quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Hoje

Houve um tempo.
feito de sol e de lua
de orgulho e de esperança
e de inquietação.

Houve um tempo
que o tempo lentamente deixou que se perdesse,

no horizonte longe.

Um tempo que dói,
hoje.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Um bocadinho fora de prazo...


Correram dias e horas
momentos que não foram
vozes que não se ouviram
mas, ainda era tempo.

Depois vieram dias de sol, noites de lua
dias sem sol, noites sem lua
momentos que não foram
e vozes que não se ouviram
mas, ainda era tempo.

Seguiu o Mundo o seu caminho,
seguiu a vida o seu destino
com momentos que não foram
e vozes que não se ouviram

e passou o prazo.

Silencio de gritos

Do longe chega o grito de alguém.
Lá ao longe. Muito longe.
Alguém que ainda acha que vale a pena gritar.
E o grito segue caminho
Mas não sabe o caminho.
E perde-se no espaço.

Porque são poucas as orelhas
e as que existem não servem para ouvir
apenas para enfeitar.
Não há sentido no grito.
Sem sentido, também não há caminho.
O grito seguiu o caminho que não há!

Finalmente, como é próprio dos gritos,
também este se transforma em silêncio.
Fica a noite, o nevoeiro
e o estranho silencio que os gritos produzem.





Nevoeiro

Engraçado, o nevoeiro. Quando a realidade se torna mais real e se percebe que nada é o que se pensa ou, pelo menos, pode não ser.

Hoje, aqui a olhar pela janela, os edifícios que costumo ver, parecem vestígios de memórias anteriores, que se esfumaram no tempo. 

E percebo, enfim, porque é que tempo é ao mesmo tempo, meteorologia e história!

Também momentos, pessoas, interações, são hoje apenas vestígios. 

Que ficaram por lá, no nevoeiro do tempo.


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Porque Deus quis...



O adeus, o abraço
as lágrimas que espreitam e deslizam.

Talvez...
porque Deus quis.


Adeus, abraço
e a compreensão do impossível.
O impossível que cai como uma pedra feita chuva
que esmaga e destrói.
E dói.

Talvez...
porque deus quis.

O rumo é a distância
distância física
distância sentida, face ao futuro antes projetado.

Lá vai
As lágrimas  espreitam e deslizam.

Talvez...
porque Deus quis.

E contra Deus, não há maneira.
Não há volta a dar.

Porque Deus não ladra, morde!

Foi.
Como se fosse carta, como se tivesse um endereço.
Sem poder de decisão.
Adeus.
Abraço.
Lágrimas.

Talvez,
porque Deus quis.




terça-feira, 22 de setembro de 2015

Vozes


É talvez crime...
Disseram-me que é crime,
as vozes roucas do silêncio que me fala.
As vozes que só eu oiço.

É crime!!!

É talvez doença...
Cochicham entre si as vozes em surdina
as vozes que só eu oiço
as vozes do silêncio triste.

É doença...

Portanto,
nem elas, sabem.

Chuva impossível


Esta noite
a escuridão fechou a perspetiva
o céu não passa duma fronteira fechada
que encravou o horizonte.
Não há fuga.
Não há caminho.

Claustrofobia imensa
feita da água salgada dos meus olhos
que transborda sem ter para onde seguir:
que o céu fechado
nem sequer permite a chuva!

Cimêncio


Distância aqui.
Mesmo aqui ao lado.
Distância sem distar.
Distância perto.

Quando o perto se faz tão longe que os olhos não vêm.,
que o falar se cala
que a saudade inunda.

Distância que é feita muros de cimento/silêncio:
Cimêncio.
Distância feita de cimêncio louco,
que mata o sono
e mata o ser.

O absurdo da distância perto,
que faz doer tanto.

Nada a fazer.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Bem alto

Bem alto, bem alto,
lá onde o som encontra o sol
onde as núvens ficaram para trás
bem alto, lá bem alto,
onde a chuva se cansou de tentar chegar
e os medos se arependeram da viagem
um espaço de distância que se fez morada
de quem sonha.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Som

O som do nada na constante da noite
grita, agride,
penetra no interior dos sonhos e mata-os
e cria pesadelos.

Calam-se as vozes, calam-se todas as músicas
até se calam as vontades,
que o som do nada é tão forte, que não vale a pena.

Só mesmo o som do nada na constante da noite
se faz ouvir.

Luar de luto



Tão negra
enche de negro o céu
e espalha o negro pela terra e pela água
e espalha o negro pela  alma.

Os olhares são também negros.
tal com os risos e os choros das crianças
Menos os pássaros
que se esconderam, negros de pavor.

Agora que o sol deixou de acontecer
resta apenas esta enorme bola escura
que nos acompanha sempre:

esta terrível lua negra.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Fatacil é pontapé

Algarve, final de Agosto, é sempre altura de dar um salto à Fatacil. Há sempre algum concerto que vale a pena e as exposições valem sempre a pena.
Assim é que, até ao ano passado, Fatacil significava, para mim, basicamente isto.
Agora já não... Passou a ser mais que isto.
Fatacil agora é também a lembrança do maior pontapé no cu que eu já levei.
É assim.
Que se foda!



sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Espera



Retorcida  rocha, dorida,
eleva-se num grito surdo de angústia
que ninguém sabe ouvir.
Arrasta consigo milhões de tempos,
milhões de vidas que já não existem,
milhões de histórias, que um dia foram.

Eleva-se no ar, num implorar de misericórdia,
a que ninguém atenta.
(que uma rocha não merece olhares da alma)

Ali fica à espera,
da revolução do final do mundo.



Certezas


Lá numa ponta o sim,
na outra o não,
liga-as o árduo caminho da indecisão.

Saber porquê ou porque não,
não cabe na razão, tão só na emoção.

Na ponte suspensa, que balança ao vento 
não há passos firmes
e certezas só duram um momento.
Saltita o andar duma ponta à outra,
e em cada passo/salto que se dá
muda o sentido:
porque sentido nem sequer há.

Indifrente à ponte.
lá em baixo, o rio,
não tem dúvidas sobre o seu caminho!





terça-feira, 28 de julho de 2015

Delusions



Pensei eu era um anjo descido do céu
Para me apoiar,
Pensei que era um filho trazido pelo vento
Pra me completar,
Julguei que era Deus se lembrando de mim,
Pra me acompanhar,
Julguei que era agora que a amizade chegava
E vinha pra ficar

Deixei as defesas e abri minhas portas
De par em par
Esqueci que era eu passei a ser nós
Sem nada a guardar
Doei o meu tempo como se fosse infindo,
Sem nada cobrar
Sofri  pelos males que não eram meus
A ponto de chorar

Disse não a quem me avisava do perigo
Sem acreditar
Zanguei-me com quem criticava esse filho
Dei xei de  falar
Com teimosia absurda ignorei  evidências
Queria acreditar
O tempo passava e eu não acordava
Preferia sonhar

Mas um dia coma a brutalidade do Universo em sinergia,
Das entranhas da terra o jorrar da desgraça
Qual lava a queimar
Destruiu num momento todos aqueles anos
De só delirar
Acordei  e vi  com olhos de ver
 não olhos de olhar:

e enorme o barrete
que andei a enfiar…

domingo, 26 de julho de 2015

Tem a palavra o falecido



 
Em contraposição à geometria da sala, chão retangular com um retângulo delimitado ao centro, uma entropia de vozes sussurrantes espraia-se, proferindo  interrogações e suposições,  criando um sururu de sons,  como se de uma reza se tratasse. Pessoas que se agrupam ao longo do espaço disponível da sala, que se interrogam e que tentam responder. O que perguntam e o que respondem é comum a todos esses grupos ad hoc constituídos:
_E qual terá sido a razão?
_Alguém sabe o porquê?
_Mas estava tudo bem, uma vida com tudo o necessário para ser feliz, como se entende?
_Deixou alguma carta? Que dizem os familiares mais próximos?
_ Teriam sido dívidas?  Desgostos de amor?
_Não se conhece nada que justifique, e no entanto…
Então, um silêncio total, quando, do espaço retangular ao centro se ergue um cadáver que percorre a sala com seu olhar de morto. E ouve-se o que pensa,  a voz da sua alma transpondo as barreiras dos mundos, para se fazer finalmente, entender.
Eis o que se ouviu:
“ Cais num espaço onde não há portas nem janelas por onde possas saír. Esse espaço pesa. Sentes-te sedimento carregando milhões de sedimentos que se sobrepõem e tu, por baixo, vais sentindo o peso que progressivamente se incrementa. E dói. O esmagamento faz doer e faz sangrar. O tempo passa, o peso aumenta, a dor cresce, cresce, cresce a cada hora a cada minuto, uma dor que cada vez suportas menos. Precisas sair, fugir, escapar. A dor é já absolutamente insuportável. Olhas de novo em volta…Não há saída a não ser… Sim, há uma saída que pode põr fim à tua dor. Apenas uma saída, que não é porta nem janela pois não conduz a nenhum lado, mas que permite sair, sim.
Mas a dor, de onde vem ela? Tu sabes, claro que sabes.  Mas não dizes. Porque racionalmente sabes bem que a origem dessa dor é  absurda. Um pequeno ponto na imensidão da tua realidade, tão restrito no espaço e no tempo, que não é justificação Para os outros não é justificação. É estúpido. E, até para ti próprio é estúpido, também.
 Por isso não dizes, guardas.
Porém, estúpido, insignificante… Tem a capacidade de se apoderar do todo, a capacidade de crescer no teu imaginar, crescer ao ponto de apagar tudo o resto, ocultar tudo o resto e ganhar a dimensão do teu universo. Então não vês mais nada, porque tudo o mais é desprezável. Racionalmente…pois, racionalmente importa pouco, que mais que razão a vida é emoção e sentimento!
Focas-te aí, nesse pormenor de ti, que se transformou no todo. E esse pormenor, sem solução, entope todo o fluir do pensamento lógico.
Objetivamente de importância reduzida.
Objetivamente…. mas subjetivamente, NÂO!!!
E naquele momento decisivo, este pormenor toma as rédeas. Tudo o que tem cor, tu já não vês, que o teu mundo ficou a preto e branco.
E é aí que a decisão se consubstancia em ação. Nesse curto espaço de tempo em que o climax da dor é atingido e a necessidade de saída é imperiosa e inadiável.
E sais.
Não é, afinal, assim tão complicado de entender!”
Retorna o corpo à sua posição horizontal, faz- se o silencio.
Recomeçam as vozes sussurradas com perguntas e suposições:
É que, na verdade, ninguém entendeu nada.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Libernada


Num copo de vinho
se afogam as badaladas do tempo
os olhos  encerram-se em si prṕrios
enquanto o pensar ganha asas de pássaro
e voa ao sabor do vento.

Já nada é real nem existente
a não ser o reino da ilusão
que cresce, inundando o espaço e a mente
sem deixar espaço à razão.

O fumo do cigarro espraia-se no incomensurável vazio,
de que o Mundo é construido.
Desaparece.
Desaparecemos juntos,
tal como o mar faz desaparecer um rio.

Não há verdades, onde só existe o nada.
No nada,
não é preciso haver razões.

Liberdade,
é como o fumo do cigarro:
Sem destino, sem futuro, sem ilusões.



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