segunda-feira, 29 de junho de 2015

Joga fora!


Que contente estava o Manuel. Olhava e voltava a olhar para os seus novos ténis vermelhos, e até tinha medo de os usar. Todo o santo dia andava com eles calçado e caminhava com enorme cuidado, para os não estragar. Mal chegava a casa, descalçava-se, dava uma cuidadosa limpeza nos ténis e só depois disso feito é que, então, ia brincar.
À noite, quando chegava por fim a hora de ir dormir, nunca ia dormir sozinho: pegava sempre nos seus ténis novos e colocava-os ao seu lado, na cama e era com eles que entrava no reino de Morfeu.
Mas naquele dia azarado, logo de manhã, ao tomar o pequeno almoço, a irmã mais nova deixou escorrer um pingo de leite com chocolate, que foi cair em cima de um dos seus queridos ténis. Só que ele não deu por isso, na altura. Só mais tarde, quando já ia a caminho da escola se apecebeu da desgraça!
Já não foi capaz de se concentrar nas aulas, não teve vontade de brincar com os colegas. Apenas desejava chegar rapidamente a casa para lavar os seus queridos sapatinhos.
E foi exatamente o que fez, mesmo antes de lanchar. Esfregou, lavou, voltou a esfregar. Mas...o resultado não estava a ser bom. Teve então uma ideia: usar lixívia. Era sempre o que a mãe fazia quando a roupa estava muito suja! Assim pensou e assim fez, deitou lixívia num alguidar e enfiou lá o ténis que tinha a nódoa.
E foi eficaz, realmente. A nódoa desapareceu, mas...o ténis mudou de vermelho que era, para castanho, e duma tonalidade mesmo mesmo muito feia.
Nesse dia, o Manuel registou no seu facebook:
"Se te mancharem os ténis, joga-os fora e pronto! Eles nunca mais voltarão a ser como eram."
Mas, na realidade, ainda os tem lá guardados numa caixinha, só que nunca mais lhes tocou.
Vá se lá perceber as crianças!

domingo, 21 de junho de 2015

Estranha noite





Mergulhou na mais estranha noite da sua vida. Uma noite em que a madrugada só iria aparecer muito mas mesmo muito tarde, fazendo daquela noite uma enormidade temporal. E olhou. E não viu, obviamente. Porque de noite não se vê. Sonha-se ou pensa-se, mas nunca se vê absolutamente nada, de noite, a não ser que se estrague a noite com uma qualquer luz. Não foi esse o caso.
Sem poder ver fosse o que fosse, olhou para o caminho que o levou até àquela noite. Sem o ver, refez em  pensamento, todos os passos que deu até chegar ao agora aqui, um aqui impossível de identificar, já que a noite o não permite.
E questionou-se.
Perguntou-se se teria dado os passos todos que devia dar, e se os teria dado com a medida certa e na direção correta e no sentido adequado. Durante muitas horas, voltou ao ponto de partida e procurou a justificação para cada passo, a razão do comprimento de todos e de cada um desses seus passos, a razão da direção e do sentido optados.
E teve dúvidas. Dúvidas tão grandes como grande é a estranha noite em que acabara de mergulhar. Acabara por mergulhar- (tavez assim.)  ( Se um simples –“de” faz tanta diferença de um “por”, quanta diferença não poderá fazer um passo um pouco mais curto dum outro mais alongado!)
Então as dúvidas encheram-lhe a consciência, ocuparam praticamente todo o espaço do pensar, chegaram mesmo a entornar do cérebro e a molhar a noite! (Porque, normalmente, as dúvidas não são de todo secas…)
Fossem outros os passos, outro o local de chegada e talvez esta noite diferente de todas as outras,,, nunca a tivesse conhecido!
Mas.. Poderia  realmente diferente assim ter sido? Alguma vez algum dos passos que deu não foi medido? Alguma vez deu passos ao acaso, sem consciência ou intenção? A resposta que a si próprio deu, foi taxativamente negativa.
Mas… Pensou:
Qualquer passo que se dê com intenção, depende sempre duma avaliação:  do saber exatamente onde se está de forma a decidir corretamente o caminho para o onde se quer ir.
Só que aí… aí… aí o caso é mais finório!  O saber onde se está, a precisão do espaço e do tempo, depende da valoração precisa dos indicadores de que se dispõe, e a certeza da fiabilidade dos mesmos, e a certeza da suficiência deles…
Honestamente não foi capaz de responder.
De imediato se deu  conta da gravidade do momento reflexivo a que chegara: a incerteza de uma correta avaliação do local de partida, invalida a segurança da estratégia dos passos dados!
Deixou então que a noite o inundasse sabendo que a madrugada estava lá longe na distância do tempo.
Já meio a dormir, disse em voz alta para a si mesmo convencer;
“Que se foda!”

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Matar

Bate-me dentro o desprezo
com que me querem brindar.
O desprezo tem tal peso
que consegue assassinar!.

Com pontaria certeira,
escolhendo a arma melhor:
silêncio, e não caçadeira,
pois  causa uma dor maior!

A bala mata ao momento
dispara-se, aí vai ela:
destrói vida e pensamento.
 
Mas silêncio é... condimento,
mais tipo fotonovela:
matar, sim, mas com tormento!

Entendimento

Pensamento em rotina ciclica
seguindo à volta, sempre à volta
em perpétua rotação.


Entendimento
para além do horizonte:
mais longe do que o longe,
mais distante que a distância.

Núvens negras de basalto
deixando cair gotas de tristeza
molham de dor o raciocínio,
que enferruja
mas continua às voltas
sem parar.

Espaço

Passos sem som.
Dum caminhar despercebido.
Sem deixar marcas.
Sem fazer história.

Caminhos à luz de velas,
(sombras ameaçadoras ao virar de cada esquina)
caminhos que são vielas
e que dão medo.

Não há  ninguém,
porque o mundo está do outro lado:
aqui é só o espaço
entre o que há e o que não há.



quarta-feira, 10 de junho de 2015

Amo o meu líder!!!

       

Amo o meu líder! 

Ele representa tudo o que eu goastaria de ser...mas não sou.

Colo a sua foto na parede logo à entrada da minha casa.
Para todos verem.
Para todos perceberem.
Eu sou dos dele!
Vão achar que sou como ele!!!
(Apenas eu sei que realmente não sou como ele, mas....não conto a ninguém!)

O meu líder é forte!

O meu líder é poderoso!

O meu lider influencia multidões!

O meu lider fala com assertividade!

O meu lider sabe o que quer e para onde vai!

 O meu lider tem os tomates no sítio!


Enquanto eu...
sou fraco...
tenho pouco poder...
não influencio ninguém...
escondo-mes atrás das palavras que profiro...
não sei bem o que quiero nem para onde vou...
sofro de criptorquidia...

Por isso:

à entrada de minha casa está a foto do meu lider!

A minha está lá também, mas numa  parede mais int(f)erior.
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