Era um velho bosque cheio de tradições, o bosque dos mochos e das corujas. Todos eles cumprindo o seus deveres de aconselhamento a todos os outros animais das florestas em redor, seguindo velhos métodos, que lhes haviam granjeado enorme respeito e consideração. Pensando eles que o respeito e a consideração, uma vez alcançados, são eternos.
Mas aquele ano revelou-se particularmente penoso: um fogo no bosque obrigou a profundas remodelações, tendo mochos e corujas, que levar a cabo atividades várias, nomeadamente, reconstrução de habitações, de espaços de atendimento, para além, naturalmente, das funções específicas que lhe estavam desde sempre confiadas. Para agravar a situação, a quantidade de animais que quotidianamente vinham pedindo aconselhamento, não parava de aumentar, vendo-se agora incapazes de dar resposta a tanta procura.
Lá do alto do seu trono, porém, o rei Leão, atento, como é suposto estarem todos os governantes aos problemas dos seus povos (suposto mas nem sempre verificável, porque, na verdade, há ocorrências que não se podem verificar, mas apenas deduzir de observações que nem sempre são fiáveis) , decidiu enviar para o bosque, um contigente de cucos, (previamente sujeitos a formação específica) de forma a poderem auxiliar mochos e corujas nas suas tarefas cada vez mais exigentes.
Com alguma reserva mental, foram os cucos recebidos pelos mochos, mas necessidade é necessidade e por isso aos cucos foram sendo distribuidas funções variadas de forma a ser possível a continuação dos objetivos daquela comunidade do bosque.
Entretanto, o velho mocho Simão, tinha chegado ao tempo do cansaço. Fartava-se ele daquele status comunitário de círculo fechado, em que mochos e corujas se constituiam como uma espécie de comunidade endogâmica, esquecendo que a floresta era muito maior do que apenas aquele pequeno bosque. E por isso, para o mocho Simão, ao contrário dos restantes, a chegada do contigente de cucos, abria-lhe as portas para contactos com pensares e olhares diferentes, o que o animava.
Mais que farto das tarefas que diariamente tinha que fazer, ao mocho Simão, calhou-lhe um dia a ingrata tarefa de ter de andar a transportar troncos e ramos, dum local para outro, no âmbito da renovação de espaços e habitações, tarefa por certo necessária, mas que nada tinha a ver com as funções de aconselhamento, essas sim, das quais ele gostava. Por isso, com enorme má dispposição, iniciou o referido transporte de materiais. Dado que a quantidade de materiais a transportar era enorme, foi-lhe atribuido um cuco, o cuco Lima, que ele não conhecia, para o ajudar.
Começaram pois ele e o cuco, as tarefas do transporte. De imediato, a surpresa o invadiu da mesma forma que o mar invade a terra num tsunami: a seu lado, carregado de troncos, o cuco sorria e cantava, como se aquela tarefa fosse de um enorme prazer realizar.
Foi para sua casa o mocho Simão, ao fim do dia, incapaz de parar o pensamento: que diabo de cuco é este? Que especial dom terá ele para transformar atividades tão desinteressantes e cansativas, em alegria e jovialidade? Como me aperece este cuco aqui, no exato momento em que eu já estava completamente desprovido de qualquer ânimo? Acreditasse eu em Deus e diria que era um enviado seu.
Entretanto, o cuco Lima, passou a ajudar regularmente o mocho Simão em tarefas várias e, de todas as vezes, com aquele sorriso e canto transbordante de entusiasmo.
Enquanto isso, mochos e corujas continuavam reticentes ao trabalho dos cucos, os cucos isto, os cucos aquilo, como se, na realidade, existisse uma entidade denominada os cucos e não indivíduos, cada um diferente de cada um dos outros, embora todos cucos. Muito frequentemente olhamos a floresta e não vemos a árvore. Acontecia assim à visão que tinham do contigente dos cucos.
O tempo ia passando e a cada vez que o dito tempo passava, o mocho Simão crescia de espanto em relação ao cuco Lima: o diabo do cuco mostrava-se extraordinariamente nervoso sempre que falava com mochos ou corujas e também com ele assim era, dando uns risinhos caraterísticos sempre que se expressava, mas ao mesmo tempo ia mostrando uma força anímica tão contagiante, que conseguia transformar pesadelos em sonhos.
Penso que terá sido por essa altura que o mocho Simão terá decidido forçar o cuco a ser seu par e a deixar de lado a formalidade. Ao velho mocho, aquele tratamento tão distante por parte daquele cuco que, na verdade, o tinha contagiado já do seu otimismo e prazer de viver, (uma dívida que, não fosse ele um sabido mocho e não saberia que é impossível de saldar) doía-lhe lá dentro, sentia que aquele cuco, que por acaso do destino havia sido colocado no seu caminho, não podia continuar a manter-se tão formal e tão distante. Foi quase uma batalha!
-Sou teu par, não sou teu superior, dizia o mocho.
Mas logo a seguir, de novo, o mesmo tratamento formal.
Até que, após semanas e semanas de batalha, o cuco rendeu-se e finalmente o velho mocho e o jovem cuco passaram a tratar-se como iguais.
O tempo foi seguindo o seu curso, se é que o tempo tem curso para seguir, (há quem ache que o tempo se desloca ao acaso das horas que vão passando, sem rumo e sem rota, mas como não sei, não afirmo nem nego). E à medida que o temppo foi andando, o velho mocho não parava de se espantar: não é que o diabo do cuco, ainda há tão ouco tempo nas suas novas funções de apoio ao aconselhamento, se mostrava duma habilidade e capacidade espantosas, superando não só as expectativas mas superando mesmo as próprias aptidões dele próprio, velho mocho?
A cada semana do caminho do tempo, novas facetas ia o mocho Simão descobrindo no cuco, que o deixavam boquiaberto. A longo dessas muitas semanas do caminho do tempo, não foi uma nem duas, mas muitas, muitas vezes, que ao chegar a casa na hora do descanso, o mocho Simão se interrogava, se admirava, com as constantes revelações que, por puro acaso, ia descobrindo e que faziam daquele cuco, uma das criaturas mais extraordinárias, que alguma vez tinha conhecido.Uma das criaturas mais capazes, suplantando em muito não só os outros cucos como também os velhos mochos e corujas da comunidade do bosque.
As descobertas têm sempre consequências. Só não têm quando temos a incrível capacidade de ignorar o que descobrimos e fazer de conta que não conhecemos o que conhecemos.
O mocho Simão optou então por quebrar os laços com a comunidade do bosque de velhos mochos e corujas, deixando para trás personagens anacrónicas.
Pode ser, quem sabe, que o velho mocho ainda venha a descobrir, que o caminho do tempo não é, afinal, tão aleatório como alguns presumem.