras, às vezes, de terra solta outras vezes e de lama muitas vezes. Não se pode ver a costa, de carro. Não se pode sentir a costa, de carro. E havia que observá-la, senti-la a pulsar na alma, ingeri-la, digeri-la. Para enfim decidir.
Além do mais não tinha sido só naquele dia. Já muitos outros antes tinham decorrido da mesma forma. Com idêntico propósito e com idêntico cansaço.
Alguns locais pareciam adequados, mas... faltava sempre qualquer coisa, um toque de enrgia, um toque de calor visual, alguma coisa sem que se saiba seuqer exatamente o quê..
Por isso a busca iria continuar sabe Deus (se é que Deus verdadeiramente sabe alguma coisa) até quando.
Dormiu mais uma vez dentro do carro, adaptado para esse efeito, e levantou-se cedo. Da mochila tirou o necessário para se revestir de energia para uma nova jornada e aí foi ele. Mais um dia, mais 8 horas de esperança, que a esperança só poderia acontecer enquanto houvesse sol, depois seria impossível.
Caminhou e caminhou e caminhou. Por varias vezes parou, observou e sentiu. Mais um dia sem resultados. Assim pensou, quando, porém, subitamente, ao descer dum promontório, deu com um local diferente de tudo o que tinha sentido até ali chegar. Eram as cores, o calor, as formas, mas, mais que tudo, as energias telúricas que, tal como um rio, ali se alargavam num estuário de arrepiar os sentidos.
Não havia, portanto, mais nada a decidir, mais nada a procurar, porque quando se encontra já não se procura, a não ser que não se saiba o que se procura, mas nesse caso também não se teria encontrado, nem haveria qualquer esperança de se encontar. Não era esse o caso.
Dormiu.
No dia após, começou por marcar no GPS o local. Depois, então, comeu. A toda a pressa, voltou à cidade. Foi ao hotel e carregou para o carro tudo o necessário: telas, pincéis, tintas, mochila, tenda e cavalete. E lá foi, confiante no GPS.
Conduziu até onde a viatura conseguia ir, parou e caminhou. levando tudo, excepto o cavelete, e a tenda, que já não tinha mais mãos. Não dá deus mãos consoante os objetos, ao contrário do que faz ao frio em relação à roupa, mas ninguém é perfeito e, portanto, deus também não.
Chegou e sentiu de novo.
Era portanto mesmo ali!
Voltou ao carro a buscar o resto.
Faltava já bem pouco para começar o trabalho agora que levava já consigo o cavalete e a tenda, quando traiçoeira, um pedra debaixo duuma bota se desprendeu e o fez dar uma valente queda. Foi com uma grande dor no joelho que se ergueu e se apercebeu de que o cavalete estava irremediavelmente inutilizado.
Juntou num cantinho do rochedo tudo o que já tinha conseguido transportar e, sem alternativa, voltou ao carro, à cidadee foi à loja, comprar um cavalete novo. Com isto se fez noite, e, portanto, regressou ao hotel para passar uma noite tranquila.
No dia seguinte, bem cedinho, lá seguiu de novo, levando comsigo mantimentos, para não ter de sair do local para satisfazer básicas necessidades fisológicas, com seja comer ou fazer cocó.
O trabalho era longo, interromper seria pior que protelar.
Não foi um dia, nem dois, nem uma semana. Foram mais, muitas semanas seguidas de trabalho, recorrendo a latas de atum, de sardinhas, de feijoada com sabor à marca e sem sabor ao feijão, muitas semanas de trabalho duro e de cheiro a corpo não lavado. Mas, também semanas repletas de prazer. Prazer no sentir das rochas, dos musgos, dos verdes das plantas, dos azuis do céu e do mar, do cinzento dos calcários, do piar das aves, de tudo isso e muito mais, mas, sobretudo, do sentir das energias da terra, tão fortes como em nenhum outro lugar que conhecesse muito menos em que tivesse estado.
Não admira pois, que o trabalho fosse fluindo como um rio no Inverno.
Finalmente parou.
Olhou.
Deu por concluido.
Pegou no seu trabalho, com todo o carinho do mundo e levou-o com ele, junto ao coração, de regresso à cidade.
Dormiu sem dormir quase.
E no dia seguinte, tomou o pequeno almoço, sem comer quase, para rapidamente chegar à galeria, onde o proprietário já o aguardava, esperando ansiosamente para expôr o novo trabalho do famoso mestre.
Assim que o recebeu das mãos so seu autor, olhou-o atentamente e, boquiaberto, voltou-se para o pintor, de forma pesadamente interrogativa.
Obeteve , do pintor, esta resposta:
- Então não vê?
É um mamarracho!
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