sexta-feira, 20 de junho de 2025

Foi assim que achei que não

Deixou de haver ouvidos para as palavras
e  deixaram de precisar de ser ditas.
Deixou de haver olhos para as surpresas
e deixou de precisar de haver surpresas.
Deixou de haver sons para a música
e deixou de precisar de haver música.

À noite, as luzes dos pirilampos;
o som das águas do rio;
o piar duma ave que não vemos;
o maravilhoso luar que tanto encanta;
E de dia a fantástica luz do sol;
 o rufar do vento;
o alegre pulsar da vida nas crianças a brincar;
o imparável movimento;
todos os sons, todas as cores, toda a luz e as  sombras que ela gera;
....Um pouco mais do mesmo, todos os dias!

Não vejas nada, fica dentro do teu ecrã!
saboreia a monotonia de ti
e do que tens por dever fazer.

Que eu, por mim, acho que não!












sábado, 7 de junho de 2025

 Contágio

Não era dia nem era noite, era um tempo fora do tempo, em que o pensamento tem a liberdade de se confrontar com o passado e com o futuro levitando por cima do presente, como se este fosse a única parte do tempo que não existe..

O Manuel, encostado à sombra duma árvore, aproveitou esse momento improvável para imaginar, a partir do que foi, o que poderia vir a ser.

Recuou até ao momento do nascimento, depois viu-se a mamar, depois a gatinhar, a crescer, depois na escola... e continuou a ver o seu percurso normal, de uma criança normal num ambiente normal.

Com tudo assim tão normal, não se podia espantar de ser um homem normal. Melhor: podia prever continuar a ser um homem normal.

Mas olhando para dentro de si mesmo, conseguia observar uma mancha progressiva de cansaço provocada precisamente por tanta quantidade de normalidade. Era um risco.

Retornou ao tempo real.

Olhou em volta.

Para além da sombra onde se acolhera, reinava o sol intenso, dando cor a flores, folhas, incentivando à vida os pequenos insetos que por ali circulavam livres de interrogações. Sendo essa provavelmente a definição de liberdade total: a existência sem interrogações.

Decidiu ir até à cidade. Uma cidade absolutamente normal, com pessoas em permanente deslocação, mais que os insetos, mais que os astros, pessoas sempre em movimento, sem que alguém consiga explicar o motivo que transformou os seres humanos em contínuos vai-vens.

Circulou pelas ruas durante mais de uma hora e foi registando mentalmente o que ia vendo. Depois, regressou a casa, ligou o computador e começou a escrever aquilo que tinha conseguido identificar como provavelmente diferente, destoando do conjunto de normalidades que maioritariamente observou.

Finalmente imprimiu as notas que tinha acabado de escrever, colocou-as em cima da mesa, ao lado do teclado , para futura reflexão, e foi-se deitar, como sempre fazia num dia normal como aquele.

Mas a noite não foi normal de todo!

Dormiu em desassossego- perturbado pelas notas que tinha escrito. E imaginava-se a ele mesmo a tomar as características do diferente que tinha visto.

Via-se agora mais baixo, com uma pele mais escura, de chinelos e sem meias, a deambular numa praça em que reinava uma outra normalidade diferente daquela a que estava habituado, e que, por isso mesmo, não podia considerar normal. Voltava a adormecer, para logo a seguir acordar ao sonhar-se vestido de saias, de lábios pintados e de saltos altos, enquanto caminhava pela cidade.

Ao surgirem-lhe essas imagens de si mesmo transformado, quase dava saltos na cama, assustado, temeroso, zangado. Essa possibilidade de transformação inquietava-o duma forma estranha e absurda, pois ele sabia que sempre fora e continuaria a ser igual. Mas, mesmo assim, o sono não compreendia isso e em vez de ter uma noite tranquila e reparadora, passou uma noite de desassossego.

Acordou no dia seguinte, após uma noite mal dormida, tomou o pequeno-almoço, e saiu para a rua para dar um passeio até ao parque da cidade.

Doía-lhe a cabeça.

Como era habitual àquela hora, cruzou-se com o Rui que estava a treinar no parque, mas, ao cruzar-se com ele, não lhe apeteceu falar, e fez que não o viu.

O mundo do sonho atravessava-se continuamente no seu pensamento ao ponto de precisar de ver o seu próprio reflexo na água do lago, para ter a certeza que não tinha sofrido nenhuma das transformações com que tinha sonhado.

Contágio....o contágio... Seria possível o contágio?

E à medida que o sol ia percorrendo a superfície plana da Terra dum extremo ao outro, tornando próxima a chegada da noite, o Manuel foi ganhando a certeza de que o contágio sim, era possível!

E foi ganhando a certeza de que precisava fazer alguma coisa, com urgência.

Esperou pelo anoitecer.

Preparou-se para o anoitecer.

Mal ficou escuro e o movimento reduzido nas ruas tornou exequível o seu plano, o Manuel fez o que tinha de ser feito.

E nessa noite dormiu sem pesadelos, com a tranquilidade de um anjo.


No parque o sangue que ficou, rapidamente será absorvido pela terra, a no lago a água rapidamente diluirá a putrefação dos corpos impedindo qualquer risco de contágio.



quarta-feira, 30 de abril de 2025

O que é que se é?

Somos o que pensamos, o que sentimos
o que imaginamos ser?

Vemos, 
mas não por detrás do que nos é dado ver.

E, de repente, tudo muda,
a força transforma-se em fraqueza,
a dúvida renasce da certeza
e as formas são apenas formas
que escondem as essências.

A força das mãos confronta-se com a sensibilidade dos pés.

Não somos nem o que pensamos
nem o que sentimos,
nem o que imaginamos ser.

Somos o que deus, ou diabo,
de nós, resolveu fazer!



domingo, 8 de julho de 2018

Tempo

Não se perde, o tempo
Permanece dentro dele mesmo
Recônditos eventos
Mas eternos.

Não ha fuga.
Não se foge ao tempo
Nem ele foge de nos
Esconde-se, só isso.
E esconde de nós o que já foi.

Nada se mantem,
Que o tempo não deixa...

terça-feira, 31 de outubro de 2017

De meia tigela



Engoliram o passar do tempo
como se fosse um remédio amargo.
Sujeitaram-se ao inevitável
sofreram.
Sofrem.

Estômagos doridos,
nauseas permanentes,
cérebros inconformados, resilientes...
Acatam o presente, tem que ser
mas só
porque tem de ser.

A pressão sobe a cada dia, a cada hora
e, de repente,
o vapor sai.
E jorram!

Jorram da boca os impropérios,
atacam tudo e todos,
avidamente buscam as palavras mais porcas
e, em chorrilho, as declamam,
em concurso para ver quem consegue mais
quem descobre mais
quem destila mais
ódios incontidos dentro de palavras toscas
de fazer corar um carroceiro.

Não importa pensar, que não faz falta.
O que interessa mesmo é destilar!

Assim são eles,
os fascistazinhos de meia tigela
do facebook!





Resultado de imagem para NOITE SOBRE O MAR
Arrastando-se, pesadamente
cobrindo de sombras o espaço
carregando tragédias que não se sabem
turvando os tempos de futuro
moldando de esquinas e ângulos o espaço
criando peso. Muito peso.

Ireversível.
Imparável.
Inelutável.
Avança com razões que são só suas
recusando-se a ouvir razões diferentes.

O chão estremece, o tempo arrefece
o sol deixa de ter côr.
O azul do mar enche-se de negro
e em vez de peixes e algas,  tem naufrágios,
navios sem destino,
marinheiros sem navios

e corpos apodrecidos 
a boiar em ondas repugnantes.

A música é agora apenas o som de carpideiras
que exultam o aproximar do fim de cada um
(essa é a alegria do momento!)

Fecham-se então os olhos.
Que abertos o que veem é o mesmo... 

Não vale, pois, a pena.

Não vale mais a pena!








segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Move it!

À volta, andando à roda, rondando
numa teimosia de barata
fazendo do lixo um luar de Agosto.
Que mau gosto...

Ou então, à espera à porta
numa esperança de condenado
fazendo da porta uma fronteira
Que toleira...

Ou então à espera do acaso
numa expectativa de aranha na teia
fazendo do acaso uma certeza
Que etreiteza...

Porém:
 os terremotos agitam  tranquilidades,
os vulcões acenam novidades
e os deuses prometem paraísos!

A hora é de movimento,
não é de permanência.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

O Manuel é "NOSSO". Recordações reflexivas...


As ideias cerejas...
O trio d'ataque,  isuportável e interminável conversa televisiva sobre futebol, que de volta e  meia tenho de suportar, levou-me aos meus tempos de militãncia política, fazendo-me recordar uma expressão muito corrente, ao tentar "caracterizar" alguém (nomeadamente alguém a exercer funções em alguma estrutura significativa, do ponto de vista da "condução" da luta organizada e organizativa). E a expressão usada era (creio que atualmente continurá a ser precisamente a mesma) : "é nosso". Exemplo: "o Manuel é nosso".
A expressão poderia ser "o Manuel é dos nossos", mas NÂO! A expressão usada era(é) sempre, "é nosso" e não, "dos nossos".
E essa nuance contém um significado profundo e fundamental, que passo a explicar: sendo nosso,ele faz precisamente aquilo que a nós nos convém que faça e que determinarmos que ele faça, porque , realmente ele "é nosso". Se fosse dos nossos, poderia fazer ou não...embora fosse razoável pensar que o fizesse. Mas sendo "nosso", a dúvida não se põe. Ele faz!
Importante notar que esta lógica não pressupõe a ausência de discussão com o Manuel, ou a impossibilidade do Manuel ter outra opinião e de no-la exprimir . Significa, isso sim, que independentemente da opinião do Manuel, ele agirá de acordo com aquilo que for superior e coletivamente determinado e não de acordo com o que ele próprio pensa.
E o Manuel  sabe perfeitamente que tem de ser assim e aceita que seja assim,
voluntariamente.
Este "modus vivendi" partidário faz todo o sentido e permite uma enorme eficácia de atuação. Torna, realmente um partido numa "espécie de força militar" para a conquista do poder, e não foi por acaso que Lenine assim a estabeleceu. E também não é por acaso que são os partidos comunistas que continuam a respeitar esta norma que subsistem, enquanto aqueles que a "deitaram para o caixote do lixo", rapidamente definharam e se diluiram nas torrentes dos movimentos de massas.
O que eu realmente não sabia era que este normativo(ou algo semelhante) também funcionava no mundo do futebol!!!
Absolutamente espantoso!






domingo, 30 de abril de 2017

Levitar

Descido pelo mar abaixo
no interior do silêncio do abismo
onde só habita, quem não pode ver.

Peso de toneladas de água
(dum azul já negro)
que não se sente

"Enmarado" aí,
como se dentro de um caixão transparente
feito de água e sal
e rodeado das profundezas da vida.

Desliza o tempo como se fosse mar,
em ondas de distância azul,
porque o verde da esperança, se perdeu.

Mas a alma e o corpo, parados:

numa estranha imobilidade bentónica.

Não há

No escuro, um rosto,
no silêncio, uma voz,
no desconhecido, um olá
na insensibilidade, um sentir junto.

A fazer de conta que o vazio é falso.

Depois, o tempo vem e lava,
detergente mágico
detergente trágico.

E já não há.




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Embrulhado num velho papel de música
sem notas e sem som
e sem voz.

Não há calor que entre
que o sol fica lá fora!

Lentamente os ratos,
os lepisma saccharina,
os fungos,
fazem o trabalho do tempo.

E o tempo da putrefação
chega também.

Chega

Vem!
Bebe comigo o café da insónia,
e esquece o sono e os sonhos.

Vem!
Vem cantar a glória do acordar eterno!
Caga na morte e no destino certo.

Vem!
Conta-me histórias inventadas do futuro
como se o futuro fosse amanhã.

Vem!
Tu que não sei quem és.
E diz "olá", que chega.

Em branco

Sei de palavras que não são minhas
num velho livro que não consigo ler
guardado num armário que não sei onde
no meio do pó e bichos de papel.


Folheio as páginas
e não está lá nada onde já esteve.
E abro outro igual e igual também
o que lá não está.
Branco, vazio, poeira.

Ao lado a Bíblia,
que de tão sagrada
já não tem lá nada
que se leia.

A minha história e a do Mundo
afinal, não deve ter sido mais
que uma invenção...
dum dia estúpido de bebedeira idiota.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Desprezo

Batem as contas errado
numa tabuada enganosa.
As contas saem furado
numa contagem penosa.

O colorido do mundo
diferente do que se espera.
As cores, eu as confundo
ou vejo, as que a alma gera.

Um pensar disfuncional
tocando a enfermidade.
Sem sentido, irracional

transforma cheiro em saudade.
Sentimento em exponencial
desprezo pela realidade.




domingo, 29 de janeiro de 2017

O Lulu, O deus e o Manipulas

Aqui te vou contar as importantes descobertas que um homem estúpido acaba, ao fim de um longuíssimo processo de reflexão, conseguir fazer. (Pensa ele que terá conseguido fazer, não sendo, porém, absolutamente certa tal realização, dado que o grau de estupidez do indivíduo em causa, pode fazer com que lhe pareça ter, neste caso, conseguido uma realização dedutiva, quando, afinal, apenas elaborou mais um dos seus disparates mentais). Porém, a sua verdade atual é de ter sido eficaz e perspicaz na sua produção reflexiva. Prossigamos, portanto, narrando o resultado de tão grande e longo esforço mental.
Dizia ele que:
 aos 6, 7 anos, se não lhe falha a contagem dos anos de memória, andava sempre consigo, para onde quer que fosse, fosse em casa, fosse fora, o Lulu. Era branco, felpudo, próximo, obediente, embora, para que não se distraísse com um cheiro bom, ou com uma cadela mais produzida, seguisse sempre preso por uma corda, tipo trela, que ele, o dono segurava com cuidado. Quer caminhasse  na rua acompanhado por um familiar, ou corresse num jardim, ou fosse para a escola, o Lulu ia sempre ao seu lado. Curioso e estranho era que nunca ninguém prestasse qualquer atenção ao cãozito! A não ser quando ele próprio falava dele ou conversava com ele. Aí sim, as pessoas mostravam interesse pelo Lulu e perguntavam-lhe as caracterísitca do animal, como se não o pudessem ver!
O tempo foi passando, o indivíduo foi crescendo e o Lulu foi-se...evaporando-se. Por certo terá sido evaporação, já que não tem ele qualquer registo mental ou escrito de que alguma vez se tenha efetuado o funeral do Lulu ou um simples enterramento. Evaporou, deve ter sido isso.
Logo a seguir, apareceu-lhe deus. Este trazia uma enorme vantagem: quase toda a gente o conheci e falava dele, sendo pois mais fácil até, conhecê-lo do que se consegue conhecer um cão. Porque de deus toda a gente sabia alguma coisa, embora nem sempre o que as diferentes pessoas sabiam, coincidisse. Pouco importa para a história... Deus aparecer foi bastante bom, até porque com deus é aceitável que se converse e deus não o precisava de levar por uma corda preso , porque deus, por definição, estava sempre em toda a parte, o que representava uma enorme vantagem prática!
E depois....deus tinha poderes! Coisa que jamais passaria por alguém esperar dum simples cão. A deus até se podia pedir "coisas". De deus até se podia esperar "coisas". Nessa altura, mesmo nos momentos mais tristes, o indivíduo contava com deus ao seu lado e isso fazia-o sentir-se muito bem.
Entretanto, o tempo foi passando... e não, deus nunca se evaporou como o Lulu. Nada disso. Foi antes um assassinato. Ele resolveu matar deus. Porque progressivamente foi descobrindo que deus era, na verdade,um embuste. deus era um ser absolutamente egocêntrico, ´só fazendo o que lhe apetecia, satisfazendo os pedidos de uns, ignorando os pedidos de outros, discricionariamente. Descobriu, também, deus só poderia considerar-se um ser muito malvado: com tantos poderes e permitindo tanta desgraça. Mas também onde a admiração, se ele até o próprio filho tinha deixado morrer numa cruz?
Decididamente o melhor lugar para deus é no cemitério, concluiu o indivíduo, e sem dó nem piedade, matou deus.
Anos foram, anos vieram e um belo dia descobre por acaso, numa das curvas da vida (se é que a vida tem realmente curvas, que uma curva ter curvas não deixa de ser matéria a exigir nova e profunda reflexão) o seu muito querido amigo Manipulas. Pessoa com qualidades excecionais. E estabelece com ele uma amizade  improvável, quiçá superior à que tinha com o Lulu e à que tinha com deus. Ou talvez de grau idêntico. (Temos de perceber que um homem estúpido tem destas coisas, enormes dificulades em medições). E durante alguns anos o Manipulas foi de facto, um elemento estruturante da sua vida. Tal como o tinham sido anteriormente o Lulu e o deus... Mas o Manipulas, embora tal como deus, pudesse ser visto pelas pessoas comuns, que tal como sobre deus, sobre ele tinham opiniões não coincidentes, noutros aspetos era muito mais semelhante ao Lulu, pois definitivamente nunca estava em todo o lado, aliás... quase nunca estava em lado nenhum. Passava por lá. Quando a vontade, o mais da vezes a necessidade, a isso o contsrangiam.
E...tal como o Lulu, o Manipulas apresentava caraterísticas que o indivíduo via, mas que os outros não viam! estranhamente. Curiosamente.
O Manipulas, ao contrário do Lulu, que evaporou e do deus, que foi assassinado, autodestruíu-se. 

E foi com base neste longos (assim contados nem se tem a noção do tempo que demoraram...) acontecimentos da estrada, curva, ou seja lá o que for que a vida é, que o indivíduo chegou a importantes descobertas.
Ou melhor...terá chegado, pois assim ele o disse.
No entanto, dessas importantes conclusões, apenas sabemos o registo que escreveu. Ainda por cima, nada original, mas aqui o transcrevo, tal como ele o escreveu, palavra por palavra.

"Mais vale só, do que mal acompanhado!"

Por certo uma paupérrima descoberta, se descoberta lhe podemos chamar...
Mas, também, dum homem estúpido, pouco mais seria de esperar!!!




quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Nada

Procuro furar,
mas o nevoeiro não deixa espaços.
Uma cortina compacta, espessa, como se fosse cimento.
E a memória do sentir arrasta-se no tempo.
Presa.

Apetece mergulhar,
furar as ondas do invisível para chegar a algum lado.
 Se por acaso lado houver,
que não se vê...

Os ossos, que revestem a alma, estalam
a humidade penetra até lugares impensáveis.
Não há lá fora, que o cá dentro invadiu tudo.

Este é um dia que não há.
O sol não nasce, as flores não abrem,os pássaros não voam.
A morte penetrou no âmago da vida.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O nada

Fumo.
Sem cor,
com peso, com dor.
Fumo que desce, e fica.
E faz fechar os olhos
numa escuridão de pálbebras pesadas
cansadas
desajustadas.

Música que se faz de notas
envergonhadas,
sem som.
Apenas pontos negros
espalhados num espaço absurdo de 5 linhas...
E 4 espaços, enormes.

A vida. O nada,






quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Naquela noite

Deitou-se. Adormeceu. Mas, passado pouco tempo, acordou. E levantou-se. Sentiu que trazia algo de novo dentro de si. Uma sensação de peso, de espaço ocupado, como se fosse um copo que tivesse sido enchido e tivessse ficado cheio.

Percebeu rapidamente que esse novo conteúdo que o preenchia era exigente, reclamava de si ação. Impelira-o a levantar-se e  obrigava-o, agora, a vestir-se e a saír de casa, para fazer o que tinha de ser feito, fosse o que quer que fosse, que ele mesmo desconhecia.
 Sentiu a absoluta impossibilidade de resistir. 

O que seria que tinha dentro de si?

Importa pouco. O que importa é a missão. A missão exigida por aquela essência que lhe preenchera todo o espaço livre e que lhe pesava, agora. De que queria ver-se livre. 

Chegado à rua, começou a caminhada. Mas não procurava nada, (sabia lá ele o que procurar...) caminhava à espera dum encontro, sem que pudesse sequer imaginar de que encontro estava à espera. Havia que caminhar para encontrar, algo ou alguém.

Apesar da iluminação pública, a noite não lhe mostrava nada que pudesse constituir encontro. Muito tarde. O mundo dormindo. Mas a exigência, teimosa, vinda do seu interior,  obrigava-o a caminhar, a caminhar mais, sempre mais, até à consumação do ato.

Entrou no parque. Àquela hora escuro e vazio. Seguiu por entre árvores, bancos de madeira, coretos, lagos de patos. Até que lá bem ao fundo, junto ao gradeamento, pareceu-lhe... Apressou o passo. 

Era o encontro!

Aproximou-se muito devagar e sem ruído, enquanto do bolso retirou a faca. A seus pés, o homem deitado no chão, continuava a dormir, sem que se tivesse apercebido de nada.

Levantou, então, bem alto  a faca por 7 vezes e por 7 vezes  a enterrou bem fundo no toráx do adormecido. Uma fonte, a jorrar de sangue,  deu cor ao negro daquela noite ansiosa e coloriu o chão e pintalgou as plantas já tão cansadas de serem sempre verdes.

Sentiu-se de novo leve. Despejado.

Regressou a casa e então, tranquilamente, adormeceu.
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