O pobre rapaz dormia ao relento, tinha fome e cheirava mal. E eu com um quarto disponível. Estava a fazer-me mal à consciência.
Veio morar para cá.
A rapariga andava toda suja e pelas esquinas mendigando, à noite, debaixo daquele túnel e embrulhada em jornais, sonhava com dias melhores.
Estava a fazer-me mal à consciência.
Onde cabe um, cabem dois.
Veio morar para cá.
E trouxe com ela o namorado, coitado, desempregado desde há dois anos, sem lugar onde passar o tempo desocupado que não fosse a tasca, bebendo e fumando vá se lá saber o quê e como.
Veio para cá.
Progressivamente os sons a que me acostumara foram-se alterando. A música deixou de ser aquela que eu e o resto da família costumávamos ouvir.
E na televisão, notícias nunca mais, todos preferiam os reality-shows. Deixá-los, coitados.
Chato mesmo passou a ser a casa de banho sempre cheia de papéis pelo chão e molhada. Mas... hábitos são hábitos. E há que respeitar.
Foi então na passada semana que aconteceu uma coisa estranha...aliás 3 coisas estranhas, embora uma de cada vez:
Chego a casa 3ª feira e diz-me o meu filho:
-Olha, a mãe foi-se embora de malas aviadas. Diz que estava farta.
Confesso que não percebi...
Mas, 5ª feira, chego a casa e diz-me o meu filho:
-Olha, a mana saiu de casa. Diz que já não podia mais.
Desta vez ainda fiquei mais perplexo.
No dia seguinte, ao chegar a casa, não vi o meu filho. Perguntei aos meus convidados se sabiam dele. Encolheram os ombros e disseram:
-Parece que esse rapaz era um bocado estranho, sempre a queixar-se da nossa música e a dizer que não se podia entrar na casa de banho e que estava farto de reality-shows... Só sabemos é que o vimos de mochila às costas e a sair porta fora.
A minha perplexidade foi total.
Foi então que reparei que me irritava ter espalhadas pelo chão aquele monte de garrafas de cerveja postas por ali ao Deus-dará, e ter de andar sempre aos tropeções ora nas garrafas ora nos preservativos também por ali espalhados.
A irritação foi subindo de tom... Fiz as minhas malas e fui morar para uma pensão.
Com uma pesada dor no peito, deitei-me sobre a cama, e senti, pela primeira vez na própria pele, a angústia da exclusão.
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