domingo, 26 de julho de 2015

Tem a palavra o falecido



 
Em contraposição à geometria da sala, chão retangular com um retângulo delimitado ao centro, uma entropia de vozes sussurrantes espraia-se, proferindo  interrogações e suposições,  criando um sururu de sons,  como se de uma reza se tratasse. Pessoas que se agrupam ao longo do espaço disponível da sala, que se interrogam e que tentam responder. O que perguntam e o que respondem é comum a todos esses grupos ad hoc constituídos:
_E qual terá sido a razão?
_Alguém sabe o porquê?
_Mas estava tudo bem, uma vida com tudo o necessário para ser feliz, como se entende?
_Deixou alguma carta? Que dizem os familiares mais próximos?
_ Teriam sido dívidas?  Desgostos de amor?
_Não se conhece nada que justifique, e no entanto…
Então, um silêncio total, quando, do espaço retangular ao centro se ergue um cadáver que percorre a sala com seu olhar de morto. E ouve-se o que pensa,  a voz da sua alma transpondo as barreiras dos mundos, para se fazer finalmente, entender.
Eis o que se ouviu:
“ Cais num espaço onde não há portas nem janelas por onde possas saír. Esse espaço pesa. Sentes-te sedimento carregando milhões de sedimentos que se sobrepõem e tu, por baixo, vais sentindo o peso que progressivamente se incrementa. E dói. O esmagamento faz doer e faz sangrar. O tempo passa, o peso aumenta, a dor cresce, cresce, cresce a cada hora a cada minuto, uma dor que cada vez suportas menos. Precisas sair, fugir, escapar. A dor é já absolutamente insuportável. Olhas de novo em volta…Não há saída a não ser… Sim, há uma saída que pode põr fim à tua dor. Apenas uma saída, que não é porta nem janela pois não conduz a nenhum lado, mas que permite sair, sim.
Mas a dor, de onde vem ela? Tu sabes, claro que sabes.  Mas não dizes. Porque racionalmente sabes bem que a origem dessa dor é  absurda. Um pequeno ponto na imensidão da tua realidade, tão restrito no espaço e no tempo, que não é justificação Para os outros não é justificação. É estúpido. E, até para ti próprio é estúpido, também.
 Por isso não dizes, guardas.
Porém, estúpido, insignificante… Tem a capacidade de se apoderar do todo, a capacidade de crescer no teu imaginar, crescer ao ponto de apagar tudo o resto, ocultar tudo o resto e ganhar a dimensão do teu universo. Então não vês mais nada, porque tudo o mais é desprezável. Racionalmente…pois, racionalmente importa pouco, que mais que razão a vida é emoção e sentimento!
Focas-te aí, nesse pormenor de ti, que se transformou no todo. E esse pormenor, sem solução, entope todo o fluir do pensamento lógico.
Objetivamente de importância reduzida.
Objetivamente…. mas subjetivamente, NÂO!!!
E naquele momento decisivo, este pormenor toma as rédeas. Tudo o que tem cor, tu já não vês, que o teu mundo ficou a preto e branco.
E é aí que a decisão se consubstancia em ação. Nesse curto espaço de tempo em que o climax da dor é atingido e a necessidade de saída é imperiosa e inadiável.
E sais.
Não é, afinal, assim tão complicado de entender!”
Retorna o corpo à sua posição horizontal, faz- se o silencio.
Recomeçam as vozes sussurradas com perguntas e suposições:
É que, na verdade, ninguém entendeu nada.

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