sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Cavalo

Era uma vez um cavalo. Vinha de longe, do lado de lá das estrelas, e vinha a trote, seguindo a estrada escura, apenas escassamente iluminada, por castiçais dispersos, ao longo da berma. Porque era escuro, aquele caminho, envolto em nevoeiro de tempos! Vinha só, sem ruído, com destino traçado - o planeta Terra. Isso é certo, porque é aqui que termina a estrada que não tem nem cruzamentos nem bifurcações.
Vinha para trazer uma mensagem? Vinha avisar alguém de alguma coisa?
Só sabemos que vinha por o termos visto a vir, mas não sabemos nós, nem ninguém mais sabe, ao que vinha.
Olhando agora para o longe, lá continua a estrada no meio da escuridão do nada, e as velas, dispersas junto às bermas. O cavalo, já não o vemos mais. Terá chegado ao seu destino? Para trás, ninguém o viu voltar, Terá chegado,pois, ou então  terá sido engolido pelo nevoeiro do tempo ou pela escuridão da noite eterna, porque lá, onde passa aquela estrada, nunca ninguém alguma vez viu a luz do dia.
Esta Terra em que vivemos e que parece aberta ao universo inteiro, mergulha sim numa fantasia coletiva que faz a todos ver o que não há. Para lá desta Terra, só há aquela estrada, escura, enevoada, por onde vinha o cavalo, que de longe vinha, (tendo em conta o tempo que demorou sempre a caminhar na estrada), mas onde esse longe fica, não sabemos. Nunca sequer encontrámos o cavalo, não sabemos se chegou e mesmo que o tivéssemos encontrado ou o viermos a encontrar ainda, improvável será que nos diga alguma coisa, pois os cavalos não têm por hábito falar. Só pensam.
Mas se não falam, como poderia aquele cavalo trazer então uma mensagem? Não trazia nenhuma carta presa ao corpo, nenhum dispositivo armazenador de som ou de imagem. Ao que vinha, (ou veio) então?
Sem respostas, olhamos de novo a estrada negra que conduz a este planeta de ilusões. Virá de lá dos longes que não sabemos onde, mais alguém, mais alguma coisa?
Ou aquela estrada com castiçais dispersos que espalham uma luminosidade breve que não chega a ser luz, não servirá, afinal, para nada?
E aquelas velas acesa estarão lá porquê? E porque não se apagam? E quem as acendeu?

Abro o jornal - notícia de primeira página: "25 mortos em acidente na A1, na sequência de colisão de um autocarro de passageiros, com um cavalo. Testemunhas do acidente referem que o cavalo não sofreu danos, e prosseguiu o seu caminho, subindo em direção ao vento, tendo desaparecido misteriosamente passados breves minutos após o início da sua ascenção."



quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Taras e manias

Chegou. Sentou-se. E queria cantar. Gravar a sua voz e filmar a sua cara, a cantar.
Porque ficava feliz, ao ver-se a si própria como se estivesse em palco. 
E ao mesmo tempo a sonhar.
Então,. ligou o computador. E eu procurei o instrumental 
E transfigurou-se.
Cantou. Como se fosse artista, gesticulou, dramatizou.
E fez-se um vídeo da sua atuação.
Tocou a campainha, acabou a sessão.
Fui com ela e amparei-a a descer as escadas.
Foi. à "vida dela". À sua rotina.

Foi este um dos poucos trabalhos daquele ano, que não foi publicado.
Uma cara deformada. Gestos teatrais desajeitados. Voz desafinada.
 Ficou só para ela. E também ficou comigo.
Em casa, devo tê-lo visto umas 50 vezes de seguida, sem exagero.
Guardei-o.

"Taras e Manias" de Marco Paulo-  com voz desafinada e em cara deformada, mas num coração cheio de amor para dar e receber.
Mas sem permissão.




quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Faz de conta

É este o inenarrável processo do sentir,
que não se sente,
de tão ausente.

O estranho caso do falar,
que não se ouve
porque não houve.

E fica o imaginar que sim,
num faz de conta
vezes sem fim.

Passos

São passos, que vão, areia fora,
pelo tmpo dentro, sozinhos, marcados.
Esperando encontros.

Mas não.
O caminho é longo,
sem horizonte que se veja,
sem ninguém ao pé
sem ninguém ao longe.

Não há sequer o som.
Só nevoeiro e marcas de pés que vão ficando
enquanto se caminha.

Nãp chega ninguém, neste deserto.
ninguém ao longe
ninguém ao perto.


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Olhares

Esbarrou na esperança não realizada. Então, recorreu ao protesto, e iniciou um processo de reclamação.
E questionou, abruptamente, indelicadamente,  exigindo aquilo a que não tinha direito. Fez-se de voz grossa e imposição. E exigiu resposta.
E recebeu.
Tudo por escrito.
Mas a resposta exigiu presença, que olhos nos olhos, o que se diz fica feito o que se pensa.
E, olhos nos olhos, transpereceu o sofrimento, a angústia do não se ser capaz.
A tristeza do não se saber como , nem o porquê, nem, o caminho.

É bem mais fácil quando se olha de fora.
Quando se olha com olhos de papéis.
Mas...olhos nos olhos olha-se diferente.


Presença

Sem vento, sem chuva.
Tranquilamente.
Sem esforço, sem cansaço, sem pena.
Deslizando vou.

Mas de repente,
com todo o peso do mundo,
todo o ruido dum estrondo,
toda a força do mar,
desaba sobre mim:

o sentir duma presença
que não está.
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