Deitou-se. Adormeceu. Mas, passado pouco tempo, acordou. E levantou-se. Sentiu que trazia algo de novo dentro de si. Uma sensação de peso, de espaço ocupado, como se fosse um copo que tivesse sido enchido e tivessse ficado cheio.
Percebeu rapidamente que esse novo conteúdo que o preenchia era exigente, reclamava de si ação. Impelira-o a levantar-se e obrigava-o, agora, a vestir-se e a saír de casa, para fazer o que tinha de ser feito, fosse o que quer que fosse, que ele mesmo desconhecia.
Sentiu a absoluta impossibilidade de resistir.
O que seria que tinha dentro de si?
Importa pouco. O que importa é a missão. A missão exigida por aquela essência que lhe preenchera todo o espaço livre e que lhe pesava, agora. De que queria ver-se livre.
Chegado à rua, começou a caminhada. Mas não procurava nada, (sabia lá ele o que procurar...) caminhava à espera dum encontro, sem que pudesse sequer imaginar de que encontro estava à espera. Havia que caminhar para encontrar, algo ou alguém.
Apesar da iluminação pública, a noite não lhe mostrava nada que pudesse constituir encontro. Muito tarde. O mundo dormindo. Mas a exigência, teimosa, vinda do seu interior, obrigava-o a caminhar, a caminhar mais, sempre mais, até à consumação do ato.
Entrou no parque. Àquela hora escuro e vazio. Seguiu por entre árvores, bancos de madeira, coretos, lagos de patos. Até que lá bem ao fundo, junto ao gradeamento, pareceu-lhe... Apressou o passo.
Era o encontro!
Aproximou-se muito devagar e sem ruído, enquanto do bolso retirou a faca. A seus pés, o homem deitado no chão, continuava a dormir, sem que se tivesse apercebido de nada.
Levantou, então, bem alto a faca por 7 vezes e por 7 vezes a enterrou bem fundo no toráx do adormecido. Uma fonte, a jorrar de sangue, deu cor ao negro daquela noite ansiosa e coloriu o chão e pintalgou as plantas já tão cansadas de serem sempre verdes.
Sentiu-se de novo leve. Despejado.
Regressou a casa e então, tranquilamente, adormeceu.
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