Contágio
Não era dia nem era noite, era um tempo fora do tempo, em que o pensamento tem a liberdade de se confrontar com o passado e com o futuro levitando por cima do presente, como se este fosse a única parte do tempo que não existe..
O Manuel, encostado à sombra duma árvore, aproveitou esse momento improvável para imaginar, a partir do que foi, o que poderia vir a ser.
Recuou até ao momento do nascimento, depois viu-se a mamar, depois a gatinhar, a crescer, depois na escola... e continuou a ver o seu percurso normal, de uma criança normal num ambiente normal.
Com tudo assim tão normal, não se podia espantar de ser um homem normal. Melhor: podia prever continuar a ser um homem normal.
Mas olhando para dentro de si mesmo, conseguia observar uma mancha progressiva de cansaço provocada precisamente por tanta quantidade de normalidade. Era um risco.
Retornou ao tempo real.
Olhou em volta.
Para além da sombra onde se acolhera, reinava o sol intenso, dando cor a flores, folhas, incentivando à vida os pequenos insetos que por ali circulavam livres de interrogações. Sendo essa provavelmente a definição de liberdade total: a existência sem interrogações.
Decidiu ir até à cidade. Uma cidade absolutamente normal, com pessoas em permanente deslocação, mais que os insetos, mais que os astros, pessoas sempre em movimento, sem que alguém consiga explicar o motivo que transformou os seres humanos em contínuos vai-vens.
Circulou pelas ruas durante mais de uma hora e foi registando mentalmente o que ia vendo. Depois, regressou a casa, ligou o computador e começou a escrever aquilo que tinha conseguido identificar como provavelmente diferente, destoando do conjunto de normalidades que maioritariamente observou.
Finalmente imprimiu as notas que tinha acabado de escrever, colocou-as em cima da mesa, ao lado do teclado , para futura reflexão, e foi-se deitar, como sempre fazia num dia normal como aquele.
Mas a noite não foi normal de todo!
Dormiu em desassossego- perturbado pelas notas que tinha escrito. E imaginava-se a ele mesmo a tomar as características do diferente que tinha visto.
Via-se agora mais baixo, com uma pele mais escura, de chinelos e sem meias, a deambular numa praça em que reinava uma outra normalidade diferente daquela a que estava habituado, e que, por isso mesmo, não podia considerar normal. Voltava a adormecer, para logo a seguir acordar ao sonhar-se vestido de saias, de lábios pintados e de saltos altos, enquanto caminhava pela cidade.
Ao surgirem-lhe essas imagens de si mesmo transformado, quase dava saltos na cama, assustado, temeroso, zangado. Essa possibilidade de transformação inquietava-o duma forma estranha e absurda, pois ele sabia que sempre fora e continuaria a ser igual. Mas, mesmo assim, o sono não compreendia isso e em vez de ter uma noite tranquila e reparadora, passou uma noite de desassossego.
Acordou no dia seguinte, após uma noite mal dormida, tomou o pequeno-almoço, e saiu para a rua para dar um passeio até ao parque da cidade.
Doía-lhe a cabeça.
Como era habitual àquela hora, cruzou-se com o Rui que estava a treinar no parque, mas, ao cruzar-se com ele, não lhe apeteceu falar, e fez que não o viu.
O mundo do sonho atravessava-se continuamente no seu pensamento ao ponto de precisar de ver o seu próprio reflexo na água do lago, para ter a certeza que não tinha sofrido nenhuma das transformações com que tinha sonhado.
Contágio....o contágio... Seria possível o contágio?
E à medida que o sol ia percorrendo a superfície plana da Terra dum extremo ao outro, tornando próxima a chegada da noite, o Manuel foi ganhando a certeza de que o contágio sim, era possível!
E foi ganhando a certeza de que precisava fazer alguma coisa, com urgência.
Esperou pelo anoitecer.
Preparou-se para o anoitecer.
Mal ficou escuro e o movimento reduzido nas ruas tornou exequível o seu plano, o Manuel fez o que tinha de ser feito.
E nessa noite dormiu sem pesadelos, com a tranquilidade de um anjo.
No parque o sangue que ficou, rapidamente será absorvido pela terra, a no lago a água rapidamente diluirá a putrefação dos corpos impedindo qualquer risco de contágio.
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