terça-feira, 31 de maio de 2011

Privatizar a escola pública

Como o PS preparou a privatização do ensino

Primeiro, privatizaram alguns serviços das escolas, como as cantinas, concessionadas a privados. É o que temos hoje na maioria dos estabelecimentos de ensino público: comida de pior qualidade (na minha escola, dizem os alunos, come-se arroz com arroz, porque às vezes a carne ou o peixe não chega para todos ou chega aos seus pratos intragável), gastos maiores para o Estado e um reduto privado dentro da própria escola que, no fundo, não é público. Chega-se ao absurdo de ver a escola a pagar o aluguer da cantina se quiser organizar aí um convívio de professores ou de alunos. Isto se a empresa autorizar, claro.
Forma hábil, também, de reduzir drasticamente a probabilidade de existirem greves e consequente encerramento das escolas. Em tempos, bastava que as cozinheiras fizessem greve para que a escola fechasse. Com privados, a cantiga é sempre outra.
Depois veio a entrega do ensino básico de 1.º ciclo aos municípios, que muitas vezes gerem o seu parque escolar através de empresas municipais facilmente privatizáveis. Não é difícil imaginar que, nas mãos de um município, uma escola perde a sua autonomia administrativa e pedagógica. Mesmo nas restantes escolas básicas e secundárias, os famigerados Agrupamentos e Mega-Agrupamentos, hoje em dia são os municípios que, na prática, escolhem o Director. Fecharam-se escolas a torto e a direito nas aldeias, mas em seu lugar criaram-se centros escolares, muitas delas em centros urbanos e em locais muito apetecíveis para os privados. E todos conhecemos o apetite devorador das Câmaras pelo sector urbanístico.
Ainda dentro do 1.º ciclo, a criação das AEC’s – Actividades Extra-Curriculares foi porventura o exemplo mais às claras de privatização do ensino. Actividades entregues sem disfarce a empresas privadas, que por sua vez passaram a contratar os professores. Aqui, a exploração foi sempre a palavra de ordem. Abundam os casos em que estes professores, muitas das vezes a recibo verde, recebem 4 euros por hora e, para além das aulas, ainda têm de acompanhar os meninos durante o intervalo. Uma situação que foi piorando à medida que o programa se foi implementando. Na Câmara do Porto, por exemplo, começou por ser a Faculdade de Letras a contratar os professores de Inglês das AEC’s, mas dois anos depois já era uma empresa privada de Lisboa a tratar do assunto, pagando, como é óbvio, muito menos. Em 2009/2010, numa medida com o mais elevado sentido pedagógico, os docentes receberam os seus horários para o ano lectivo numa garagem de Matosinhos.
A cereja no topo do bolo chamou-se Parque Escolar. A pretexto de modernizar as escolas – algumas precisavam, outras não – entregou-se a uma empresa pública o planeamento, a gestão, o desenvolvimento e a execução das obras, na maior parte das vezes através de ajustes directos e sem a menor transparência, como o Tiago Mota Saraiva tantas vezes denunciou no 5 Dias. Uma empresa pública que, repare-se, tornou-se a proprietária das escolas que intervencionou, sendo que estas passaram a pagar verdadeiros balúrdios de renda mensal à Parque Escolar. E se esta um dia for privatizada (será uma das duas grandes empresas que Sócrates queria privatizar em 2012?), todas essas escolas passam a ser privadas. Simples, não é?
Num assomo de honestidade, em fim de festa, os nossos amigos corporativos acabam por reconhecer que os Governos de Sócrates não pararam de aumentar o financiamento do ensino privado, apesar da diminuição do número de turmas subsidiadas.
Depois disto tudo, é provável que os socialistas tenham a suprema lata de vir dizer que o PSD quer privatizar o ensino. E logo eles que não fizeram nada para isso…

O FMI

http://youtu.be/8MPJkq8LiNQ

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Irreal


Para te encontrar
mil vezes te procuro
correndo sem saber para onde vou.
Persisto na procura!
Mergulho na loucura,
porque te vejo oiço e sinto
mas sempre tão lá longe
como se o aqui não fosse cá
pois distâncias são mais que geometria
mudando o real em ironia.

Passo as mãos por ti
mas sei que não as sentes.
Calo as palavras, grito-as só para dentro
pois desta forma sei que não as ouves,
mesmo se ressoam nas paredes.
Penso que é assim que deve ser!
Malabarismos do ser e do sentir,
contorcionismos do ver e do ouvir
provando que aquilo que é audível
mascara, sempre, o som do real incognoscível.

domingo, 22 de maio de 2011

o fim da História?


Bem se enganou quem deciciu que já tínhamos chegado ao "Fim da História"...

sábado, 21 de maio de 2011

A carta

Há uma carta
que anda pedida e não chega.
Talvez morada errada,
talvez esquecida num marco de correio, algures,
ou talvez a tinta do endereço tenha sumido
lavada de chuvas inventadas.

Insisto em esperar por ela
como quem espera a chuva no deserto.
Imagino o que ela diz
leio o que não vejo, em carta que não está
e cada dia leio o que eu quero ler.

Invento a carta e invento o texto
invento palavras que invento que recebo
invento estar a ler o que não leio
para inventar  que a carta precisamente diz:

- "Nada do que lês é inventado."

domingo, 8 de maio de 2011

O fim

Chega  o fim da vida
bem devagarinho,
sem sobressalto, sem pressa, sem corrida.
Como brisa que corre de mansinho
e aparece, sem se fazer ouvir.

Não se ouvem gritos de carpideiras a contrato
nem choros convulsos  de partir
as pedras negras das calçadas de basalto.

Coisa estranha, esta quietitude,
como se a vida não fosse a plenitude
de milhões de anos de evolução da alma!
Porque, afinal, toda esta calma,
faz da vida absurdo, da pessoa um nada
e transforma ideologias numa  palhaçada.

sábado, 7 de maio de 2011

Entradas para o futuro

Portas fechadas

Bato à tua porta, logo ao despertar,
por acordar em ânsia de te ver.
Bato-te à tua porta, ao anoitecer
quero te dizer "boa noite",antes do jantar

Bato à porta, sim,
bem ouço o som que faz.
Não ouves ou não estás?
Ou só não estás p'ra mim?

Por não saber ao certo,
resisto a insistir
e saio dali de perto:

são horas de dormir.
O sono, irá, decerto
bloquear o meu sentir.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Deixa sair o sopro
que és tu feito poeira
que o vento leva para longes espaços
desertos, invisíveis, vazios de gentes.

Deixa-te, pois, ser sopro,
apenas isso e mais nada,
para que ninguém te veja, ninguém te saiba, ninguém te descubra,
para que não tenhas que ver, falar, ouvir,
para que o pó que apenas és, apenas sirva para alergias de incautos mais sensíveis
ou, então, para escurecer horizontes,
como se fosses nevoeiro denso  feito de areias de desertos mortos.

Já não estarás aqui, nem em nenhuma parte,mas em todas,
transportando contigo um bafo sujo de corpo apodrecido
feito pó dum tempo engrecido
castigado de promessas que eram núvens.

Sob esta forma é este o teu futuro,
futuro eterno de poeira negra,
espalhada pelo Universo
também Ele, em fuga de si próprio!
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