"Por isso é que eu lhes falo em parábolas; porque eles vendo, não vêem, e ouvindo não ouvem, nem entendem." -(Mateus, XIII: 10-15)
sábado, 9 de julho de 2011
O jardineiro arguto
Fazia os encantos de quem por ela passava, na sua imponência e beleza, dádiva de sombra, e de cor.
O tempo foi passando e o velho jardineiro, que a tratava como à menina dos seus olhos, envelheceu tanto, tanto, que teve de ser substituido, por outro, também já avançado na idade mas cheio de energias e vontades e por todos considerado com um dos melhores jardineiros da aldeia, senão do país quiçá do mundo.
Pôs-se a observá-la de longe. Alguma coisa "lhe cheirava a esturro". Aproximou-se e observou em pormenor: cada palmo do tronco, cada folha, cada ramo... E eis que descobriu: era aquele ramo - SECO!
Como se permitia uma árvore no jardim que agora era seu, oferecer à vista de quem passasse, um ramo seco?
Era certo que as pessoas, toldadas por tanta flor, tanta cor, tanta harmonia, nem davam por isso, mas não podia ser, porque o gosto também se ensina.
No dia seguinte, resolveu levar consigo uma cadeira que colocou ao lado da árvore e onde se sentou.
Agora sim, iria cumprir a missão que a si mesmo tinha destinado - quando alguém passava e olhava deslumbrado para a árvore, então ele intervinha dizendo:
_ pois é, aparentemente é bela....mas olhem ali aquele ramo seco! Que coisa feia! É horrível uma coisa assim no meu jardim.
A verdade é que, após dias e dias de insistência e persistência do nosso jardineiro, os "habitués" do jardim, ao passarem pela bela e frondosa árvore, fixavam-se-lhes agora os olhos de forma automatizada, no maldito ramo seco. Agora, ao passarem, já a árvore não viam, mas apenas o dito ramo, pelo que os comentários eram já de tom diferente: " Que coisa, que desagradável, um jardim tão bonito como este, não merece uma coisa destas. Um ramo velho, sem folhas ali, a destoar de tudo."
Dia após dia, hora após hora, não obstante a fragosidade da sombra e a maravilha da cor, o que viam tinha passado a ser sempre e só o desagradável ramo seco, e o jardineiro sempre concordando com os transeuntes cujo espírito, de aguda observação, tinha moldado.
Claro está que para um problema há sempre uma solução e quando solução não há é porque solução já houve, não neste caso, que solução ainda estará para haver, como a seguir se relata: no dia de maior presença de pessoas no jardim (pois claro, naquele Domingo soalheiro, logo a seguir à missa das 11h), lá estava ele a postos, com uma serra eléctrica.
Aquilo tinha de acabar de vez.
Rodeado por dezenas dos habituais frequentadores do jardim que o incitavam ao trabalho, o nosso bom jardineiro deu início à tarefa e, em menos de um fósforo ( e quem sabe, talvez para a produção de milhões deles....) o ramo tinha desaparecido e com ele toda a árvore que o originara.
Ouviram-se palmas a bater, no exacto momento em que se ouviu, também, o estrondo da imponente Tília, a tombar na terra, sem conseguir a virtude de morrer de pé, (porque ao contrário do que por aí, sem razão, se generaliza relativamente ao fim da vegetal existência, essa dignidade não lhe foi dada a ela....E nem a mereceria, com aquele ramo seco tão feio, lá no alto.).
Resolvido, pois, este problema, com os seus olhos atentos de argúcia e crítica, percorre o jardineiro o seu jardim, milimetricamente observando as árvores... Outras se seguirão, até que o eugénico jardim seja uma irreversível realidade.
Bendito jardineiro. Benditos olhos críticos! Maravilhosa capacidade de julgar e decidir da vida!
Houvesse outros assim!
Que encanto de Existência, então seria a nossa!
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