domingo, 21 de junho de 2015

Estranha noite





Mergulhou na mais estranha noite da sua vida. Uma noite em que a madrugada só iria aparecer muito mas mesmo muito tarde, fazendo daquela noite uma enormidade temporal. E olhou. E não viu, obviamente. Porque de noite não se vê. Sonha-se ou pensa-se, mas nunca se vê absolutamente nada, de noite, a não ser que se estrague a noite com uma qualquer luz. Não foi esse o caso.
Sem poder ver fosse o que fosse, olhou para o caminho que o levou até àquela noite. Sem o ver, refez em  pensamento, todos os passos que deu até chegar ao agora aqui, um aqui impossível de identificar, já que a noite o não permite.
E questionou-se.
Perguntou-se se teria dado os passos todos que devia dar, e se os teria dado com a medida certa e na direção correta e no sentido adequado. Durante muitas horas, voltou ao ponto de partida e procurou a justificação para cada passo, a razão do comprimento de todos e de cada um desses seus passos, a razão da direção e do sentido optados.
E teve dúvidas. Dúvidas tão grandes como grande é a estranha noite em que acabara de mergulhar. Acabara por mergulhar- (tavez assim.)  ( Se um simples –“de” faz tanta diferença de um “por”, quanta diferença não poderá fazer um passo um pouco mais curto dum outro mais alongado!)
Então as dúvidas encheram-lhe a consciência, ocuparam praticamente todo o espaço do pensar, chegaram mesmo a entornar do cérebro e a molhar a noite! (Porque, normalmente, as dúvidas não são de todo secas…)
Fossem outros os passos, outro o local de chegada e talvez esta noite diferente de todas as outras,,, nunca a tivesse conhecido!
Mas.. Poderia  realmente diferente assim ter sido? Alguma vez algum dos passos que deu não foi medido? Alguma vez deu passos ao acaso, sem consciência ou intenção? A resposta que a si próprio deu, foi taxativamente negativa.
Mas… Pensou:
Qualquer passo que se dê com intenção, depende sempre duma avaliação:  do saber exatamente onde se está de forma a decidir corretamente o caminho para o onde se quer ir.
Só que aí… aí… aí o caso é mais finório!  O saber onde se está, a precisão do espaço e do tempo, depende da valoração precisa dos indicadores de que se dispõe, e a certeza da fiabilidade dos mesmos, e a certeza da suficiência deles…
Honestamente não foi capaz de responder.
De imediato se deu  conta da gravidade do momento reflexivo a que chegara: a incerteza de uma correta avaliação do local de partida, invalida a segurança da estratégia dos passos dados!
Deixou então que a noite o inundasse sabendo que a madrugada estava lá longe na distância do tempo.
Já meio a dormir, disse em voz alta para a si mesmo convencer;
“Que se foda!”

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