A descoberta
O Zé ia a caminho de casa, quando de
repente, ao tomar consciência dos pensamentos que ia pensando achou
por bem alterar o seu caminho.
Mas...Estaria lá?
Virou a esquina, caminhou pela rua de
prédios baixos e estragados, papéis no chão, lixo no chão e gente feia que se espalha por
locais como aquele, (vá se lá saber porquê, parece que o feio
atrai o feio, numa lei gravitacional por descobrir), a fim de chegar
mais rapidamente ao seu destino, sofrendo com isso um caminhar
desagradável, não por fadiga nas pernas ou dores nos pés, mas
apenas por desconforto visual. Apesar do encurtar do caminho por
aquela rua ser significatvo, a distância continuava sendo, ainda
assim, apreciável.
Mas... Estaria lá?
Tanto poderia estar como não estar,
mas a possibilidade primeira, fazia parecer-lhe valer a pena o
esforço, mesmo que, pudesse oa situação ser inversa à desejada.
O Zé ia ganhando consciência do
desperdício de tempo que poderiam ser aquelas horas, mas, ainda
assim, a possibilidade de o não serem dava-lhe o alento necessário
para continuar a caminhada longa.
Mas estava.
Embora, ainda faltando tanto para
chegar, fosse impossível ao Zé saber que sim.
E estava, estando tranquilamente a
cozinhar pedras em água fervente, que é o mesmo que dizer que
estava ocupado em se ocupar, sem objetivo narrável. E neste desejo
de ocupação permaneceu, satisfeito do que não estava a fazer,
porque fazer pode ser pior que o inverso, dependendo da vontade e
das circunstâncias, e nada pior que a perturbação de um tal estado,
quando ele se apodera do nosso espírito, tal como as ondas do mar se vão
apoderando da areia, por ação da lua que vai puxando as águas, lá
ao longe. No caso do nosso espírito, não será certamente ação da lua mas talvez de alguma alma penada que ande por aí em passeio errático.
Passou o tempo, ficaram para trás
passos e mais passos e fez-se perto o que era longe e de tal forma,
que agora o Zé já conseguia ver.
E viu.
E viu que estava.
Entusiasmou-se e começou a andar,
agora mais depressa.
Ao mesmo tempo que quem estava, via
agora, por seu turno, um vulto conhecido que se aproximava. Largou
rapidamente o que não estava a fazer, para que não fosse dar-se o
caso de passar a ter que fazer alguma coisa, nem que fosse só falar,
o que seria mais que o suficiente para o distrair do ferver das
pedras.
Saltou para a rua e rapidamente caminhou em direção oposta,
perdendo-se no nevoeiro que nasce, quando muitos corpos juntos se
transformam em massa, deixando pois de serem pessoas. Podendo, pois, continuar a cozedura.
Já de tão perto, conseguiu o Zé
ainda ver o salto, mas depois, já só o nevoeiro.
Deus que é tão bom para prover no
que não faz realmente falta, criando a ilusão de providência,
quando não provê o que realmente importaria que provesse, teve a
bondade de lhe oferecer uma cadeira ali abandonada, meio estragada e
totalmente suja, mas que permitiu ao Zé sentar-se em plena rua,
descansar e agradecer a benção da cadeira.
Foi assim, sentadinho e confortável,
que o Zé fez enorme descoberta.
Sorriu, chorou, calou.
Seguiu viagem.
Mas ainda continua a pensar nisso.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Comenta aqui!