domingo, 5 de outubro de 2014

Notícia


Apenas a voz do silêncio longe trazida pelo vento norte, se ouve na praça retangular, onde a vida se imagina no esvoaçar das folhas mortas, caídas no chão, que se deslocam em movimentos absurdos de quem vai para onde não sabe. Os bancos estão certamente à espera, o empedrado dos passeios, também à espera, a água do lago do jardim, ao centro , rodeado por quatro ruas, espera também que algo a justifique.

Talvez por já ser escuro. Ou talvez não.

De repente um grito. Desprovido de autor. Um grito absurdo que se ouve e logo morre, sem se saber origem nem razão. Fica de novo o silêncio do vento, a empurrar almas que insistem em vaguear por ali.

Um homem só caminha. Leva consigo a bagagem da memória, que lhe dificulta a marcha e lhe atrasa o passo. Deixou para trás a pressa,  e pessoas, centenas delas, que foi deixando cair pelo chão,  ao longo da viagem que iniciou um dia de que, na distância do tempo já não se lembra.

Senta-se, para dar razão de ser a um banco, que, agradecido, o recebe no seu colo de madeira, que tempos antes já deu frutos. Abandonado, um jornal caído mesmo ali ao lado, faz o homem esticar um braço e focar os olhos, na esperança de saber mais dos outros e talvez de si.

Espantosamente, logo na primeira capa, reconhece-se na fotografia! Ele próprio, na primeira página do jornal do dia! E, no entanto, nada recorda que justifique uma notícia sobre si próprio. Que será?

Será coisa boa? Coisa ruim? A dúvida faz nascer a hesitação. Valerá a pena ler? Ficar a saber mais de si próprio do que o que sabia, mas ficando sem saber à mesma, porque notícias, há as que são e as que se fabricam…

E assim ficou, jornal na mão, olhos na fotografia, não ousando, porém, tomar decisão de ler.

De manhã bem cedo, hora de ir para a escola, a Ana saiu de casa e reparou num homem sentado no banco do jardim com um  jornal na mão. Aproximou-se.  Abriu a boca de admiração, ao ver que na primeira página do jornal estava a fotografia do próprio homem que segurava o jornal na mão, e que persistia naquela posição, olhos abertos e fixos no jornal, como se tudo o que o rodeava não existisse. Nem sequer levantara os olhos com a aproximação da criança, que estava agora mesmo ao seu lado, mas que era como se não estivesse.

Sem hesitações, Ana  leu a notícia:

“Hoje, pelas 7 horas da manhã, uma criança, ao sair de casa para ir para a escola, deparou-se com o  um homem de meia idade, sentado num banco de jardim e um jornal na mão, já em estado de rigidez cadavérica.  O corpo foi levado para o instituto de medicina legal, procedendo-se agora à identificação do corpo”.

 Foi a única vez que aquele homem foi notícia.

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