quinta-feira, 27 de março de 2014

Sol

Desesperadamente a escrita
para contar do momento que voa
do tempo que não basta
da saudade que deixa
bastam uns minutos.

Desespero do fluir
que não se trava
que não se para
mas que se retém, 
nos olhos, na pele, nos ouvidos... no ser inteiro
e que transborda
no escrever
mesmo sem se querer.

Obsessão.
Real, presente e permanente,
Que dá raiva
que dá a solidão da chuva
a tristeza da noite
quando ausente.

E o brilho intenso dum sol que não se esgota
se presente.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Nada

Calor, deserto, terra queimada,
espaços imensos de nada.
Apenas pó, apenas sol, apenas fogo
que queima o que se vê
e faz arder o que se sente.

Não se vai, porque não há percurso:
o distante é sempre igual ao aqui mesmo.
Olhar em volta, olhar em frente, olhar para trás?
Tanto dá:
o que se vê é sempre a mesma coisa.

Na ignorância do vazio,
almas em corpos caminham em azáfama.
Como se estivessem a fazer alguma coisa
ou fossem para algum lugar!
Andam só às voltas
em rodopios sobre si próprios.

Já nem sequer o tempo passa, 
apesar da teimosia dos relógios.
Persiste o pensamento:
mas sem objeto em que pensar.




domingo, 2 de março de 2014

Mistérios

No meu bolso transporto um mistério. Que quero guardar. Preocupo-me em saber como o hei de ter sempre comigo quando chegar o sol e o calor, já que não terei casaco para o transportar  e no bolso das calças não deve dar jeito, pois é um pouco volumoso.
Sei, no entanto, que o tenho de trazer comigo, sempre, embora não saiba exatamente porquê. Mas, se soubesse, não seria mistério.
Sei que, tal como da outra vez, no caso do outro mistério, não fui eu que o procurei, foi ele que veio embater em mim. Neste caso, mais precisamente, veio-me bater nos ténis. E isto, no preciso momento, em que tentava perceber o anterior mistério, que há alguns anos também veio “chocar” comigo, sem que eu estivesse à espera. Acredito que este novo mistério tenha tudo a ver com o outro, embora não consiga perceber de que forma nem em que sentido.
Sei que tem muitos anos de existência, é por certo, muito mais velho que eu, por certo conhecedor de coisas e de mundos que eu não sei, nem faço ideia…Mas que não me diz, porque não fala.
Ou será que vai dizer, mesmo sem a capacidade de falar?  Não sei.
Dizem que tem a capacidade de transmitir a voz do mar.
Imagino que este terá talvez a capacidade de transportar uma outra voz.
Ainda não confirmei esta hipótese.
Seja como for, este búzio é mister que fique comigo.
 Pelo menos,
 enquanto for mistério.
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