segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Chuva imprevista

Tomba a chuva, fria.
Dolorosa. Persistente. Teimosa.
Recorrente.

Chuva que molha, e esfria.
Que endoidece.
Mas que a meteorologia não previu!

Escorre a água pela roupa, e molha a roupa,
escorre pela pele, e molha a pele.
Escorre para o interior da alma
e afoga a alma.

Tempos de inverno,
tempos de inferno.

Mas e o céu?
As estrelas brilham,
a lua lá está meia a espreitar
núvens? Nenhumas!

Esta chuva é traiçoeira...

Chuva que vem dos  olhos
molha  mais.

Estrada

Pela estrada fora, rumo à vida,
pela estrada fora, a caminho do futuro,
pela estrada fora, com confiança.

Sempre pela estrada fora
e sem desvios
passos convictos de destinos certos
seguros, tranquilos, ajustados.

Sempre, sempre, estrada fora.

Até que, inesperadamente,
imprevisivelmente
absurdamente
já não há estrada nenhuma.

Um percurso de anos
feito absurdo.

Sem sol

Esperas, tranquilamente, pelo sol.
A noite passa, devagar
contas o tempo, hora a hora,
minuto após minuto
dás um salto e gritas:
"deve ser agora!!!!"

Mas o céu está negro
o horizonte negro
a vida, se vive, não se vê.
passou o tempo como se não passasse.
Nada mudou.

Olhas em volta... procuras...
Mas não há luz pra que se veja.
Tentas então ouvir,
e ouves o vento que se cala
e não te diz.

O silêncio da noite inunda o dia
se é que há dia, quando o dia iguala a noite.
Talvez tenha morrido, o tempo...
Ou talvez...
que estejas morto tu.



Fendas no teu chão

Quando a terra racha:
fendas abissais e negras e escuras e grandes
que se afundam no tenebroso núcleo em fogo.
E o medo atravessa o sentir
e os pés deixam de ter chão onde pisar.

Quando a terra racha,
não há varões de segurança para agarrar,
a terra engole e não vomita
a terra absorve e não devolve
e derrete e destrói.

Quando a terra racha,
rapidamente tudo foi tentado
que não há nada a tentar
a não ser desespero e medo
e  calor de morte que se sente em vida.

Quando a terra racha,
o pó atravessa o respirar
o ar fica vermelho, sufoca, comprime, pesa,
força os corpos para dentro das fendas
e um a um lá vão, sugados. Impotentes.

Quando a terra racha,
razões terá para rachar:
é a revolta da terra contra o Deus do infinito:
porque a terra sabe que tem fim.


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Eles andem aí

De repente, sem saberes bem porquê, dão-te um pontapé. Mas depois, horas ou dias depois, com um maravilhoso sorriso nos lábios, dizem-te "Bom dia", "Que bom estares aqui!" E tu compreendes que o pontapé foi um engano, um ato do acaso e desvalorizas.
Uma semana depois, dão-te um encontrão e tu cais. Ficas magoado. Gritas, protestas. Umas horas ou dias depois, recebes novamente o tal maravilhoso sorriso, e um "Ainda bem que te vejo!"
De pontapé em pontapé de sorriso em sorriso, vais sendo habilmente manipulado pelos malabaristas do sorriso.
Cuidado!!!
"Eles andem aí..."

sábado, 8 de outubro de 2016

Sadismo

Palavras do sentir,
que se entoam numa melodia triste,
um fado arrastado,que se ouve, para lá das luzes,
para lá da noite,
para lá de mim.

Quem as profere?
Os lábios do vácuo,
que o vácuo sabe gritar, como ninguém mais!
E persistentemente as grita, sem piedade.

Sádico, teimoso, insistente,
repete o que sempre disse e não é nada,
Fala, como se não precisasse abrir a boca. Não abre.
Pensa irrefletidamente. Não sabe o que diz.
Mas chicoteia a vítima até ao sangue.
...Até depois do sangue...

E enebria-se...

Não gosto

Grotesco, inóspito, agreste,
este som dos outros que nos chega!
Um som rastejante de gargantas ferrujentas,
de intenções oblíquas,
de razões ausentes

Já não vejo o que antes via;
Rostos transformaram-se em borrões,
sorrisos, são agora esgares,
Já não ouço o que ouvia;
palavras transformaram-se em gumes de facas
prontas a matar.

Inóspito, triste, depressivo.
Silêncios arrogantes,
construidos pelo deus da noite,
para fazer das boas intenções,abortos.

Não gosto.



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