Chegou-me hoje ao
nível do consciente...o Zé Zé.
Zé Zé para a
família, para mim e para os amigos era o Vieira.
De seu nome
completo, José Vieira Lopes. De Torres Novas a estudar em Lisboa, no
Pedro Nunes e meu coloega de turma.
O Vieira foi um
daqueles estranhos casos que, sem grande explicação, acontecem. O
Vieira e eu, realmente, fomos inseparáveis, na escola e fora dela.
Acho que sabiamos tudo ou quase tudo da vida um do outro, sabiamos
bem dos nossos defeitos, eu dos dele e ele dos meus de tal forma
que....éramos realmente amigos.
Muitas horas
passámos juntos em cumplicidades por vezes “ilegais”, faltando a
aulas para fazer coisas mais interessantes, conversando largamente
até de madrugada, ou jogando as nossas habituais partidas de cartas,
normalmente em casa dele. Ou...bem pior que isso...relembro de um
exame escrito de francês que eu fiz, sentado em cima duma sanita,
bem escondido dos contínuos, por razões....enfim...acho que óbvias.
Passámos juntos o,
verão quente de 75, em que ele e eu tinhamos perspetivas políticas
bem diferentes e recordo-me de caminharmos pela rua às 2 da manhã,
em bravas discussões, chegando a acordar vizinhos, sem que tais
duscussões melindrassem, fosse de que forma fosse, a amizade que
entre nós havia.
Depois...
Depois o Zé Zé não
conseguiu acabar o secundário naquele ano. O que deu que eu fosse
para a faculdade e ele fosse estudar à noite. Só que o estudo à
noite acabou por não dar grande resultado e o Vieira voltou para
Torres Novas, para trabalhar.
Mesmo assim, quando
vinha a Lisboa, lá marcávamos um encontro para dois dedos de
conversa.
E o tempo foi
andando e eu casei. Voltei a encontrar-me com o Vieira, sei que até
o convidei para ir lá a casa, coisa que nunca chegou a acontecer.
A seguir... não
sei. Imagino que ele continue a morar lá por Torres Novas e eu aqui
por Lisboa. Nunca mais nos voltámos a ver nem a contactar.
Infelizmente, aos 20
anos, não temos bem ainda a noção de como algumas coisas são
importantes e deixamo-las correr à flor do fluir do tempo. E assim
é que, estou reaamente a falar duma aizade que já não existe, que
morreu.
Sim, é uma amizade
do passado, que já não existe de todo e que hoje me bateu ao nível
do consciente,vá eu lá saber porquê!
Mas sendo uma
amizade morta, é uma amizade que eu guardo algures num recanto do
meu sistema nervoso central, e que sempre que me aflora à
consciência, me sabe muito bem.
Pena é que nem
sempre as amizades mortas tenham este mesmo sabor.
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