sexta-feira, 19 de julho de 2013

Libertação

Sombras negras, inesperadas,
cobrem o sol, a terra, a lua,
sombras opacas cheias de morte e de tenura seca.

Esperança murcha, futuro queimado, horizonte que já não se vê,
passos perdidos em caminhos estúpidos
tempo gasto em objetivos idiotas.
Só as sombras justificam o tempo,
só as sombras justificam este viver  sem rumo.

Nada dá brilho ao que não tem cor,
nada explica a frieza do sentir e do agir,
nada explica a indiferença,
a não ser,
o avolumar das sombras da insensibilidade.

De manhã, já não há cantos de aves,  nem risos de crianças
abafados pelo peso do negro deste tempo em que a morte reina.
Morte do sentir, morte do tocar, do ouvir e do olhar.

Agora sim, sem todo o constrangimento que qualquer luz provoca,
ganhamos a liberdade plena:
somos, portanto,  livres,
para sermos indiferentes.






quarta-feira, 17 de julho de 2013

Sempre

Ontem, hoje, amanhã, nunca,
sempre.
Mas o sempre, é sempre relativo.

Nem sequer tenho a certeza de estar vivo...

Numa outra  esfera - pensamento,
confundem-se os tempos.
O que foi ainda é e o que é será.

Mas pensamento é vento,
apenas ar que flui,
e nunca é.

Certezas não passam de ilusões,
sensações de instantes breves
que se esvaem ao segundo.

O sempre, é ontem, amanhã, nunca,
porque o agora...
                         nem sequer existe!


Depois

E no entanto,
no meio dos cacos,
escondido por entre os rios de lixo
que inundam este espaço curto e sem janelas
de vez em quando,
sem grande ruido,
sem anúncio prévio,
surge.

Sempre de forma inesperada,
como se as cartas de tarot fossem verdade,
por não preverem o imprevisível
que acontece apenas por acontecer.

Quando o mundo passar,
e eu estiver naquele espaço que não sabemos onde,
naquele tempo, que não sabemos quando,
será que também surge?

Ou será que nunca mais?

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Futuro

Venha o vento forte
que derrube as casas, as vilas, as cidades
amontoado escombros sobre escombros
que a chuva lavará um dia.

E que venha frio de fazer estalar os ossos
e que eles estalem,
para que os corpos fiquem carnes rastejantes
e  ds diluam na terra.

E depois a chuva,
forte, violenta, persistente,
a lavar e a levar para o desconhecido do mar
tanato lixo que nos destrói as vidas.

Resistirá, talvez,
alguma flor nos confins do mundo,
qua agitará as suas pétalas tranquilas
dando enfim alguma cor a um futuro
tornado, emfim, possível.

Rota perdida

Há um caos
abrangente, determinante, dominante,
que transforma ideias em rascunhos
que enche caminhos de lama
e destrói destinos.

Um caos feito de coisas que não são,
um caos que nasce da mentira
um caos cozinhado em cozinhas bafientas
de cozinheiros decrépitos.

Estradas que já não conduzem a lado nenhum,
passos que se perdem de andar à volta, em voltas repetidas
como se andar fosse só isso, andar!

Andando vamos, pois,
mas sem irmos a lado nenhum

Sede

A voz veste as palavras,
como o verde, as folhas,
como a luz, a vida.

A voz, pode ser presença, grito, choro
e pode ser saudade:
lembrança que se ouve cá dentro,
quando o silêncio é o que nos chega.

Vejo e também ouço,
mas apenas porque fecho os olhos.
Se os abro, vai-se a imagem e cala-se o som,
neste infinito de distância.

Dá-me, pois, o som da tua voz,
envolvendo nele as palavras que me envias
que, só escritas,
não  matam a sede de te ouvir.





sexta-feira, 12 de julho de 2013

Orgia de sangue

Jorra o sangue,
vermelho, intenso, grosso,
da carne rasgada pela ferida
 aberta e exposta.

E corre, e grita,
grita o sangue e geme a carne,
numa orgia de morte
intensa e louca.

Num tempo que se tornou opaco,
iluminado pela luz negra do sol
que não aquece:
arrefece e esconde.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Sem som

Já não sei
de que tempo és.
Se deste agora,
se dum outro da memória
para onde te transportei, trazendo-te a ti
e a esse tempo
para um hoje que não sei se existe.

Num jogo complicado de tempos que se movem,
em que o presente é feito de outros tempos
e os tempos se confundem.

És, provavelmente, a ponte necessária.
que transforma a falha em continuidade
e permite ao percurso o fazer sentido
por transmutações da amizade.

Precisar de ti, é uma evidência,
que, provavelmente, não se vê...
Grito, calado, "preciso de ti...."
já que gritar alto,
seria uma imprudência.

Tempos

Imagino-me com o ar mais idiota do Mundo. A espreitar à porta da sala de professores. E a olhar em volta, a escadaria de acesso e os corredores. Tão idiota devia estar, que ela reparou e sorriu, julgando-me colega.
Mas não, naquele preciso momento não era colega, mas ex-aluno.
Naquele espaço, em dois anos, tanta coisa aconteceu...
Perguntei-lhe pelo velho ginásio, e fiquei a saber que andaa l´estava, com as mesmas varandas de antes, mas agora destinado a reuniões (anfiteatro).
Mas já antes, já antes....Quantas RGAS, ali. Quantas discussões acaloradas...Verdade, foi ali que pela primeira vez comecei a fumar!
Mas não estão lá, já não estão lá... o Zé, o Couto, o Fortuna, o Formigal, (estarão onde?), "peças" fundamentais daqueles anos de descoberta e construção de mim próprio.
Foi ali que passei dum tempo em que era porque era assim, para um novo tempo em que  mais do que p que era porque era, seria também aquilo que decidiria ser - o tempo de construção do eu.
Tempos de construção de sexualidade, de construção de uma visão do mundo só minha, de construção de opções políticas, de descoberta da amizade como valor em si mesmo, tempos de tanta coisa junta.
Ao mesmo tempo que se construa um país novo, construção essa que intricava na minha construção de mim próprio.
1974
Lisboa.
Lyceu normal de Pedro Nunes.

Acho que ficar velho é isto...
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