Aqui te vou contar as importantes descobertas que um homem estúpido acaba, ao fim de um longuíssimo processo de reflexão, conseguir fazer. (Pensa ele que terá conseguido fazer, não sendo, porém, absolutamente certa tal realização, dado que o grau de estupidez do indivíduo em causa, pode fazer com que lhe pareça ter, neste caso, conseguido uma realização dedutiva, quando, afinal, apenas elaborou mais um dos seus disparates mentais). Porém, a sua verdade atual é de ter sido eficaz e perspicaz na sua produção reflexiva. Prossigamos, portanto, narrando o resultado de tão grande e longo esforço mental.
Dizia ele que:
aos 6, 7 anos, se não lhe falha a contagem dos anos de memória, andava sempre consigo, para onde quer que fosse, fosse em casa, fosse fora, o Lulu. Era branco, felpudo, próximo, obediente, embora, para que não se distraísse com um cheiro bom, ou com uma cadela mais produzida, seguisse sempre preso por uma corda, tipo trela, que ele, o dono segurava com cuidado. Quer caminhasse na rua acompanhado por um familiar, ou corresse num jardim, ou fosse para a escola, o Lulu ia sempre ao seu lado. Curioso e estranho era que nunca ninguém prestasse qualquer atenção ao cãozito! A não ser quando ele próprio falava dele ou conversava com ele. Aí sim, as pessoas mostravam interesse pelo Lulu e perguntavam-lhe as caracterísitca do animal, como se não o pudessem ver!
O tempo foi passando, o indivíduo foi crescendo e o Lulu foi-se...evaporando-se. Por certo terá sido evaporação, já que não tem ele qualquer registo mental ou escrito de que alguma vez se tenha efetuado o funeral do Lulu ou um simples enterramento. Evaporou, deve ter sido isso.
Logo a seguir, apareceu-lhe deus. Este trazia uma enorme vantagem: quase toda a gente o conheci e falava dele, sendo pois mais fácil até, conhecê-lo do que se consegue conhecer um cão. Porque de deus toda a gente sabia alguma coisa, embora nem sempre o que as diferentes pessoas sabiam, coincidisse. Pouco importa para a história... Deus aparecer foi bastante bom, até porque com deus é aceitável que se converse e deus não o precisava de levar por uma corda preso , porque deus, por definição, estava sempre em toda a parte, o que representava uma enorme vantagem prática!
E depois....deus tinha poderes! Coisa que jamais passaria por alguém esperar dum simples cão. A deus até se podia pedir "coisas". De deus até se podia esperar "coisas". Nessa altura, mesmo nos momentos mais tristes, o indivíduo contava com deus ao seu lado e isso fazia-o sentir-se muito bem.
Entretanto, o tempo foi passando... e não, deus nunca se evaporou como o Lulu. Nada disso. Foi antes um assassinato. Ele resolveu matar deus. Porque progressivamente foi descobrindo que deus era, na verdade,um embuste. deus era um ser absolutamente egocêntrico, ´só fazendo o que lhe apetecia, satisfazendo os pedidos de uns, ignorando os pedidos de outros, discricionariamente. Descobriu, também, deus só poderia considerar-se um ser muito malvado: com tantos poderes e permitindo tanta desgraça. Mas também onde a admiração, se ele até o próprio filho tinha deixado morrer numa cruz?
Decididamente o melhor lugar para deus é no cemitério, concluiu o indivíduo, e sem dó nem piedade, matou deus.
Anos foram, anos vieram e um belo dia descobre por acaso, numa das curvas da vida (se é que a vida tem realmente curvas, que uma curva ter curvas não deixa de ser matéria a exigir nova e profunda reflexão) o seu muito querido amigo Manipulas. Pessoa com qualidades excecionais. E estabelece com ele uma amizade improvável, quiçá superior à que tinha com o Lulu e à que tinha com deus. Ou talvez de grau idêntico. (Temos de perceber que um homem estúpido tem destas coisas, enormes dificulades em medições). E durante alguns anos o Manipulas foi de facto, um elemento estruturante da sua vida. Tal como o tinham sido anteriormente o Lulu e o deus... Mas o Manipulas, embora tal como deus, pudesse ser visto pelas pessoas comuns, que tal como sobre deus, sobre ele tinham opiniões não coincidentes, noutros aspetos era muito mais semelhante ao Lulu, pois definitivamente nunca estava em todo o lado, aliás... quase nunca estava em lado nenhum. Passava por lá. Quando a vontade, o mais da vezes a necessidade, a isso o contsrangiam.
E...tal como o Lulu, o Manipulas apresentava caraterísticas que o indivíduo via, mas que os outros não viam! estranhamente. Curiosamente.
O Manipulas, ao contrário do Lulu, que evaporou e do deus, que foi assassinado, autodestruíu-se.
E foi com base neste longos (assim contados nem se tem a noção do tempo que demoraram...) acontecimentos da estrada, curva, ou seja lá o que for que a vida é, que o indivíduo chegou a importantes descobertas.
Ou melhor...terá chegado, pois assim ele o disse.
No entanto, dessas importantes conclusões, apenas sabemos o registo que escreveu. Ainda por cima, nada original, mas aqui o transcrevo, tal como ele o escreveu, palavra por palavra.
"Mais vale só, do que mal acompanhado!"
Por certo uma paupérrima descoberta, se descoberta lhe podemos chamar...
Mas, também, dum homem estúpido, pouco mais seria de esperar!!!
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