Apenas a voz do silêncio longe trazida pelo vento norte, se
ouve na praça retangular, onde a vida se imagina no esvoaçar das folhas mortas,
caídas no chão, que se deslocam em movimentos absurdos de quem vai para onde
não sabe. Os bancos estão certamente à espera, o empedrado dos passeios, também
à espera, a água do lago do jardim, ao centro , rodeado por quatro ruas, espera
também que algo a justifique.
Talvez por já ser escuro. Ou talvez não.
De repente um grito. Desprovido de autor. Um grito absurdo
que se ouve e logo morre, sem se saber origem nem razão. Fica de novo o
silêncio do vento, a empurrar almas que insistem em vaguear por ali.
Um homem só caminha. Leva consigo a bagagem da memória, que
lhe dificulta a marcha e lhe atrasa o passo. Deixou para trás a pressa, e pessoas, centenas delas, que foi deixando
cair pelo chão, ao longo da viagem que
iniciou um dia de que, na distância do tempo já não se lembra.
Senta-se, para dar razão de ser a um banco, que, agradecido,
o recebe no seu colo de madeira, que tempos antes já deu frutos. Abandonado, um
jornal caído mesmo ali ao lado, faz o homem esticar um braço e focar os olhos,
na esperança de saber mais dos outros e talvez de si.
Espantosamente, logo na primeira capa, reconhece-se na
fotografia! Ele próprio, na primeira página do jornal do dia! E, no entanto,
nada recorda que justifique uma notícia sobre si próprio. Que será?
Será coisa boa? Coisa ruim? A dúvida faz nascer a hesitação.
Valerá a pena ler? Ficar a saber mais de si próprio do que o que sabia, mas
ficando sem saber à mesma, porque notícias, há as que são e as que se fabricam…
E assim ficou, jornal na mão, olhos na fotografia, não
ousando, porém, tomar decisão de ler.
De manhã bem cedo, hora de ir para a escola, a Ana saiu de
casa e reparou num homem sentado no banco do jardim com um jornal na mão. Aproximou-se. Abriu a boca de admiração, ao ver que na
primeira página do jornal estava a fotografia do próprio homem que segurava o
jornal na mão, e que persistia naquela posição, olhos abertos e fixos no
jornal, como se tudo o que o rodeava não existisse. Nem sequer levantara os
olhos com a aproximação da criança, que estava agora mesmo ao seu lado, mas que
era como se não estivesse.
Sem hesitações, Ana leu a notícia:
“Hoje, pelas 7 horas da manhã, uma criança, ao sair de casa
para ir para a escola, deparou-se com o um homem de meia idade, sentado num banco de jardim
e um jornal na mão, já em estado de rigidez cadavérica. O corpo foi levado para o instituto de medicina
legal, procedendo-se agora à identificação do corpo”.
Foi a única vez que
aquele homem foi notícia.
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