Em contraposição à geometria da sala, chão retangular com um
retângulo delimitado ao centro, uma entropia de vozes sussurrantes espraia-se,
proferindo interrogações e suposições, criando um sururu de sons, como se de uma reza se tratasse. Pessoas que
se agrupam ao longo do espaço disponível da sala, que se interrogam e que
tentam responder. O que perguntam e o que respondem é comum a todos esses
grupos ad hoc constituídos:
_E qual terá sido a razão?
_Alguém sabe o porquê?
_Mas estava tudo bem, uma vida com tudo o necessário para
ser feliz, como se entende?
_Deixou alguma carta? Que dizem os familiares mais próximos?
_ Teriam sido dívidas? Desgostos de amor?
_Não se conhece nada que justifique, e no entanto…
Então, um silêncio total, quando, do espaço retangular ao
centro se ergue um cadáver que percorre a sala com seu olhar de morto. E
ouve-se o que pensa, a voz da sua alma
transpondo as barreiras dos mundos, para se fazer finalmente, entender.
Eis o que se ouviu:
“ Cais num espaço onde não há portas nem janelas por onde
possas saír. Esse espaço pesa. Sentes-te sedimento carregando milhões de
sedimentos que se sobrepõem e tu, por baixo, vais sentindo o peso que progressivamente
se incrementa. E dói. O esmagamento faz doer e faz sangrar. O tempo passa, o
peso aumenta, a dor cresce, cresce, cresce a cada hora a cada minuto, uma dor
que cada vez suportas menos. Precisas sair, fugir, escapar. A dor é já
absolutamente insuportável. Olhas de novo em volta…Não há saída a não ser… Sim,
há uma saída que pode põr fim à tua dor. Apenas uma saída, que não é porta nem
janela pois não conduz a nenhum lado, mas que permite sair, sim.
Mas a dor, de onde vem ela? Tu sabes, claro que sabes. Mas não dizes. Porque racionalmente sabes bem
que a origem dessa dor é absurda. Um
pequeno ponto na imensidão da tua realidade, tão restrito no espaço e no tempo,
que não é justificação Para os outros não é justificação. É estúpido. E, até
para ti próprio é estúpido, também.
Por isso não dizes,
guardas.
Porém, estúpido, insignificante… Tem a capacidade de se
apoderar do todo, a capacidade de crescer no teu imaginar, crescer ao ponto de
apagar tudo o resto, ocultar tudo o resto e ganhar a dimensão do teu universo.
Então não vês mais nada, porque tudo o mais é desprezável. Racionalmente…pois,
racionalmente importa pouco, que mais que razão a vida é emoção e sentimento!
Focas-te aí, nesse pormenor de ti, que se transformou no todo.
E esse pormenor, sem solução, entope todo o fluir do pensamento lógico.
Objetivamente de importância reduzida.
Objetivamente…. mas subjetivamente, NÂO!!!
E naquele momento decisivo, este pormenor toma as rédeas.
Tudo o que tem cor, tu já não vês, que o teu mundo ficou a preto e branco.
E é aí que a decisão se consubstancia em ação. Nesse curto
espaço de tempo em que o climax da dor é atingido e a necessidade de saída é
imperiosa e inadiável.
E sais.
Não é, afinal, assim tão complicado de entender!”
Retorna o corpo à sua posição horizontal, faz- se o
silencio.
Recomeçam as vozes sussurradas com perguntas e suposições:
É que, na verdade, ninguém entendeu nada.
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