Biologicamente, a idade traduz-se (em traços muito sumários), no progressivo acumular de oxidantes, de toxinas que actuando sobre os tecidos celulares levam à desactivação da telomerase e à senescência tissular, pela incapacidade das céluas se continuarem a reproduzir a ritmo adequado e portanto os tecidos a serem incapazes de se renovarem.
Mas.... e psicologicamente o que acontece???
Não esquecendo que o funcionamento cerebral depende na base, do funcionamento biológico, em que as células nervosas sofrem processos degenerativos de índole semelhante às das restantes células somáticas, a verdade é que a componente mais "psicológica" do sistema, acumula também, ao longo dos anos, "os oxidantes e as toxinas" das vivências. Estes alteram a personalidade base, e vêm progressivamente a impôr, tanto ao nível do consciente como do inconsciente, um conjunto de "regras", "de concepções do Mundo", que, pensndo bem, são em grande medida as resultantes do processor oxido-degenerativo do sistema nervoso que produz as racionalizações.
Talvez por isso, ao contrário do que habitualmente se ouve dizer, encontram-se com a maior frequência nas pessoas de idades superiores aos 40 anos (embora este limite seja ilustrativo e não referencial) um crescendo de contradições de pensamento, em que a prática desmente a teoria, porque, enquanto a teoria anteriormente racionalizada, passou de processo reflexivo a memória deste, inscrita indelevelmente ao nível das proteinas, já as práticas concretas de interacção estão essencialmente dependentes do momento actual do processo evolutivo do cérebro, carregado agora das toxinas vivenciais, que já não lhe permitam um deenvolvimento racional "limpo".
É extraordinariamente interessante e delicioso a formulação, por exemplo, de teses de racionalização antiga, que se confrontam com formulações contraditórias da realidade que se observa, essa agora ja racionalizada e observada por um cérebro em senescência: demos alguns exemplos de forma a perceber melhor a situação:
exemplo 1 - o sujeito A reclama-se da geração que sofreu e depois lutou contra as imposições restritivas ao uso da moda - mini-saia, "tivemos de travar uma luta para que fosse aceite, ao princípio éramos ostracizados ou mesmo proibidos de as usar (racionalização antiga e já gravada na memória) Mas, o mesmo sujeito A, ao tentar agora racionalizar sobre uma situação actual, diz: "que vergonha, esta geração andar a mostrar os boxers, devia mesmo ser proibido por lei". -racionalização contraditória em absoluto com a racionalização anterior do mesmo sujeito, só que esta segunda racionalização é uma racionalização nova, e está portanto a ser feita por um cérebro senescente!
exemplo 2 - do sujeito B - naquela altura, para conseguirmos alguma coisa, tínhamos de sair à rua, e quantas vezes sujeitos a carga policial (racionalização já inscrita na memória e feita quando o indivíduo ainda era novo) mas, ao reflectir sobre a manifestação da geração à rasca, refere o mesmo sujeito B - "é uma geração que não tem hábitos de trabalho, vem para a rua gritar mas não sabem seuquer porquê, vão uns porque vêm ir os outros" e esta é uma racionalização actual, produzida por um cérebro repleto de "oxidantes psicológicos", que já não consegue ser concordante com as anteriores concepções do Mundo que o próprio sujeito havia construido e que, curiosamente, se mantêm registadas na sua memória.
exemplo 3 - O sujeito C recorda com ironia e desagrado, as pressões a que a sua sexualida em jovem esteve sujeita e recorda em pormenor a famosa postura da Câmara Municipal de Lisboa, em vigor em 1953 e anos seguintes:
os actos e respectivas multas a aplicar pelos polícias e guardas-florestais: 1º - Mão na mão (2$50);
2º - Mão naquilo (15$00);
3º - Aquilo na mão (30$00);
4º - Aquilo naquilo (50$00);
5º - Aquilo atrás daquilo (100$00);
§ único - Com a língua naquilo (150$00 de multa, preso e fotografado).
O mesmo sujeito C, passa a seguir por um jardim público, onde jovens deitados na relva, se abraçam, beijam, enfim, "numa marmelada" bem gostosa e diz para o amigo que vai com ele: "Isto agora nem é preciso ir ao cinema! Parecem uns cães na altura do cio. É uma vergonha!" Mais uma vez, afirmação produzida a partir duma racionalização actual dum cérebro minado pelo processo senescente em curso.
Mas para isto, infelizmente, a depuralina não resulta....
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