Como se surgissem de nascente improvável,
as palavras vão brotando,
lentamente,
umas juntas a outras
tal como as gotas de água fazem rio.
Brotam sem destino marcado,
seguem o caminho do acaso, podem chegar
ou não chegar. a qualquer lado.
Podem nem chegar a ser,
engolidas à nascença pelo tumulto do silêncio.
Brotam por brotar,
sem razão e sem esperança,
vão por aí porque assim calha,
correndo montanhas e vales ignorados
batendo a portas sem ouvidos,
criando gritos qeu são mudos.
Por mais que ninguém as oiça,
por mais que niguém as queira ouvir,
teimosamente, persistentemente,
insistem em continuar a ser palavras.
"Por isso é que eu lhes falo em parábolas; porque eles vendo, não vêem, e ouvindo não ouvem, nem entendem." -(Mateus, XIII: 10-15)
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
Sensatez
Nada é seguro
nada é certo.
Como o vento que ora está ora não,
como a lua, uns dias sim, outros não,
como o sol, a chuva, o frio.
Por entre o som.
nos intervalos do som
talvez a voz...
Que não é silêncio.
O silêncio é o som.
A sensatez,
é não acreditar.
nada é certo.
Como o vento que ora está ora não,
como a lua, uns dias sim, outros não,
como o sol, a chuva, o frio.
Por entre o som.
nos intervalos do som
talvez a voz...
Que não é silêncio.
O silêncio é o som.
A sensatez,
é não acreditar.
No estranho reino da Dinamarca (3)
Faz hoje precisamente um ano que, quem passasse por volta do meio dia, no campus universitário de Copenhaga, daria conta de mais um insóilito acontecimento: uma garrafa de champanhe e dois copos em cima do assento duma scooter, parada à porta dum estabelecimento universitário.
Hoje Soren ao acordar, lembrou-se do caso.
Esfregou os olhos, acordou então completamente e então, raciocinou:
Rrealmente, só as estranhas brisas vindas do mar, atravessando fiordes, trazendo consigo poeiras e partículas que perturbam o normal funcionamento dos neurónios, conseguem explicar o que, nesse dia, lhe terá passado na cabeça, para produzir tamanho disparate.
Mas assim é: também estas perturbações do pensamento, aparentemente inexplicáveis, que, por vezes ocorrrem na Jutelândia, contribuem para fazer jus ao conhecido epíteto de "estranho reino da Dinamarca".
sábado, 22 de novembro de 2014
No estranho reino da dinamarca (II)
Capítulo I
Dinamarca, terra de fiordes, de nevoeiros densos de "cortar à faca", nevoeiros que trazem consigo os mais fantásticos mistérios, que jamais alma humana irá conseguir compreender.
Dinamarca, o país onde vivem os nossos já tão bem conhecidos Soren e Axel, ambos moradores em Copenhaga, Soren no bairro de Kastrup, e Axel, logo ali ao lado, no bairro de Amagerbro.
Certo dia, Axel resolveu fazer uma festa e convidou os seus amigos. E lembrou-se de também convidar Soren.
A festa decorreu num ambiente muito agradável e animado, e todos os participantes se sentiam bem.
A certa altura, Axel virou-se para Soren e disse-lhe:
-"Como sabes, vou estar muito ocupado nos próximos tempos, por isso, se quiseres falar comigo, envia carta e eu depois respondo. Envia, sempre que quiseres e te apetecer. Já sabes que é melhor assim, que eu tenho pouco tempo."
Soren não respondeu.
Entretanto, a festa terminou e cada qual foi para o seu destino, Soren para sua casa em Kastrup e Axel para Amagerbro.
Capítulo II
Não há presente que não tenha por trás um passado, podendo este estar mais ou menos presente, na presente lembrança de cada um. Claro que, em tão estranho lugar como é este de que falamos, o denso nevoeiro afeta as pessoas, uns duma forma mais intensa outros apenas ligeiramente e chega, nalguns casos, a tornar esbatidas as memórias até mesmo de acontecimentos de passados bem recentes.
No caso de Axel e de Soren, é também assim, sendo pois, provável que cada um tenha memórias bem diferentes de factos, porém, pouco distantes no tempo.
Assim, enquanto Soren recordava ainda as inúmeras cartas, faxes e telefonemas enviados num passado bem próximo e que eventualmente se perderam, desviados por ventos inpensáveis,improváveis, mas que realmente acontecem neste estranho reino e que levaram provavelmente à não existência de carta de resposta (ou também ela terá ficado perdida ou desviada, por esses mesmos ventos, quem saberá?) Axel, provavelmente, afetado pelo tal denso nevoeiro dinamarquês, esqueceu tais imponderáveis das telecomunicações de Kastrup para Amagerbro.
Talvez assim se explique o que disse Axel, durante a festa e a não resposta de Soren a esse seu dizer. Memórias diferentes... Sentires diferentes.
No estranho reino da Dinamarca, nada é uma certeza...
O que é realmente certo é que, depois disso, Soren não enviou nenhuma carta, fax ou telefonema a Axel e não tem sequer, qualquer intenção de o fazer.
Provavelmente porque o denso nevoeiro, apesar de tudo, não lhe terá afetado a memória.
Ou talvez não seja por isso.
Talvez as brumas dinamarquezas lhe tornem dificil perceber o funcionamento da amizade por requerimento em balcão de atendimento.
Não se sabe nem nunca se saberá quais as verdadeiras razões de Soren, ou o conceito de amizade empresarial de Axel,
pois que,
esta é,
mais uma
fantástica história de mistério...
Fazendo jus ao nome do país que é, como se sabe,
o "estranho reino da dinamarca."
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Pacotinhos de açucar
Aos montes! Já eram muitos mil, guardados em 3 gavetas e, como já lá não cabiam, ia-os acumulado em cima do tampo da secretária.
Fazia anos que, sempre que a oportunidade surgia, ele metia no bolso os pacotinhos de açúcar e os levava para casa, num ritual preciso e sistemático.
Considerava-se o maior colecionador de pacotinhos de açúcar do país!
Entretanto, enquanto nos primeiros anos, regularmente antes de ir dormir, ele observava atentamente a sua coleção, organizava-a, limpava todos e cada um dos seus pacotinhos, agora, que outros afazeres se sobrepunham, limitava-se, chegando a casa, a atirar os pacotinhos "do dia" para cima da secretária e por lá ficavam, mais nada.
E assim foram passando anos e mais anos.
Eis que um belo dia, logo na segunda página do jornal que estava a ler, lhe saltou aos olhos a notícia dum concurso de colecionadores de....pacotinhos de açúcar!!! E o prémio a atribuir ao vencedor não era de se "deitar fora"!!!
Pensou:
_Dificilmente me passarão à frente. Duvido que alguém tenha um número de exemplares tão grande como eu, e, ainda para mais, alguns deles dificilmente outros terão, pois são bem antigos, de há muitos anos, de quando eu comecei pela primeira vez a colecionar. Vou preparar tudo e no fim de semana lá estarei e sei que vou ganhar!
Deitou-se e quase nem dormiu.
No dia seguinte, levantou-se bem cedinho, tomou, à pressa o pequeno almoço e, ainda sem sequer se ter vestido, foi ao quarto onde estava a secretária com a sua coleção.
Começou por selecionar de entre os que estavam atirados por cima do tampo da secretária, mas, quase nem conseguia acreditar no que estava a ver: os pacotinhos estavam todos "ratados", o açúcar espalhava-se pela mesa mal lhes tocava. Algum inseto se tinha dedicado a destruir por completo os seus pacotinhos de açúcar.
Não faz mal, pensou. Asneira tê-los abandonado aqui em cima da secretária... Mas mais do que estes e mais valiosos, são os que guardei nas gavetas.
Abriu, então, a primeira gaveta, o que não foi propriamente fácil, porque a madeira estava inchada e foi necessária alguma força. Olhou e, maior espanto ainda! A humidade tinha-se apoderado de tudo. Agora o que via eram papéis escuros, cobertos de bolor, colados uns aos outros. Nem letras nem desenhos se distinguiam, no meio daquela massa apodrecida pelos fungos.
Segunda gaveta, precisamente o mesmo.
Terceira gaveta, a mesma coisa,
Foi então que descobriu com estupefação, que nunca havia tido a menor ideia do significado da palavra colecionador...
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Névoa
Desliza eletricidade na pele
não é frio não é calor:
é um som que arrepia os pêlos
e se entranha nos músculos
e que não é harmónico.
Cresce um silêncio que dá vontade de gritar
uma raiva que dá vontade de chorar
um desalento, que dá vontade de rir.
Uma espécie de rio, cheio de água sêca,
impossível de alguma vez evaporar.
Os passos que se ouvem
estão no céu,
feitos um caminhar nas núvens.
Na terra, os passos são parados,
existem mas são imóveis
não se ouvem
transportam a nenhures.
Devagarinho, muito devagarinho,
desfaz-se a realidade.
Esbate-se o caminho.
Ondas do meu pensar
Como se fosse onda,
insiste, teima, bate, agita,
e vai,
e depois volta,
numa teimosia de jumento.
Passa o tempo
e não passa o pensamento.
Ora desce a maré, na lua que se afasta
ora sobe, na lua que se chega,
mas baixinha ou alta
a onda não se gasta.
Passa o tempo
e não passa o pensamento.
Vem a noite,
adormece o mundo, dorme o povo,
uma imensa quietitude se levanta,
mas, ignorando a luz ou falta dela
a onda não abranda.
Passa o tempo
e não passa o pensamento.
Ora mais fraca, parecendo que vai terminar
e de repente forte, como se fosse um acordar.
Agitação marítima não pára
pior que o respirar.
Passa o tempo
e não passa o pensamento.
Passa o tempo, mas com sorte
chegará final momento
em que passa:
passa o pensamento
e passa a vida,
vem a morte.
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Sonoridades negras
O som que surge!
Numa escuridão de silêncio
com as estrelas apagadas
e a lua em hibernação;
almas penadas,
seres bizarros,
monstros de pesadelo,
que espreitam nas trevas,
ou se arrastam
nas entranhas do pensamento.
Mas o silêncio
todo este enorme silêncio em background,
silêncio espesso, pastoso,
que se cola à vida,
que tolhe até o raciocínio!
O silêncio, sempre.
Omnipresente.
Um silêncio negro.
De súbito, porém
um som que surge,
baixinho,
quase só sussuro:
é o som do esquecimento.
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