quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Sem valor

Era uma noite escura, uma daquelas em as pedras vindas do céu, batem nos vidros que gritam lágrimas que escorrem paredes abaixo até chegar aos rios que se vão formando ao longo da terra sedenta. Uma daquelas noites em que as estrelas se escondem por detrás das núvens, para deixarem ver melhor os desenhos que a trovoada faz no alto, por cima de milhares de cabeças, desconfiadas, que, ou se escondem ou fazem de  conta que estão a ver um fantástico filme projetado no firmamento, escondendo, deste modo, o pavor que se lhes infiltrou desde a pele até aos ossos.
Foi nessa concreta noite, que por entre o som das vozes dos trovões e do vento, se fez ouvir o que parecia o chorar duma criança.
Mas um choro tamanho, de intensidade tanta, que nem sino de igreja com ele conseguiria competir no alcance e na intensidade.
Claro que, dadas as condições meteorológicas descritas, a nenhum mortal passaria pela cabeça, sair do seu conforto de casa, para ir ver o que seria. Por mais arrepios, estranheza, temor que tal choro tivesse produzido, a inércia sobrepunha-se à vontade de saber a razão do choro e a sua peoveniência.
Mas não há noite que sempre dure, nem dia que nuca se acabe! (Isto não é Ciência, porque não conhecendo nós o futuro, não podemos afirmar taxativamente que é assim. Poderá vir a haver a noite eterna ou o dia eterno e então o que foi dito transformar-seá em mentira, pura e simples) Precisemos que até aos dias de hoje nunca houve noite que sempre durasse ou dia que nunca se acabasse, e, agora sim, isto é  Ciência,)
Portanto, esta noite de meter arrepios às pedras, acabou por se tornar num amanhecer tranquilo, sem vozes de trovoada, sem chuva de construir poças, mas apenas uma manhã tranquila, sem Sol a brilhar, é certo, mas resplandecente de serenidade. Depois da tempestade, até hoje sempre veio a bonança.(Assim escrevemos agora como deve ser escrito, no rigor da Ciência.
Claro que está que a conversa nos cafés, mercados, praças, enfim em todos os lugares que as pessoas definiram, sem necessidade de construçao de plano de evacuação) como seus lugares de encontro, o tema da conversa era sempre o mesmo: o grito de fazer arrepiar até as unhas dos pés (o que é muito extraordinário por não constar que possuam enervação.)
Mas foi o Padre, que lá na praça de Santo Egídio, foi apaz de ezplicar o caso,
Porque sobre os padres desce em permanência a inspiração divina, quer eles gostem quer a preferissem dispensar.
Com a sua caneca de "sangue de Cristo na mão, o Senhor Padre lá oconseguiu pronuciar uma frase completa: "foi um anjo que se perdeu no caminho e começou a chorar".
É, de facto, esta a funçao mais importante dos padres; a de explicar os  enigmas que prefuram até mesmo, o basalto das rochas que foram a Mamoua.
Mas já não houve trmpo de ir procurar o anjo.
Talvez um dia, talvez um dia.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

É um túnel negro,
(basalto que esmaga, basalto que faz noite.)
É um túnel sem fim,
(de basalto grande, basalto que faz peso.)

Cai um pedaço, do tamanho do Mundo,
(porque o basalto é grande.)

E já não há por cima nem por baixo,
És lâmina prensada,
que o basalto esconde.


Momentos

Chegam de manso, em surdina,
não se esperam, não avisam,
e entram, pela porta fechada,
pelo estore corrido,
no som do rádio desligado.

Entram e ficam.
Colados, pegados, pegajosos.

Até que um copo de whisky
os faça adormecer.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

As razões duma mancha castanha

Decidiam ir para Alcanena. As razões são desconhecidas. Tal como normalmente acontece, relativamente tanto a decisões que se tomam como a situações que acontecem. Mas nunca há acasos. Tudo acontece devido a uma cadeia complexa de causas e efeitos dessas mesmas causas, que são tantos os efeitos e tantas as causas, que não têm espaço para ficarem registadas na nossa compreensão: tal como aquele gato que acabou de subir àquela árvore naquele dia e naquela hora, porque um determinado cão nasceu há 6 anos(seria fácil explicar também, as causas  do nascimento do cão naquele preciso ano, mas deixemos para lá)  e foi levado até ao parque onde o gato estava porque o dono (mais uma vez um conjunto de causas efeitos fez com que determinado senhor ficasse dono do referido cão...) precisava de o levar a passear àquela precisa hora pois tendo dormido mal, achou que nquele dia um passeio o poderia pôr mas bem disposto, e escolheu aquele local, porque, tinha visto no dia anterior uma tabuleta, na estrada, com a indicação, estrada por onde ele habitualente não passava,mas por onde passou naquele dia, por ter ligado o GPS (e ligou-o porque acabara de lhe ser oferecido pelo avô,(claro que houve outras causas que determinaram a prenda do avô) que lhe mostrou uma outra rota para  chegar a casa. E é este conjunto de causas que fez com que ogato tivesse naquele momento do tempo do mundo, de subir a uma árvore para fugir dum cão. E assim se explica que o acaso é apenas a resultante de não sermos capazes de conhecer todos os acontecimentos que se transformam em causas com consequências bem precisas e que não poderiam ser diferentes. Julgamos ter o poder de decisão, mas mesmo as decisões acontecem por determinação de uma conjugação de factos que se registaram nos nossos cérebros e determinam consequências precisas a que, com a falta de modéstia que nos caracteriza enquanto espécie, entendemos chamar de decisões. Não há , porém, nem acasos nem decisões. O que há são causas e suas consequências.
E sendo assim, corrigindo o que tinha escrito anteriormente, um conjunto desconhecido de causas teve como consequência, que o Manuel, a sua mulher Ana e a filha, a Rosinha, fossem, naquele preciso ano de 2010, passar as suas férias na praia fluvial de Alcanena, numa pequena pensão, de amiente familiar, que lhes indicaram.
Um espaço a jorrar de vida, nas margens choupos e Salgueiros dão abrigo às mais variadas espécies de aves fornecendo, ao mesmo tempo, agradáveis zonas de sombra, junto ao rio Alviela, que, acabado de nascer, conserva ainda, naquele local, a pureza original das suas águas, que se exprimem ruidosa e
 alegremente ao saltarem os desníveis do seu percurso.
Instalou-se na família uma espécie de rotina de férias. Levantar tarde, tomar o pequeno almoço, fazer um farnel e ir para a praia.
Mas instalou-se, também uma outra rotina, por parte de Rosinha. A Rosinha, que tinha acabado de fazer 9 anos, era uma criança alegre, bonita, mas com um nevo castanho na testa, que, porém, a tornava ainda mais engraçada.  especialmente quando sorria.
Ora  de todas e de cada vez que mergulhava, a Rosinha virava-se para os pais, ao memo tempo que reparava nos cardumes de peixes que ali abundam, dizendo: "deve ser tão bom ser peixe!".
O Mnuel, católico praticante e convicto, de todas as vezes, explicava à filha que o Homem havia sido criado à imagem e semelhança de Deus e que por isso dizer-se que seria bom ser peixe, é um pecado.
Chegou mesmo, certo dia a, em vez de  irem à praia, como habitualmente, fazerem uma deslocação ao Santuário de Fátima, logo ali ao lado, para que a Rosinha percebesse melhor os mistérios da religião, que, afinal, tão pouca gente percebe, se é que há mesmo quem perceba.
Resltados nulos: logo no dia seguinte, ao mergulhar, a mesma coisa:"deve ser tão bom ser peisxe!". O que levou a Ana a dizer ao Manuel, ao aperceber-se da sua irritação crescente: "não ligues, coisas de crinças! E, de qualquer forma, os peixes também são criaturas de Deus."
Mas  mais uma vez por razões de cadeias de causas e efeitos, o período reservado às férias não é ilimitado, e chegou o dia da última ida à praia naquele ano. Esse último dia de férias em ALcanena, decorru quase como de costume.
Mas apenas quase, dado que, a deterninada altura, já todos dentro de água, se ouvir a voz da Ana:
"Oh Manuel, onde está a Rosinha?"
Mas a Rosinha não estava em lado nenhum. Estavam todos a nadar mesmo ao lado uns dos outros, no entanto, de repente, a filha tinha simplesmente desaparecido.Bem que procuraram no fundo das águas, mas a boa visibilidade daquele rio tão limpo naquele local, não deixava dúvidas..Não estava lá Terá sdo arastada pelas aguas? Chamaram-se as entidades oficiais: polícia, bombeiros. Todo o local foi passado a "pente fno", mas nada de Rosinha, nem viva nem cadáver. Durante meses a investgação prosseguiu. E prosseguiram também as lágrimas, as recriminações, a raiva de terem "decidido" ir passar férias para aquele local.
Progressivamente as rotinas de vidas de trabalho foram-se de novo instalando. Nasceu uma nova Rosinha e logo a seguir um Ronaldo.
Acontece que o Pedro e o Rui às 7 horas da manhã do dia 7 de Setembro de 2012 froam à pesca. Contrariamente ao habitual,não foram em vão. Conseguiram pescar 6 carpas, cada uma que chegava para uma refeião para os dois. Contentes com o resultado, foram mostrar a pescaria à família. Foi então que a Raquel, que vivia há mais de 3 anos já com o Rui, fez uma estranha descobeta: todas aquelas carpas tinham uma mancha castanha na zona cefálica, mancha essa  nunca antes vista por nenhum deles em carpas pescadas naquele rio ou nos outros locais onde também pescavam.
Acharam estranho, mas não deram mais importância à obseração. Eram simlesmente assim aquelas carpas. Por acaso genético, talvez. 
Mas nós que sabemos mais e que sabemos que o acaso não existe, facilmente compreendemos que também para esta insólita mancha na  cabeça detas carpas, existiu uma cadeia de causas bem precisa.
A mancha é só a consequência.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Ignorância

Na distância, lá longe, ao fim do mar
num outro tempo que não sei dizer
num outro espaço que não sei olhar
numa outra língua que não sei falar

Fica aqui o rio, a rocha, o vento...
Que eu conheço, vejo e sei contar.
O sino na igreja, a contar o tempo,
a água fria deste rio, que eu sei de mergulhar.

Sei apenas o meu mundo, reduzido,
sei apenas as horas que uma vida faz,
só sei do que existe e faz sentido:

É assim que o lá longe é indefenido.
Mistério e escuridão, lá onde tu estás.
Mundo que eu não sei por não o ter vivido.

sábado, 11 de agosto de 2012

Mochos e cucos

Era um velho bosque cheio de tradições, o bosque dos mochos e das corujas. Todos eles cumprindo o seus deveres de aconselhamento a todos os outros animais das florestas em redor, seguindo velhos métodos, que lhes haviam granjeado enorme respeito e consideração. Pensando eles que o respeito e a consideração, uma vez alcançados, são eternos.
Mas aquele ano revelou-se particularmente penoso: um fogo no bosque obrigou a profundas remodelações, tendo mochos e corujas, que levar a cabo atividades várias, nomeadamente, reconstrução de habitações, de espaços de atendimento, para além, naturalmente, das funções específicas que lhe estavam desde sempre confiadas. Para agravar a situação, a quantidade de animais que quotidianamente vinham pedindo aconselhamento, não parava de aumentar, vendo-se agora incapazes de dar resposta a tanta procura.
Lá do alto do seu trono, porém, o rei Leão, atento, como é suposto estarem todos os governantes aos problemas dos seus povos (suposto mas nem sempre verificável, porque, na verdade, há ocorrências que não se podem verificar, mas apenas deduzir de observações que nem sempre são fiáveis) , decidiu enviar para o bosque, um contigente de cucos, (previamente sujeitos a formação específica) de forma a poderem auxiliar mochos e corujas nas suas tarefas cada vez mais exigentes.
Com alguma reserva mental, foram os cucos recebidos pelos mochos, mas necessidade é necessidade e por isso aos cucos foram sendo distribuidas funções variadas de forma a ser possível a continuação dos objetivos daquela comunidade do bosque.
Entretanto, o velho mocho Simão, tinha chegado ao tempo do cansaço. Fartava-se ele daquele status comunitário de círculo fechado, em que mochos e corujas se constituiam  como uma espécie de comunidade endogâmica, esquecendo que a floresta era muito maior do que apenas aquele pequeno bosque. E por isso, para o mocho Simão, ao contrário dos restantes, a chegada do contigente de cucos, abria-lhe as portas para contactos com pensares e olhares diferentes, o que o animava.
Mais que farto das tarefas que diariamente tinha que fazer, ao mocho Simão, calhou-lhe um dia a ingrata tarefa de ter de andar a transportar troncos e ramos, dum local para outro, no âmbito da renovação de espaços e habitações, tarefa por certo necessária, mas que nada tinha a ver com as funções de aconselhamento, essas sim, das quais ele gostava. Por isso, com enorme má dispposição, iniciou o referido transporte de materiais. Dado que a quantidade de materiais a transportar era enorme, foi-lhe atribuido um cuco, o cuco Lima, que ele não conhecia, para o ajudar.
Começaram pois ele e o cuco, as tarefas do transporte.  De imediato, a surpresa o invadiu da mesma forma que o mar invade a terra num tsunami: a seu lado, carregado de troncos, o cuco sorria e cantava, como se aquela tarefa fosse de um enorme prazer realizar.
Foi para sua casa o mocho Simão, ao fim do dia, incapaz de parar o pensamento: que diabo de cuco é este? Que especial dom terá ele para transformar atividades tão desinteressantes e cansativas, em alegria e jovialidade?  Como me aperece este cuco aqui, no exato momento em que eu já estava completamente desprovido de qualquer  ânimo? Acreditasse eu em Deus e diria que era um  enviado seu.
Entretanto, o cuco Lima, passou a ajudar regularmente o mocho Simão em tarefas várias e, de todas as vezes, com aquele sorriso e canto transbordante de entusiasmo.
Enquanto isso, mochos e corujas continuavam reticentes ao trabalho dos cucos, os cucos isto, os cucos aquilo, como se, na realidade, existisse uma entidade denominada os cucos e não indivíduos, cada um diferente de cada um dos outros, embora todos cucos. Muito frequentemente olhamos a floresta e não vemos a árvore. Acontecia assim à visão que tinham do contigente dos cucos.
O tempo ia passando e a cada vez que o dito tempo passava, o mocho Simão crescia de espanto em relação ao cuco Lima: o diabo do cuco mostrava-se extraordinariamente nervoso sempre que falava com mochos ou corujas e também com ele assim era, dando uns risinhos caraterísticos sempre que se expressava, mas ao mesmo tempo ia mostrando uma força anímica tão contagiante, que conseguia transformar  pesadelos em sonhos.
Penso que terá sido por essa altura que o mocho Simão terá decidido forçar o cuco a ser  seu par e a deixar de lado a formalidade. Ao velho mocho, aquele tratamento tão distante por parte daquele cuco que, na verdade, o tinha contagiado já do seu otimismo e prazer de viver, (uma dívida que, não fosse ele um sabido mocho e não saberia que é impossível de saldar) doía-lhe lá dentro, sentia que aquele cuco, que por acaso do destino havia sido colocado no seu caminho, não podia continuar a manter-se tão formal e tão distante. Foi quase uma batalha!
-Sou teu par, não sou teu superior, dizia o mocho.
Mas logo a seguir, de novo, o mesmo tratamento formal.
Até que, após semanas e semanas de batalha, o cuco rendeu-se e finalmente o velho mocho e o jovem cuco passaram a tratar-se como iguais.
O tempo foi seguindo o seu curso, se é que o tempo tem curso para seguir, (há quem ache que o tempo se desloca ao acaso das horas que vão passando, sem rumo e sem rota, mas como não sei, não afirmo nem nego). E à medida que o temppo foi andando, o velho mocho não parava de se espantar: não é que o diabo do cuco, ainda há tão ouco tempo nas suas novas funções de apoio ao aconselhamento, se mostrava duma habilidade e capacidade espantosas, superando não só as expectativas mas superando mesmo as próprias aptidões dele próprio, velho mocho?
A cada semana do caminho do tempo, novas facetas ia o mocho Simão descobrindo no cuco, que o  deixavam boquiaberto. A longo dessas muitas semanas do caminho do tempo, não foi uma nem duas, mas muitas, muitas vezes, que ao chegar a casa na hora do descanso, o mocho Simão se interrogava, se admirava, com as constantes revelações que, por puro acaso, ia descobrindo e que faziam daquele cuco, uma das criaturas mais extraordinárias, que alguma vez tinha conhecido.Uma das criaturas mais capazes, suplantando em muito não só os outros cucos como também os velhos mochos e corujas da comunidade do bosque.
As descobertas têm sempre consequências. Só não têm quando temos a incrível capacidade de ignorar o que descobrimos e fazer de conta que não conhecemos o que conhecemos.
O mocho Simão optou então por quebrar os laços com a comunidade do bosque de velhos mochos e corujas, deixando para trás personagens anacrónicas.
Pode ser, quem sabe, que o velho mocho ainda venha a descobrir, que o caminho do tempo não é, afinal, tão aleatório como alguns presumem.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Saídos da ribeira

Foi numa noie igual a esta. Uma noite sem luar, em que os cantos das cigarras e dos grilos, o tocar dos sinos, ao longe, as estrelas a brihar em cima, tornavam tão suave o passar das horas.
Mas claro que não há, de facto, noites iguais. Da mesma forma que não há nem pessoas, nem animais, nem plantas, nem rochas iguais.  Apenas nos parecem iguais, pela falta de empenho em observá-las.
Nessa noite, igual e diferente de todas as outras, aconteceu o inimaginável. Do leito da ribeira que se faz esconder das vistas, pelas folhas e ramos das árvores que trepam pelas encostas que a enformam, um peixe saltou para fora de água. E logo a seguir outro e depois mais outro, de forma que, em escasso tempo, centenas de peixes tinham saído da água da ribeira e iniciado, em simultâneo,  uma aventura coletiva terrestre. E isto porque conseguiram começar a respirar o ar gasoso, as barbatanas ventrais, viraram patas, com garras nas extremidades, permitindo-lhes assim novas caminhadas por locais que nem imaginavam existir.
Como aconteceu e porquê? Vá se lá saber...
 Dirão uns que foi um acaso da genétca, outros descobrirão ali a mão do Criador, outros dirão que é a vontade que domina o corpo, e que a ânsia de se libertarem do fluido existencial, ganhou tão forte energia transformadora , que impôs ao corpo a criação de novas aptidões - ou seja, uma transformação psicossomática.
Fosse  lá porque razão fosse, a verdade é que mal puseram barabatanas em terra firme, os peixes iniciaram a sua caminhada, que, não passou despercebida a  um rapaz da aldeia ali ao lado, que, ao passar de manhã junto à ribeira, se deparou com o extarordinário caso de ver centenas e centenas de peixes fora de água, mas vivos e bem vivos, caminhando em terra, e trepando aos troncos das árvores, numa estranha ânsia de ascender, como se o simples visualizar do céu, os impelisse a caminhar para cima, sempre para cima.
Ficar calado é próprio dos peixes, que não falam, mas não dum ser humano. E assim foi que de imediato correu este rapaz à sua aldeia a contar o que acabara de ver. O difícil foi fazer que acreditassem nele. Chamaram-lhe, pois, grande mentiroso, disseram-lhe que se embebedava logo de manhã, sabemos lá nós, que mais lhe terão dito! 
 Acreditar seja em quem for, é sempre tão difícil, até mesmo nas situações mais simples, quanto mais num caso como aquele. Acreditar implica confiança e confiar é um risco que pode ter um preço que o mais das vezes não se quer pagar.
E foi por isso que uma delegação de gentes respeitáveis lá da aldeia, se decidiiu a acompanhar o moço, pois de outra forma não havia meio de o fazer calar.
E logo a seguir foram os jornais, as entrevistas, as notícias, que colocaram aquela aldeiazita com nome nos mapas. O caso estava mais que confirmado. O caso estava mais que divulgado.
Foi a partir dessa noite memorável, que os hábitos das pessoas se alteraram, já que, a zona da ribeira rapidamente se transformou em local de romaria de fim de semana, para todos os moradores das aldeias da região. E era vê-los, logo pela manhã, a caminharem quais romeiros pelos caminhos da encosta, cesta do farnel e garrafão de vinho, mantas para colocar no chão, enfim, tudo o necessário para um dia bem passado. 
E foi assim que, num desses fins de semana, alguém que já perdeu o nome devido ao tempo que se encarregou de o apagar dos registos das memórias vãs, se lembrou de, enquanto assava um chouriço na fogueira, deitar a mão a um dos peixes que trepava por uma árvore logo ali ao seu lado, e colocá-lo na grelha, ao lado do dito chouriço. Estranho, de facto, era não ter havido ainda alguém com a mesma ideia...
Assada que estava a criatura, foi dividida em pedacinhos pela família e amigos. Um espanto! Esquecendo o pormenor das patas, em tudo o mais um peixe como os outros, e fresquinho, pois acabado de "ser pescado" da árvore!
Mais dois fins de semana, bastaram.  Dois fins de semana de matança e festim, foram o suficiente para que não sobrevivesse nem sequer uma única daquelas estranhas criaturas.
Mas também nunca mais se voltou a repetir o estranho fenómeno daquela noiote aparentemente igual a tantas outras.
Há quem diga que a razão de nunca outra vez tal transformação ter acontecido, está na aprendizagem:
- os peixes aprenderam que, o ser diferente, mesmo no caso dum simples peixe, pode ter como custo a sobrevivência.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Permanências

Esta água que corre e que tudo arrasta,
leva consigo peixes, algas, limos,
leva consigo pedras e cascalho,
como se fosse o tempo a levar a vida,
a levar para longe rostos, agora só memória,
palavras, agora só lembrança,
sentimentos que agora são já História.

Mas a laje grande, o xisto enorme,
vindo das profundezas da Terra, fica.
Pode a água teimar e voltar a teimar,
forçar e voltar a forçar,
que aquele xisto é força e resistência
aquele enorme xisto é permanência.
Mesmo que coberto e sem se ver,
o facto de estar lá, de permanecer,
muda todo o sentido do fluir das águas!
Por mais que corram as águas e seja o rio tão móvel,
aquela pedra enorme dá o sentido,dá a segurança:
a garantia, de que mesmo com mudança,
o fundamental
                              não é solúvel.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

escaravelho

Grunhidos, uivos, lamentos,
choros de bebes aflitos,
multidóes ensanguentadas,
árvores de folhas velhas, carcomidas.

Cai  cinza, como chuva;
sopra o fogo, como vento.

E na imensidão da terra nua,
da terra queimada, gretada, exausta,
apenas um decrépito escaravelho.

tempo-fumo

Fosse o tempo uma melancia,
que se derretesse na boca
sabor  a doce e a fresco
sabor desfeito ao passar,
sabor que se sabe ao que sabe
sem ser preciso provar.

Fosse o tempo a via férrea,
carris de camnho cero,
de destino já seguro,
que se percorre
na certeza do local a lá chegar.

Fosse o tempo a luz da noite,
que se dispersa no escuro,
mas que está nas estrelas certas
no sitio certo das estrelas
é olhar e encontrar.

Fosse o tempo a rocha mãe
que faz crescer  o solo-vida
Basta cavar para a ver
sabemos onde ela está.

Mas o tempo é entropia,
o tempo não tem lugar,
o tempo é fumo que à solta
não mora em lugar nenhum.
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