Andava triste, o leão velho. O seu rugido já não impunha a ordem, a sua presença já não metia respeito e os seus súbditos pareciam viver numa irreverente autonomia, do tipo "cada um faz o que quer e como quer".
Depois de muito pensar, muito se aconselhar com o travesseiro, historicamente considerado desde que há memória, como um óptimo conselheiro,o leão velho decidiu-se.
Logo pela manhã, foi falar com um leão mais novo, seu súbdito, e propôs-lhe grandes privilégios se, nomeando-o seu assessor directo, em troca, este o ajudasse a "meter na ordem" a restante comunidade, de forma a que ele, leão velho, pudesse, em fim, governar com tranquilidade.
E foi assim que se estabeleceu o acordo entre os dois.
Na verdade, tudo funcionou na melhor das harmonias durante os primeiros tempos do acordo. Porém, com o passar dos meses, e como no reino dos leões "ruge melhor quem ruge mais alto", o rugido do leão assessor claramente se mostrava cada vez mais forte, quando comparado com o rugido do leão velho.
E rugir mais alto, significa, poder, controlo sobre os outros animais do grupo.
Entristecido de novo, o leão velho era agora já não o chefe da comunidade, mas uma peça ainda útil aos desígnios do seu recém-nomeado, garantindo-lhe a legitimidade de acção.
Até que um dia, fruto dum tempo mais agreste, o leão velho, enrouquecido de vez, foi encaminhado de urgência, pelo seu assessor, para o hospital do reino dos leões.
Estará, talvez, ainda por lá, mas o certo é que nunca mais ninguém ouviu falar dele.
O rugido, agora, é outro.
Forte, audível, sonoro. O rugido da autoridade conquistada mas não escolhida.
Claro está tratar-se isto duma história animalesca.
Totalmente descabida, em contexto humano.
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