quarta-feira, 23 de julho de 2014

Jolas


Não sabes, eu sei que não.
Mas havia um velho, muito velho, tão velho que já nem tinha idade, e que não se lembrava, já, de quase nada. Já nem do próprio nome tinha a certeza.
Portanto, a sabedoria morre com a idade, ao contrário do que vulgarmente se pensa.  Ou talvez não… Talvez não se lembrando de nada, aquele velho tenha ganho a sabedoria do sentir, forma superior de sabedoria  que apenas se alcança no patamar da total ignorância do concreto e, em simultâneo, do profundo conhecimento do abstrato.
A esse velho, não valia a pena perguntar-lhe as horas, ou o dia da semana, ou o país onde vivia. A nada disso sabia responder.
No entanto, falava. Ou, pelo menos, proferia uma sucessão de palavras, algumas de significado desconhecido, com as quais parecia realmente produzir frases e elaborar um discurso.

Mas quem o ouvia, raramente o entendia.
Uma noite, por nada mais terem a fazer, dois jovens, meio alegres de cerveja, resolveram divertir-se fazendo perguntas ao velho, enquanto as jolas iam descendo esófagos abaixo, juntamente com os risos que subiam, traqueias acima, conseguidos com as respostas que iam ouvindo, feitas de frases desconexas construídas com palavras sem sentido.
Passadas umas boas horas de divertimento, o jovem mais alto, olha para o outro e diz-lhe:

-Sabes, preciso de te dizer uma coisa complicada e muito séria.

O que, num instante fez parar os risos, os discursos do velho e as jolas.
-Olha, a tua mota nova, fui eu que a mandei para a sucata. Ia a sair da garagem de marcha….

- Já sabia. Sabes, eu vi, estava à janela.
-Mas então… Que diabo, sabias e não disseste nada? E eu …

Fez-se o silêncio por uns minutos, até que se ouviu voz do velho:
“Falar para se dizer e  se ouvir o que se conhece…

 Doem-me os ouvidos: a amizade pode ser um  silêncio que grita muito alto!

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