sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Pilatos

Gigantescos novelos de linhas enbrulhadas
em que os dedos não conseguem,
os olhos não conseguem,
nem sequer o pensamento.

Cortar tudo,
destruição total.
Travões a fundo!
Alguma coisa pode correr mal...

No caos do existente
a esperança do que pode vir a ser:
uma pequena luz, que pode virar estrela,
um suave tom, que pode virar cor,
um vago imaginar,  que poderá vir a ser certeza.

Talvez, afinal, nada.
Linhas em tremenda confusão
sem solução.

Que seja pois, o que tiver de ser!
O que o destino tiver por necessário...

Eu estarei cá
                    para
                            eventualmente
                                                        ver.







terça-feira, 28 de outubro de 2014

Gelo


Homenagem a ti, Oh rei!
Rei da vida e das certezas.
Objetivo, concreto, calculista,
hábil modelador de palavras
exímio criador de personagens,
xico esperto e arrivista.

Glória a ti, ser superior,
a que se curvam todos os comuns humanos,
em bajulações de amistosidade inventada.
Vais à frente, sempre à frente e mais além:
em tua gloriosa caminhada,
não há entraves nem momentos de paragem.

Sergue, segue sempre,
o teu destino é o teu guia,
e o teu guia és tu.
Acima e além de tudo: tu!
O resto  são alavancas ou  barreiras:
usa os primeiros, destrói os outros.

Esmaga sob os teus divinos pés
os degraus da tua escada,
para que fique a marca de teus heróicos passos
bem gravada.
Segue em frente. indiferente,
feliz, e em ti mesmo  suficiente!

Maior serás,  até que o prório Mundo!

Mas só de gelo és feito
e de mais nada...

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A fingir

Um dia o vento
sincero e assertivo
fez valer sua vontade
e percorreu o mundo
sem maldade
e sem lamento
e semeou destruição e caos
sem caridade.

O mar ergueu-se em ondas de bravura
e varreu o lixo deixado pelo vento:
coisas e pessoas,
animais.
Numa tempestade de loucura
agreste e cruento
cometendo atos  brutais.

Depois, sorridente de ironia,
como se o acontecer não tivesse acontecido
lá bem alto
desafiando vertigens,
inundando o céu e a terra de luz
a acordando até a morte que dormia,
apareceu a lua.

Serena e ignóbil.
Uma lua que fingia.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

"Já tudo pode ser tudo aquilo que não é"

                                                 -Sérgio Godinho


Tempo de balanço

A 1ª publicação deste blog está registada em Junho de 2011. Estamos, pois já com mais de3 anos de publicações! Curiosamente, o blog foi realmente determinando o seu conteúdo, que acabou por não corresponder ao seu objetivo inicial. Acabou por se tornar mais num diário de sentimentos, sensações e emoções e muito pouco de análise de acontecimentos e sua interpretação em forma de parábolas, que era o que estava inicialmente previsto.
Percorro agora as diferentes publicações do blog. Passados 3 anos, "muita água foi correndo sob as pontes" de tal forma que os rios já não são os mesmos.
Alguns posts aqui colocados, pela sua total não correspondência com o que o passar do tempo veio a demonstrar ser realidade, dão-me uma imensa vontade, agora, de os apagar. De os tornar inexistentes. Até porque são reveladores de até que ponto se pode ser iludido pela má observação da realidade, ou, dito por outras palavras, andar fazer "papel de parvo".
Mas, por outro lado, não desejo seguir as "pegadas"  de tantos políticos e historiadores, que da História vão apagando factos ou rescrevendo acontecimentos à luz de atuais conveniências. E é com este pensamento a dominar todos os outros, que não apago nada, embora avise quem por aqui eventualmente ande, que muito do que aqui se registou não são mais que apreciações de momentos vivenciados em erradas perspetivas, que, no entanto, pareciam reais nos presentes em que se escreveram. O devir do tempo veio, infelizmente mostrar a gravidade dos erros de paralaxe então cometidos.
Mas, foi assim que se sentiu e se viveu e assim ficará.
Até porque da forma como se sente se atua, e do que se sentiu houve consequências bem reais e que bem alteraram caminhos e percursos. Se os sentidos fossem mais fiáveis, muitos pedaços das nossas vidas seriam substancialmente diferentes, não sabendo nós como teriam sido, se melhores ou se piores, mas diferentes, isso, de certeza!
Apenas altero a publicação inicial, embora sem a apagar. Passará para a data certa em que foi escrita e assim melhor se enquadra do ponto de vista "histórico" do blog, pois só nessa perspetiva de curso dos acontecimentos da imaginação, essa publicação fará algum sentido.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Desalento

Num momento, num segundo
dá-se a volta morre o mundo
cai o céu, e foge a lua
bate a alma lá no fundo.

E o sim via nim e depois não.
A certeza vira engano;
o engano vira dor;
o real fica sem cor.

Num segundo, num momento
sai de cena o pensamento
fica só o sentimento
sem sentido.

Num momento
mum segundo
sentimento e
pensamento:

desalento...


domingo, 5 de outubro de 2014

Notícia


Apenas a voz do silêncio longe trazida pelo vento norte, se ouve na praça retangular, onde a vida se imagina no esvoaçar das folhas mortas, caídas no chão, que se deslocam em movimentos absurdos de quem vai para onde não sabe. Os bancos estão certamente à espera, o empedrado dos passeios, também à espera, a água do lago do jardim, ao centro , rodeado por quatro ruas, espera também que algo a justifique.

Talvez por já ser escuro. Ou talvez não.

De repente um grito. Desprovido de autor. Um grito absurdo que se ouve e logo morre, sem se saber origem nem razão. Fica de novo o silêncio do vento, a empurrar almas que insistem em vaguear por ali.

Um homem só caminha. Leva consigo a bagagem da memória, que lhe dificulta a marcha e lhe atrasa o passo. Deixou para trás a pressa,  e pessoas, centenas delas, que foi deixando cair pelo chão,  ao longo da viagem que iniciou um dia de que, na distância do tempo já não se lembra.

Senta-se, para dar razão de ser a um banco, que, agradecido, o recebe no seu colo de madeira, que tempos antes já deu frutos. Abandonado, um jornal caído mesmo ali ao lado, faz o homem esticar um braço e focar os olhos, na esperança de saber mais dos outros e talvez de si.

Espantosamente, logo na primeira capa, reconhece-se na fotografia! Ele próprio, na primeira página do jornal do dia! E, no entanto, nada recorda que justifique uma notícia sobre si próprio. Que será?

Será coisa boa? Coisa ruim? A dúvida faz nascer a hesitação. Valerá a pena ler? Ficar a saber mais de si próprio do que o que sabia, mas ficando sem saber à mesma, porque notícias, há as que são e as que se fabricam…

E assim ficou, jornal na mão, olhos na fotografia, não ousando, porém, tomar decisão de ler.

De manhã bem cedo, hora de ir para a escola, a Ana saiu de casa e reparou num homem sentado no banco do jardim com um  jornal na mão. Aproximou-se.  Abriu a boca de admiração, ao ver que na primeira página do jornal estava a fotografia do próprio homem que segurava o jornal na mão, e que persistia naquela posição, olhos abertos e fixos no jornal, como se tudo o que o rodeava não existisse. Nem sequer levantara os olhos com a aproximação da criança, que estava agora mesmo ao seu lado, mas que era como se não estivesse.

Sem hesitações, Ana  leu a notícia:

“Hoje, pelas 7 horas da manhã, uma criança, ao sair de casa para ir para a escola, deparou-se com o  um homem de meia idade, sentado num banco de jardim e um jornal na mão, já em estado de rigidez cadavérica.  O corpo foi levado para o instituto de medicina legal, procedendo-se agora à identificação do corpo”.

 Foi a única vez que aquele homem foi notícia.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

LOL

Manhas e artimanhas,
entropias de propósitos
desgoverno de sentimentos
obsessões imperdoáveis
becos.

Não há rimas aqui
que nada rima
tudo em desgoverno
só há métricas... da tanga!

Em volta do sol, tudo está negro,
fotões moribundos em delírio
num espaço de infortúnio.
No vazio,
a serenidade é imperdoável!

Cantemos um hino à alegria!!!
LOL
Mesmo 
sem 
sol...





Distância

Distância...
A distância que se constrói
que se elabora
distância - nem acaso nem destino 
a distância que se quer.
Porque é mais fácil.

Quando a visão já nem alcança,
nem se ouve a voz, nem se sente o cheiro
por comodidade
porque é mais fácil.

Esticam-se os braços
mas a distância já é 
e os braços já não chegam.
Por que se quer assim.
Porque é mais fácil.

Perguntas ao céu, à lua, às estrelas:
onde?,
A resposta é a distância,
porque se quis que fosse.
Porque é mais fácil.

Distância, o espanto da ausência
o clamor que não se ouve, por tão longe,
o grito silencioso gritado no vazio do infinito,

porque se quis assim e assim se fez.

Porque é mais fácil.





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