Quantas vezes olhei para o céu na esperança de o reconhecer. Na esperança que me enviasse pelo menos um sinal de que estava ali e que me estava a ver e a acompanhar. Em especial no final dos dias, quando a escuridão pemite às estrelas acordarem, lembro-me bem de vir a descer do monte, com o rebanho à minha volta e olhar para cima, pensando que poderia ser esse o momento esolhido para descer até cá abaixo e vir falar comigo, dar-me um beijo ou, simplesmente, mostrar-me o seu sorriso.
Nessa altura não percebia bem se seria um anjo ou um ser diferente de um mundo superior, mas acreditava firmemente que estava lá no alto a olhar por mim.
Levei muito tempo até perceber que aquela história estava mal contada...
E nunca sequer, mesmo quando me dei conta do embuste, tive coragem de confrontar a minha mãe com a realidade. O que ela deve ter passado, para precisar de inventar toda aquela história!
Imagino-a, agora, nesses anos, com o medo da culpa refletido na emoção, ao simplesmente imaginar apresentar-se naquele estado, aos olhos de todos. O que não diriam...
Ao mesmo tempo, a sua sensibilidade de mãe, não lhe permitia sequer pensar em levar a cabo a "solução radical", aquela que....não permitiria que eu hoje vos estivesse aqui a contar a minha história.
Compreendo, agora que os anos já me deram o dom da sabedoria, a enorme coragem que ela precisou para me apresentar aos olhos do mundo e para se apresentar a si, comigo ao colo e o José ao lado, mantendo sempre a cabeça erguida!
Por isso lhe desculpo a história do tal anjo, do tal espírito santo e lhe desculpo os anos que passei à procura, lá no céu, de quem lá não estava...
Ao José, só tenho a agradecer todo o amor que foi capaz de me dar, sabendo bem o que sabia, e esperando que me desculpe de, quando criança, procurar na distância, o que tinha, afinal ali bem perto. Pois não é o sangue que constrói o laço, que se ata sim, mas de sentimento!
Obrigado mãe, por me teres querido manter vivo, e também pela capacidade que tiveste em convencer o mundo dessa fantástica historia que inventaste e que resultou.
O teu filho, J.C.
"Por isso é que eu lhes falo em parábolas; porque eles vendo, não vêem, e ouvindo não ouvem, nem entendem." -(Mateus, XIII: 10-15)
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
sábado, 15 de dezembro de 2012
Convicções
Eras a convicção do tipo sol.
Eu explico: não precisamos confirmar, porque sabemos de saber certo, que todas as manhãs ele lá está, mais à vista ou mais escondido, mas está. Lá em cima. Contamos pois com ele e com a sua luz.
No entanto, criamos convicções do tipo sol, relativamente a situações, coisas , pessoas, também.
Convicções que nascem de sentimentos. Mas sem real razão.
Sentimentos não são mais que marcas cerebrais, registos estranhamente gravados no pensar, sem nascimento certo, sem vida independente, sem existência material concreta.
Sendo pois assim as convicções geradas do sentimento e tendo este as caraterísticas anteriormente referidas, são elas portanto de natureza semelhante, sem substância real que lhes dê corpo.
Um longo tempo decorreu. Em espera.
Um longo tempo em que convictamente o ranger da porta, o tocar do telefone, a escuta da palavra rompendo o negro do silêncio, se adivinhava e se acreditava certa.
Mas nem ranger de porta, nem toque de telefone, nem palavra audível se materializaram.
Como se subitamente e com a mesma força de decepção e espanto, naquele dia o sol tivesse desistido de nascer.
Aprende-se.
Aprende-se sempre que se vive.
Mesmo quando o aprender é guardar como conhecimento a destruição do próprio conhecimento que se julgava ter.
E o pensamento fica então mais estéril, incapaz agora de parir novas convicções.
Pelo menos... convicções do tipo sol.
Sente-se a violência nas palavras. O desânimo nos dedos que teclam sem brio e sem fervor.
E fecha-se uma porta, mais uma, mais uma vez.
Talvez pela última vez.
Encerramos, amargamente, dolorosamente e para sempre, o capítulo perfeitamente idiota das convicções do tipo sol.
Eu explico: não precisamos confirmar, porque sabemos de saber certo, que todas as manhãs ele lá está, mais à vista ou mais escondido, mas está. Lá em cima. Contamos pois com ele e com a sua luz.
No entanto, criamos convicções do tipo sol, relativamente a situações, coisas , pessoas, também.
Convicções que nascem de sentimentos. Mas sem real razão.
Sentimentos não são mais que marcas cerebrais, registos estranhamente gravados no pensar, sem nascimento certo, sem vida independente, sem existência material concreta.
Sendo pois assim as convicções geradas do sentimento e tendo este as caraterísticas anteriormente referidas, são elas portanto de natureza semelhante, sem substância real que lhes dê corpo.
Um longo tempo decorreu. Em espera.
Um longo tempo em que convictamente o ranger da porta, o tocar do telefone, a escuta da palavra rompendo o negro do silêncio, se adivinhava e se acreditava certa.
Mas nem ranger de porta, nem toque de telefone, nem palavra audível se materializaram.
Como se subitamente e com a mesma força de decepção e espanto, naquele dia o sol tivesse desistido de nascer.
Aprende-se.
Aprende-se sempre que se vive.
Mesmo quando o aprender é guardar como conhecimento a destruição do próprio conhecimento que se julgava ter.
E o pensamento fica então mais estéril, incapaz agora de parir novas convicções.
Pelo menos... convicções do tipo sol.
Sente-se a violência nas palavras. O desânimo nos dedos que teclam sem brio e sem fervor.
E fecha-se uma porta, mais uma, mais uma vez.
Talvez pela última vez.
Encerramos, amargamente, dolorosamente e para sempre, o capítulo perfeitamente idiota das convicções do tipo sol.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Cavalo
Era uma vez um cavalo. Vinha de longe, do lado de lá das estrelas, e vinha a trote, seguindo a estrada escura, apenas escassamente iluminada, por castiçais dispersos, ao longo da berma. Porque era escuro, aquele caminho, envolto em nevoeiro de tempos! Vinha só, sem ruído, com destino traçado - o planeta Terra. Isso é certo, porque é aqui que termina a estrada que não tem nem cruzamentos nem bifurcações.
Vinha para trazer uma mensagem? Vinha avisar alguém de alguma coisa?
Só sabemos que vinha por o termos visto a vir, mas não sabemos nós, nem ninguém mais sabe, ao que vinha.
Olhando agora para o longe, lá continua a estrada no meio da escuridão do nada, e as velas, dispersas junto às bermas. O cavalo, já não o vemos mais. Terá chegado ao seu destino? Para trás, ninguém o viu voltar, Terá chegado,pois, ou então terá sido engolido pelo nevoeiro do tempo ou pela escuridão da noite eterna, porque lá, onde passa aquela estrada, nunca ninguém alguma vez viu a luz do dia.
Esta Terra em que vivemos e que parece aberta ao universo inteiro, mergulha sim numa fantasia coletiva que faz a todos ver o que não há. Para lá desta Terra, só há aquela estrada, escura, enevoada, por onde vinha o cavalo, que de longe vinha, (tendo em conta o tempo que demorou sempre a caminhar na estrada), mas onde esse longe fica, não sabemos. Nunca sequer encontrámos o cavalo, não sabemos se chegou e mesmo que o tivéssemos encontrado ou o viermos a encontrar ainda, improvável será que nos diga alguma coisa, pois os cavalos não têm por hábito falar. Só pensam.
Mas se não falam, como poderia aquele cavalo trazer então uma mensagem? Não trazia nenhuma carta presa ao corpo, nenhum dispositivo armazenador de som ou de imagem. Ao que vinha, (ou veio) então?
Sem respostas, olhamos de novo a estrada negra que conduz a este planeta de ilusões. Virá de lá dos longes que não sabemos onde, mais alguém, mais alguma coisa?
Ou aquela estrada com castiçais dispersos que espalham uma luminosidade breve que não chega a ser luz, não servirá, afinal, para nada?
E aquelas velas acesa estarão lá porquê? E porque não se apagam? E quem as acendeu?
Abro o jornal - notícia de primeira página: "25 mortos em acidente na A1, na sequência de colisão de um autocarro de passageiros, com um cavalo. Testemunhas do acidente referem que o cavalo não sofreu danos, e prosseguiu o seu caminho, subindo em direção ao vento, tendo desaparecido misteriosamente passados breves minutos após o início da sua ascenção."
Vinha para trazer uma mensagem? Vinha avisar alguém de alguma coisa?
Só sabemos que vinha por o termos visto a vir, mas não sabemos nós, nem ninguém mais sabe, ao que vinha.
Olhando agora para o longe, lá continua a estrada no meio da escuridão do nada, e as velas, dispersas junto às bermas. O cavalo, já não o vemos mais. Terá chegado ao seu destino? Para trás, ninguém o viu voltar, Terá chegado,pois, ou então terá sido engolido pelo nevoeiro do tempo ou pela escuridão da noite eterna, porque lá, onde passa aquela estrada, nunca ninguém alguma vez viu a luz do dia.
Esta Terra em que vivemos e que parece aberta ao universo inteiro, mergulha sim numa fantasia coletiva que faz a todos ver o que não há. Para lá desta Terra, só há aquela estrada, escura, enevoada, por onde vinha o cavalo, que de longe vinha, (tendo em conta o tempo que demorou sempre a caminhar na estrada), mas onde esse longe fica, não sabemos. Nunca sequer encontrámos o cavalo, não sabemos se chegou e mesmo que o tivéssemos encontrado ou o viermos a encontrar ainda, improvável será que nos diga alguma coisa, pois os cavalos não têm por hábito falar. Só pensam.
Mas se não falam, como poderia aquele cavalo trazer então uma mensagem? Não trazia nenhuma carta presa ao corpo, nenhum dispositivo armazenador de som ou de imagem. Ao que vinha, (ou veio) então?
Sem respostas, olhamos de novo a estrada negra que conduz a este planeta de ilusões. Virá de lá dos longes que não sabemos onde, mais alguém, mais alguma coisa?
Ou aquela estrada com castiçais dispersos que espalham uma luminosidade breve que não chega a ser luz, não servirá, afinal, para nada?
E aquelas velas acesa estarão lá porquê? E porque não se apagam? E quem as acendeu?
Abro o jornal - notícia de primeira página: "25 mortos em acidente na A1, na sequência de colisão de um autocarro de passageiros, com um cavalo. Testemunhas do acidente referem que o cavalo não sofreu danos, e prosseguiu o seu caminho, subindo em direção ao vento, tendo desaparecido misteriosamente passados breves minutos após o início da sua ascenção."
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Taras e manias
Chegou. Sentou-se. E queria cantar. Gravar a sua voz e filmar a sua cara, a cantar.
Porque ficava feliz, ao ver-se a si própria como se estivesse em palco.
E ao mesmo tempo a sonhar.
Então,. ligou o computador. E eu procurei o instrumental
E transfigurou-se.
Cantou. Como se fosse artista, gesticulou, dramatizou.
E fez-se um vídeo da sua atuação.
Tocou a campainha, acabou a sessão.
Fui com ela e amparei-a a descer as escadas.
Foi. à "vida dela". À sua rotina.
Foi este um dos poucos trabalhos daquele ano, que não foi publicado.
Uma cara deformada. Gestos teatrais desajeitados. Voz desafinada.
Ficou só para ela. E também ficou comigo.
Em casa, devo tê-lo visto umas 50 vezes de seguida, sem exagero.
Guardei-o.
"Taras e Manias" de Marco Paulo- com voz desafinada e em cara deformada, mas num coração cheio de amor para dar e receber.
Mas sem permissão.
Porque ficava feliz, ao ver-se a si própria como se estivesse em palco.
E ao mesmo tempo a sonhar.
Então,. ligou o computador. E eu procurei o instrumental
E transfigurou-se.
Cantou. Como se fosse artista, gesticulou, dramatizou.
E fez-se um vídeo da sua atuação.
Tocou a campainha, acabou a sessão.
Fui com ela e amparei-a a descer as escadas.
Foi. à "vida dela". À sua rotina.
Foi este um dos poucos trabalhos daquele ano, que não foi publicado.
Uma cara deformada. Gestos teatrais desajeitados. Voz desafinada.
Ficou só para ela. E também ficou comigo.
Em casa, devo tê-lo visto umas 50 vezes de seguida, sem exagero.
Guardei-o.
"Taras e Manias" de Marco Paulo- com voz desafinada e em cara deformada, mas num coração cheio de amor para dar e receber.
Mas sem permissão.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Faz de conta
É este o inenarrável processo do sentir,
que não se sente,
de tão ausente.
O estranho caso do falar,
que não se ouve
porque não houve.
E fica o imaginar que sim,
num faz de conta
vezes sem fim.
que não se sente,
de tão ausente.
O estranho caso do falar,
que não se ouve
porque não houve.
E fica o imaginar que sim,
num faz de conta
vezes sem fim.
Passos
São passos, que vão, areia fora,
pelo tmpo dentro, sozinhos, marcados.
Esperando encontros.
Mas não.
O caminho é longo,
sem horizonte que se veja,
sem ninguém ao pé
sem ninguém ao longe.
Não há sequer o som.
Só nevoeiro e marcas de pés que vão ficando
enquanto se caminha.
Nãp chega ninguém, neste deserto.
ninguém ao longe
ninguém ao perto.
pelo tmpo dentro, sozinhos, marcados.
Esperando encontros.
Mas não.
O caminho é longo,
sem horizonte que se veja,
sem ninguém ao pé
sem ninguém ao longe.
Não há sequer o som.
Só nevoeiro e marcas de pés que vão ficando
enquanto se caminha.
Nãp chega ninguém, neste deserto.
ninguém ao longe
ninguém ao perto.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Olhares
Esbarrou na esperança não realizada. Então, recorreu ao protesto, e iniciou um processo de reclamação.
E questionou, abruptamente, indelicadamente, exigindo aquilo a que não tinha direito. Fez-se de voz grossa e imposição. E exigiu resposta.
E recebeu.
Tudo por escrito.
Mas a resposta exigiu presença, que olhos nos olhos, o que se diz fica feito o que se pensa.
E, olhos nos olhos, transpereceu o sofrimento, a angústia do não se ser capaz.
A tristeza do não se saber como , nem o porquê, nem, o caminho.
É bem mais fácil quando se olha de fora.
Quando se olha com olhos de papéis.
Mas...olhos nos olhos olha-se diferente.
E questionou, abruptamente, indelicadamente, exigindo aquilo a que não tinha direito. Fez-se de voz grossa e imposição. E exigiu resposta.
E recebeu.
Tudo por escrito.
Mas a resposta exigiu presença, que olhos nos olhos, o que se diz fica feito o que se pensa.
E, olhos nos olhos, transpereceu o sofrimento, a angústia do não se ser capaz.
A tristeza do não se saber como , nem o porquê, nem, o caminho.
É bem mais fácil quando se olha de fora.
Quando se olha com olhos de papéis.
Mas...olhos nos olhos olha-se diferente.
Presença
Sem vento, sem chuva.
Tranquilamente.
Sem esforço, sem cansaço, sem pena.
Deslizando vou.
Mas de repente,
com todo o peso do mundo,
todo o ruido dum estrondo,
toda a força do mar,
desaba sobre mim:
o sentir duma presença
que não está.
Tranquilamente.
Sem esforço, sem cansaço, sem pena.
Deslizando vou.
Mas de repente,
com todo o peso do mundo,
todo o ruido dum estrondo,
toda a força do mar,
desaba sobre mim:
o sentir duma presença
que não está.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Inconsistente
Tipo relâmpago.
Nem o vês, de tanta rapidez!
Surge. Desaparece. Como se nunca estivesse.
E o meu tempo?
Injectado de marcas de outros espaços,
marcas dum momento
e dum momento mais!
Passatempo....
Marcas irreais.
Nem o fumo se afasta tão depressa!
Nem o sol se esconde de repente!
Nem o sonho foge, logo ao acordar:
desliza no amanhecer que ocorre lentamente,
e permanece feito núvem, lá no ar.
Tempos desconexos.
Sentires incongruentes.
Olhares perplexos.
Pensares inconsistentes!
Nem o vês, de tanta rapidez!
Surge. Desaparece. Como se nunca estivesse.
E o meu tempo?
Injectado de marcas de outros espaços,
marcas dum momento
e dum momento mais!
Passatempo....
Marcas irreais.
Nem o fumo se afasta tão depressa!
Nem o sol se esconde de repente!
Nem o sonho foge, logo ao acordar:
desliza no amanhecer que ocorre lentamente,
e permanece feito núvem, lá no ar.
Tempos desconexos.
Sentires incongruentes.
Olhares perplexos.
Pensares inconsistentes!
sábado, 6 de outubro de 2012
Falas
Foi talvez, naquele dia, talvez porque houvesse um tempo maior, talvez porque houvesse um afazer menor, talvez porque houvesse uma vontade maior, talvez, apenas, porque assim tivesse calhado.
Foi talvez naquele dia, portanto, sem causa determinada e sem razão explicitada, que as palavras jorraram em forma de torente de rio selvagem, quase se atropelando umas às outras, sem respeito por sinais de trânsito ou limites de vvelocidade,
A um ritmo de vertigem e quase sem tempos de espera, falaram e falaram, como se as palavras tivessem estado presas anos e lhes tivessem aberto, subitamente, as portas da prisão.
Despediram-se então.
Repararam então:
-quanto é fácil falar e quanto é difícil dizer.
Foi talvez naquele dia, portanto, sem causa determinada e sem razão explicitada, que as palavras jorraram em forma de torente de rio selvagem, quase se atropelando umas às outras, sem respeito por sinais de trânsito ou limites de vvelocidade,
A um ritmo de vertigem e quase sem tempos de espera, falaram e falaram, como se as palavras tivessem estado presas anos e lhes tivessem aberto, subitamente, as portas da prisão.
Despediram-se então.
Repararam então:
-quanto é fácil falar e quanto é difícil dizer.
sábado, 22 de setembro de 2012
Já não há
Que se agitem as folhas, que a poeira suba no ar,
mas já não há vento!
Que a terra empape de água onde os pés se afundam,
mas já não há chuva!
Que a pele se escalde, avermelhe, arda, de tanta exposição,
mas já não há sol!
Que a noite tenha brilho, e contilem as folhas cobertas do orvalho,
mas não há mais luar!
Que cresçam os dias e as plantas e nós,
mas já não há vida!
mas já não há vento!
Que a terra empape de água onde os pés se afundam,
mas já não há chuva!
Que a pele se escalde, avermelhe, arda, de tanta exposição,
mas já não há sol!
Que a noite tenha brilho, e contilem as folhas cobertas do orvalho,
mas não há mais luar!
Que cresçam os dias e as plantas e nós,
mas já não há vida!
Incertezas
Feitos de identidades,
somos desconhecidas entidades.
A cortiça protege e esconde.
O que vemos, é só o que mostramos.
o "eu" de cada um,
está, não sabemos onde.
Por isso, mesmo quando penso que te sei,
quando acho saber ler até nas entrelinhas,
há sempre lugar à incerteza.
Tenho só a certeza do que dei,
O que recebi , não sei se tinhas,
ou se imaginei.
somos desconhecidas entidades.
A cortiça protege e esconde.
O que vemos, é só o que mostramos.
o "eu" de cada um,
está, não sabemos onde.
Por isso, mesmo quando penso que te sei,
quando acho saber ler até nas entrelinhas,
há sempre lugar à incerteza.
Tenho só a certeza do que dei,
O que recebi , não sei se tinhas,
ou se imaginei.
Tempo
Neste tempo, noutro tempo, sem tempo,
percorro o tempo estilo passatempo.
Nem vejo o tempo a passar.
E de repente um relógio estúpido mostra as horas.
Vejo que ando a desoras.
Neste tempo, passatempo.
Então desaba sobre mim, como trovoada.
Atinge-me, dói-me, magoa.
É a dor do tempo já ter sido.
Do tempo que eu quero de volta,
mas que não volta.
E volto ao passatempo
de deixar passar o tempo
sem tempo de sentir.
percorro o tempo estilo passatempo.
Nem vejo o tempo a passar.
E de repente um relógio estúpido mostra as horas.
Vejo que ando a desoras.
Neste tempo, passatempo.
Então desaba sobre mim, como trovoada.
Atinge-me, dói-me, magoa.
É a dor do tempo já ter sido.
Do tempo que eu quero de volta,
mas que não volta.
E volto ao passatempo
de deixar passar o tempo
sem tempo de sentir.
domingo, 9 de setembro de 2012
Imprescidível
Das estrelas, todas elas, és diferente,
Uma luz que aquece sem queimar,
uma chama que brilha, irreverente,
como se a Vida fosse de brincar.
Das vozes, todas elas, se distingue a tua,
Suave, firme, doce, quase irreal
Onde quer que se oiça, em casa ou na rua
Não se confunde, não há outra igual.
No Universo inteiro és irrepetível,
Não existe espelho que dê a tua imagem
Sem que a diferença não seja percetível.
Tens, pois, de fazer parte da viagem
que faço dia a dia. Imprescindível,
transporto-te sempre, comigo, na bagagem.
Uma luz que aquece sem queimar,
uma chama que brilha, irreverente,
como se a Vida fosse de brincar.
Das vozes, todas elas, se distingue a tua,
Suave, firme, doce, quase irreal
Onde quer que se oiça, em casa ou na rua
Não se confunde, não há outra igual.
No Universo inteiro és irrepetível,
Não existe espelho que dê a tua imagem
Sem que a diferença não seja percetível.
Tens, pois, de fazer parte da viagem
que faço dia a dia. Imprescindível,
transporto-te sempre, comigo, na bagagem.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Sem valor
Era uma noite escura, uma daquelas em as pedras vindas do céu, batem nos vidros que gritam lágrimas que escorrem paredes abaixo até chegar aos rios que se vão formando ao longo da terra sedenta. Uma daquelas noites em que as estrelas se escondem por detrás das núvens, para deixarem ver melhor os desenhos que a trovoada faz no alto, por cima de milhares de cabeças, desconfiadas, que, ou se escondem ou fazem de conta que estão a ver um fantástico filme projetado no firmamento, escondendo, deste modo, o pavor que se lhes infiltrou desde a pele até aos ossos.
Foi nessa concreta noite, que por entre o som das vozes dos trovões e do vento, se fez ouvir o que parecia o chorar duma criança.
Mas um choro tamanho, de intensidade tanta, que nem sino de igreja com ele conseguiria competir no alcance e na intensidade.
Claro que, dadas as condições meteorológicas descritas, a nenhum mortal passaria pela cabeça, sair do seu conforto de casa, para ir ver o que seria. Por mais arrepios, estranheza, temor que tal choro tivesse produzido, a inércia sobrepunha-se à vontade de saber a razão do choro e a sua peoveniência.
Mas não há noite que sempre dure, nem dia que nuca se acabe! (Isto não é Ciência, porque não conhecendo nós o futuro, não podemos afirmar taxativamente que é assim. Poderá vir a haver a noite eterna ou o dia eterno e então o que foi dito transformar-seá em mentira, pura e simples) Precisemos que até aos dias de hoje nunca houve noite que sempre durasse ou dia que nunca se acabasse, e, agora sim, isto é Ciência,)
Portanto, esta noite de meter arrepios às pedras, acabou por se tornar num amanhecer tranquilo, sem vozes de trovoada, sem chuva de construir poças, mas apenas uma manhã tranquila, sem Sol a brilhar, é certo, mas resplandecente de serenidade. Depois da tempestade, até hoje sempre veio a bonança.(Assim escrevemos agora como deve ser escrito, no rigor da Ciência.
Claro que está que a conversa nos cafés, mercados, praças, enfim em todos os lugares que as pessoas definiram, sem necessidade de construçao de plano de evacuação) como seus lugares de encontro, o tema da conversa era sempre o mesmo: o grito de fazer arrepiar até as unhas dos pés (o que é muito extraordinário por não constar que possuam enervação.)
Mas foi o Padre, que lá na praça de Santo Egídio, foi apaz de ezplicar o caso,
Porque sobre os padres desce em permanência a inspiração divina, quer eles gostem quer a preferissem dispensar.
Com a sua caneca de "sangue de Cristo na mão, o Senhor Padre lá oconseguiu pronuciar uma frase completa: "foi um anjo que se perdeu no caminho e começou a chorar".
É, de facto, esta a funçao mais importante dos padres; a de explicar os enigmas que prefuram até mesmo, o basalto das rochas que foram a Mamoua.
Mas já não houve trmpo de ir procurar o anjo.
Talvez um dia, talvez um dia.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Momentos
Chegam de manso, em surdina,
não se esperam, não avisam,
e entram, pela porta fechada,
pelo estore corrido,
no som do rádio desligado.
Entram e ficam.
Colados, pegados, pegajosos.
Até que um copo de whisky
os faça adormecer.
não se esperam, não avisam,
e entram, pela porta fechada,
pelo estore corrido,
no som do rádio desligado.
Entram e ficam.
Colados, pegados, pegajosos.
Até que um copo de whisky
os faça adormecer.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
As razões duma mancha castanha
Decidiam ir para Alcanena. As razões são desconhecidas. Tal como normalmente acontece, relativamente tanto a decisões que se tomam como a situações que acontecem. Mas nunca há acasos. Tudo acontece devido a uma cadeia complexa de causas e efeitos dessas mesmas causas, que são tantos os efeitos e tantas as causas, que não têm espaço para ficarem registadas na nossa compreensão: tal como aquele gato que acabou de subir àquela árvore naquele dia e naquela hora, porque um determinado cão nasceu há 6 anos(seria fácil explicar também, as causas do nascimento do cão naquele preciso ano, mas deixemos para lá) e foi levado até ao parque onde o gato estava porque o dono (mais uma vez um conjunto de causas efeitos fez com que determinado senhor ficasse dono do referido cão...) precisava de o levar a passear àquela precisa hora pois tendo dormido mal, achou que nquele dia um passeio o poderia pôr mas bem disposto, e escolheu aquele local, porque, tinha visto no dia anterior uma tabuleta, na estrada, com a indicação, estrada por onde ele habitualente não passava,mas por onde passou naquele dia, por ter ligado o GPS (e ligou-o porque acabara de lhe ser oferecido pelo avô,(claro que houve outras causas que determinaram a prenda do avô) que lhe mostrou uma outra rota para chegar a casa. E é este conjunto de causas que fez com que ogato tivesse naquele momento do tempo do mundo, de subir a uma árvore para fugir dum cão. E assim se explica que o acaso é apenas a resultante de não sermos capazes de conhecer todos os acontecimentos que se transformam em causas com consequências bem precisas e que não poderiam ser diferentes. Julgamos ter o poder de decisão, mas mesmo as decisões acontecem por determinação de uma conjugação de factos que se registaram nos nossos cérebros e determinam consequências precisas a que, com a falta de modéstia que nos caracteriza enquanto espécie, entendemos chamar de decisões. Não há , porém, nem acasos nem decisões. O que há são causas e suas consequências.
E sendo assim, corrigindo o que tinha escrito anteriormente, um conjunto desconhecido de causas teve como consequência, que o Manuel, a sua mulher Ana e a filha, a Rosinha, fossem, naquele preciso ano de 2010, passar as suas férias na praia fluvial de Alcanena, numa pequena pensão, de amiente familiar, que lhes indicaram.
Um espaço a jorrar de vida, nas margens choupos e Salgueiros dão abrigo às mais variadas espécies de aves fornecendo, ao mesmo tempo, agradáveis zonas de sombra, junto ao rio Alviela, que, acabado de nascer, conserva ainda, naquele local, a pureza original das suas águas, que se exprimem ruidosa e
alegremente ao saltarem os desníveis do seu percurso.
Instalou-se na família uma espécie de rotina de férias. Levantar tarde, tomar o pequeno almoço, fazer um farnel e ir para a praia.
Mas instalou-se, também uma outra rotina, por parte de Rosinha. A Rosinha, que tinha acabado de fazer 9 anos, era uma criança alegre, bonita, mas com um nevo castanho na testa, que, porém, a tornava ainda mais engraçada. especialmente quando sorria.
Ora de todas e de cada vez que mergulhava, a Rosinha virava-se para os pais, ao memo tempo que reparava nos cardumes de peixes que ali abundam, dizendo: "deve ser tão bom ser peixe!".
O Mnuel, católico praticante e convicto, de todas as vezes, explicava à filha que o Homem havia sido criado à imagem e semelhança de Deus e que por isso dizer-se que seria bom ser peixe, é um pecado.
Chegou mesmo, certo dia a, em vez de irem à praia, como habitualmente, fazerem uma deslocação ao Santuário de Fátima, logo ali ao lado, para que a Rosinha percebesse melhor os mistérios da religião, que, afinal, tão pouca gente percebe, se é que há mesmo quem perceba.
Resltados nulos: logo no dia seguinte, ao mergulhar, a mesma coisa:"deve ser tão bom ser peisxe!". O que levou a Ana a dizer ao Manuel, ao aperceber-se da sua irritação crescente: "não ligues, coisas de crinças! E, de qualquer forma, os peixes também são criaturas de Deus."
Mas mais uma vez por razões de cadeias de causas e efeitos, o período reservado às férias não é ilimitado, e chegou o dia da última ida à praia naquele ano. Esse último dia de férias em ALcanena, decorru quase como de costume.
Mas apenas quase, dado que, a deterninada altura, já todos dentro de água, se ouvir a voz da Ana:
"Oh Manuel, onde está a Rosinha?"
Mas a Rosinha não estava em lado nenhum. Estavam todos a nadar mesmo ao lado uns dos outros, no entanto, de repente, a filha tinha simplesmente desaparecido.Bem que procuraram no fundo das águas, mas a boa visibilidade daquele rio tão limpo naquele local, não deixava dúvidas..Não estava lá Terá sdo arastada pelas aguas? Chamaram-se as entidades oficiais: polícia, bombeiros. Todo o local foi passado a "pente fno", mas nada de Rosinha, nem viva nem cadáver. Durante meses a investgação prosseguiu. E prosseguiram também as lágrimas, as recriminações, a raiva de terem "decidido" ir passar férias para aquele local.
Progressivamente as rotinas de vidas de trabalho foram-se de novo instalando. Nasceu uma nova Rosinha e logo a seguir um Ronaldo.
Acontece que o Pedro e o Rui às 7 horas da manhã do dia 7 de Setembro de 2012 froam à pesca. Contrariamente ao habitual,não foram em vão. Conseguiram pescar 6 carpas, cada uma que chegava para uma refeião para os dois. Contentes com o resultado, foram mostrar a pescaria à família. Foi então que a Raquel, que vivia há mais de 3 anos já com o Rui, fez uma estranha descobeta: todas aquelas carpas tinham uma mancha castanha na zona cefálica, mancha essa nunca antes vista por nenhum deles em carpas pescadas naquele rio ou nos outros locais onde também pescavam.
Acharam estranho, mas não deram mais importância à obseração. Eram simlesmente assim aquelas carpas. Por acaso genético, talvez.
Mas nós que sabemos mais e que sabemos que o acaso não existe, facilmente compreendemos que também para esta insólita mancha na cabeça detas carpas, existiu uma cadeia de causas bem precisa.
A mancha é só a consequência.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Ignorância
Na distância, lá longe, ao fim do mar
num outro tempo que não sei dizer
num outro espaço que não sei olhar
numa outra língua que não sei falar
Fica aqui o rio, a rocha, o vento...
Que eu conheço, vejo e sei contar.
O sino na igreja, a contar o tempo,
a água fria deste rio, que eu sei de mergulhar.
Sei apenas o meu mundo, reduzido,
sei apenas as horas que uma vida faz,
só sei do que existe e faz sentido:
É assim que o lá longe é indefenido.
Mistério e escuridão, lá onde tu estás.
Mundo que eu não sei por não o ter vivido.
num outro tempo que não sei dizer
num outro espaço que não sei olhar
numa outra língua que não sei falar
Fica aqui o rio, a rocha, o vento...
Que eu conheço, vejo e sei contar.
O sino na igreja, a contar o tempo,
a água fria deste rio, que eu sei de mergulhar.
Sei apenas o meu mundo, reduzido,
sei apenas as horas que uma vida faz,
só sei do que existe e faz sentido:
É assim que o lá longe é indefenido.
Mistério e escuridão, lá onde tu estás.
Mundo que eu não sei por não o ter vivido.
sábado, 11 de agosto de 2012
Mochos e cucos
Era um velho bosque cheio de tradições, o bosque dos mochos e das corujas. Todos eles cumprindo o seus deveres de aconselhamento a todos os outros animais das florestas em redor, seguindo velhos métodos, que lhes haviam granjeado enorme respeito e consideração. Pensando eles que o respeito e a consideração, uma vez alcançados, são eternos.
Mas aquele ano revelou-se particularmente penoso: um fogo no bosque obrigou a profundas remodelações, tendo mochos e corujas, que levar a cabo atividades várias, nomeadamente, reconstrução de habitações, de espaços de atendimento, para além, naturalmente, das funções específicas que lhe estavam desde sempre confiadas. Para agravar a situação, a quantidade de animais que quotidianamente vinham pedindo aconselhamento, não parava de aumentar, vendo-se agora incapazes de dar resposta a tanta procura.
Lá do alto do seu trono, porém, o rei Leão, atento, como é suposto estarem todos os governantes aos problemas dos seus povos (suposto mas nem sempre verificável, porque, na verdade, há ocorrências que não se podem verificar, mas apenas deduzir de observações que nem sempre são fiáveis) , decidiu enviar para o bosque, um contigente de cucos, (previamente sujeitos a formação específica) de forma a poderem auxiliar mochos e corujas nas suas tarefas cada vez mais exigentes.
Com alguma reserva mental, foram os cucos recebidos pelos mochos, mas necessidade é necessidade e por isso aos cucos foram sendo distribuidas funções variadas de forma a ser possível a continuação dos objetivos daquela comunidade do bosque.
Entretanto, o velho mocho Simão, tinha chegado ao tempo do cansaço. Fartava-se ele daquele status comunitário de círculo fechado, em que mochos e corujas se constituiam como uma espécie de comunidade endogâmica, esquecendo que a floresta era muito maior do que apenas aquele pequeno bosque. E por isso, para o mocho Simão, ao contrário dos restantes, a chegada do contigente de cucos, abria-lhe as portas para contactos com pensares e olhares diferentes, o que o animava.
Mais que farto das tarefas que diariamente tinha que fazer, ao mocho Simão, calhou-lhe um dia a ingrata tarefa de ter de andar a transportar troncos e ramos, dum local para outro, no âmbito da renovação de espaços e habitações, tarefa por certo necessária, mas que nada tinha a ver com as funções de aconselhamento, essas sim, das quais ele gostava. Por isso, com enorme má dispposição, iniciou o referido transporte de materiais. Dado que a quantidade de materiais a transportar era enorme, foi-lhe atribuido um cuco, o cuco Lima, que ele não conhecia, para o ajudar.
Começaram pois ele e o cuco, as tarefas do transporte. De imediato, a surpresa o invadiu da mesma forma que o mar invade a terra num tsunami: a seu lado, carregado de troncos, o cuco sorria e cantava, como se aquela tarefa fosse de um enorme prazer realizar.
Foi para sua casa o mocho Simão, ao fim do dia, incapaz de parar o pensamento: que diabo de cuco é este? Que especial dom terá ele para transformar atividades tão desinteressantes e cansativas, em alegria e jovialidade? Como me aperece este cuco aqui, no exato momento em que eu já estava completamente desprovido de qualquer ânimo? Acreditasse eu em Deus e diria que era um enviado seu.
Entretanto, o cuco Lima, passou a ajudar regularmente o mocho Simão em tarefas várias e, de todas as vezes, com aquele sorriso e canto transbordante de entusiasmo.
Enquanto isso, mochos e corujas continuavam reticentes ao trabalho dos cucos, os cucos isto, os cucos aquilo, como se, na realidade, existisse uma entidade denominada os cucos e não indivíduos, cada um diferente de cada um dos outros, embora todos cucos. Muito frequentemente olhamos a floresta e não vemos a árvore. Acontecia assim à visão que tinham do contigente dos cucos.
O tempo ia passando e a cada vez que o dito tempo passava, o mocho Simão crescia de espanto em relação ao cuco Lima: o diabo do cuco mostrava-se extraordinariamente nervoso sempre que falava com mochos ou corujas e também com ele assim era, dando uns risinhos caraterísticos sempre que se expressava, mas ao mesmo tempo ia mostrando uma força anímica tão contagiante, que conseguia transformar pesadelos em sonhos.
Penso que terá sido por essa altura que o mocho Simão terá decidido forçar o cuco a ser seu par e a deixar de lado a formalidade. Ao velho mocho, aquele tratamento tão distante por parte daquele cuco que, na verdade, o tinha contagiado já do seu otimismo e prazer de viver, (uma dívida que, não fosse ele um sabido mocho e não saberia que é impossível de saldar) doía-lhe lá dentro, sentia que aquele cuco, que por acaso do destino havia sido colocado no seu caminho, não podia continuar a manter-se tão formal e tão distante. Foi quase uma batalha!
-Sou teu par, não sou teu superior, dizia o mocho.
Mas logo a seguir, de novo, o mesmo tratamento formal.
Até que, após semanas e semanas de batalha, o cuco rendeu-se e finalmente o velho mocho e o jovem cuco passaram a tratar-se como iguais.
O tempo foi seguindo o seu curso, se é que o tempo tem curso para seguir, (há quem ache que o tempo se desloca ao acaso das horas que vão passando, sem rumo e sem rota, mas como não sei, não afirmo nem nego). E à medida que o temppo foi andando, o velho mocho não parava de se espantar: não é que o diabo do cuco, ainda há tão ouco tempo nas suas novas funções de apoio ao aconselhamento, se mostrava duma habilidade e capacidade espantosas, superando não só as expectativas mas superando mesmo as próprias aptidões dele próprio, velho mocho?
A cada semana do caminho do tempo, novas facetas ia o mocho Simão descobrindo no cuco, que o deixavam boquiaberto. A longo dessas muitas semanas do caminho do tempo, não foi uma nem duas, mas muitas, muitas vezes, que ao chegar a casa na hora do descanso, o mocho Simão se interrogava, se admirava, com as constantes revelações que, por puro acaso, ia descobrindo e que faziam daquele cuco, uma das criaturas mais extraordinárias, que alguma vez tinha conhecido.Uma das criaturas mais capazes, suplantando em muito não só os outros cucos como também os velhos mochos e corujas da comunidade do bosque.
As descobertas têm sempre consequências. Só não têm quando temos a incrível capacidade de ignorar o que descobrimos e fazer de conta que não conhecemos o que conhecemos.
O mocho Simão optou então por quebrar os laços com a comunidade do bosque de velhos mochos e corujas, deixando para trás personagens anacrónicas.
Pode ser, quem sabe, que o velho mocho ainda venha a descobrir, que o caminho do tempo não é, afinal, tão aleatório como alguns presumem.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Saídos da ribeira
Foi numa noie igual a esta. Uma noite sem luar, em que os cantos das cigarras e dos grilos, o tocar dos sinos, ao longe, as estrelas a brihar em cima, tornavam tão suave o passar das horas.
Mas claro que não há, de facto, noites iguais. Da mesma forma que não há nem pessoas, nem animais, nem plantas, nem rochas iguais. Apenas nos parecem iguais, pela falta de empenho em observá-las.
Nessa noite, igual e diferente de todas as outras, aconteceu o inimaginável. Do leito da ribeira que se faz esconder das vistas, pelas folhas e ramos das árvores que trepam pelas encostas que a enformam, um peixe saltou para fora de água. E logo a seguir outro e depois mais outro, de forma que, em escasso tempo, centenas de peixes tinham saído da água da ribeira e iniciado, em simultâneo, uma aventura coletiva terrestre. E isto porque conseguiram começar a respirar o ar gasoso, as barbatanas ventrais, viraram patas, com garras nas extremidades, permitindo-lhes assim novas caminhadas por locais que nem imaginavam existir.
Como aconteceu e porquê? Vá se lá saber...
Dirão uns que foi um acaso da genétca, outros descobrirão ali a mão do Criador, outros dirão que é a vontade que domina o corpo, e que a ânsia de se libertarem do fluido existencial, ganhou tão forte energia transformadora , que impôs ao corpo a criação de novas aptidões - ou seja, uma transformação psicossomática.
Fosse lá porque razão fosse, a verdade é que mal puseram barabatanas em terra firme, os peixes iniciaram a sua caminhada, que, não passou despercebida a um rapaz da aldeia ali ao lado, que, ao passar de manhã junto à ribeira, se deparou com o extarordinário caso de ver centenas e centenas de peixes fora de água, mas vivos e bem vivos, caminhando em terra, e trepando aos troncos das árvores, numa estranha ânsia de ascender, como se o simples visualizar do céu, os impelisse a caminhar para cima, sempre para cima.
Ficar calado é próprio dos peixes, que não falam, mas não dum ser humano. E assim foi que de imediato correu este rapaz à sua aldeia a contar o que acabara de ver. O difícil foi fazer que acreditassem nele. Chamaram-lhe, pois, grande mentiroso, disseram-lhe que se embebedava logo de manhã, sabemos lá nós, que mais lhe terão dito!
Acreditar seja em quem for, é sempre tão difícil, até mesmo nas situações mais simples, quanto mais num caso como aquele. Acreditar implica confiança e confiar é um risco que pode ter um preço que o mais das vezes não se quer pagar.
E foi por isso que uma delegação de gentes respeitáveis lá da aldeia, se decidiiu a acompanhar o moço, pois de outra forma não havia meio de o fazer calar.
E logo a seguir foram os jornais, as entrevistas, as notícias, que colocaram aquela aldeiazita com nome nos mapas. O caso estava mais que confirmado. O caso estava mais que divulgado.
Foi a partir dessa noite memorável, que os hábitos das pessoas se alteraram, já que, a zona da ribeira rapidamente se transformou em local de romaria de fim de semana, para todos os moradores das aldeias da região. E era vê-los, logo pela manhã, a caminharem quais romeiros pelos caminhos da encosta, cesta do farnel e garrafão de vinho, mantas para colocar no chão, enfim, tudo o necessário para um dia bem passado.
E foi assim que, num desses fins de semana, alguém que já perdeu o nome devido ao tempo que se encarregou de o apagar dos registos das memórias vãs, se lembrou de, enquanto assava um chouriço na fogueira, deitar a mão a um dos peixes que trepava por uma árvore logo ali ao seu lado, e colocá-lo na grelha, ao lado do dito chouriço. Estranho, de facto, era não ter havido ainda alguém com a mesma ideia...
Assada que estava a criatura, foi dividida em pedacinhos pela família e amigos. Um espanto! Esquecendo o pormenor das patas, em tudo o mais um peixe como os outros, e fresquinho, pois acabado de "ser pescado" da árvore!
Mais dois fins de semana, bastaram. Dois fins de semana de matança e festim, foram o suficiente para que não sobrevivesse nem sequer uma única daquelas estranhas criaturas.
Mas também nunca mais se voltou a repetir o estranho fenómeno daquela noiote aparentemente igual a tantas outras.
Há quem diga que a razão de nunca outra vez tal transformação ter acontecido, está na aprendizagem:
- os peixes aprenderam que, o ser diferente, mesmo no caso dum simples peixe, pode ter como custo a sobrevivência.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Permanências
Esta água que corre e que tudo arrasta,
leva consigo peixes, algas, limos,
leva consigo pedras e cascalho,
como se fosse o tempo a levar a vida,
a levar para longe rostos, agora só memória,
palavras, agora só lembrança,
sentimentos que agora são já História.
Mas a laje grande, o xisto enorme,
vindo das profundezas da Terra, fica.
Pode a água teimar e voltar a teimar,
forçar e voltar a forçar,
que aquele xisto é força e resistência
aquele enorme xisto é permanência.
Mesmo que coberto e sem se ver,
o facto de estar lá, de permanecer,
muda todo o sentido do fluir das águas!
Por mais que corram as águas e seja o rio tão móvel,
aquela pedra enorme dá o sentido,dá a segurança:
a garantia, de que mesmo com mudança,
o fundamental
não é solúvel.
leva consigo peixes, algas, limos,
leva consigo pedras e cascalho,
como se fosse o tempo a levar a vida,
a levar para longe rostos, agora só memória,
palavras, agora só lembrança,
sentimentos que agora são já História.
Mas a laje grande, o xisto enorme,
vindo das profundezas da Terra, fica.
Pode a água teimar e voltar a teimar,
forçar e voltar a forçar,
que aquele xisto é força e resistência
aquele enorme xisto é permanência.
Mesmo que coberto e sem se ver,
o facto de estar lá, de permanecer,
muda todo o sentido do fluir das águas!
Por mais que corram as águas e seja o rio tão móvel,
aquela pedra enorme dá o sentido,dá a segurança:
a garantia, de que mesmo com mudança,
o fundamental
não é solúvel.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
escaravelho
Grunhidos, uivos, lamentos,
choros de bebes aflitos,
multidóes ensanguentadas,
árvores de folhas velhas, carcomidas.
Cai cinza, como chuva;
sopra o fogo, como vento.
E na imensidão da terra nua,
da terra queimada, gretada, exausta,
apenas um decrépito escaravelho.
choros de bebes aflitos,
multidóes ensanguentadas,
árvores de folhas velhas, carcomidas.
Cai cinza, como chuva;
sopra o fogo, como vento.
E na imensidão da terra nua,
da terra queimada, gretada, exausta,
apenas um decrépito escaravelho.
tempo-fumo
Fosse o tempo uma melancia,
que se derretesse na boca
sabor a doce e a fresco
sabor desfeito ao passar,
sabor que se sabe ao que sabe
sem ser preciso provar.
Fosse o tempo a via férrea,
carris de camnho cero,
de destino já seguro,
que se percorre
na certeza do local a lá chegar.
Fosse o tempo a luz da noite,
que se dispersa no escuro,
mas que está nas estrelas certas
no sitio certo das estrelas
é olhar e encontrar.
Fosse o tempo a rocha mãe
que faz crescer o solo-vida
Basta cavar para a ver
sabemos onde ela está.
Mas o tempo é entropia,
o tempo não tem lugar,
o tempo é fumo que à solta
não mora em lugar nenhum.
que se derretesse na boca
sabor a doce e a fresco
sabor desfeito ao passar,
sabor que se sabe ao que sabe
sem ser preciso provar.
Fosse o tempo a via férrea,
carris de camnho cero,
de destino já seguro,
que se percorre
na certeza do local a lá chegar.
Fosse o tempo a luz da noite,
que se dispersa no escuro,
mas que está nas estrelas certas
no sitio certo das estrelas
é olhar e encontrar.
Fosse o tempo a rocha mãe
que faz crescer o solo-vida
Basta cavar para a ver
sabemos onde ela está.
Mas o tempo é entropia,
o tempo não tem lugar,
o tempo é fumo que à solta
não mora em lugar nenhum.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
memória do nada
Um dia aconteceu o olhar.
No meio da noite, sob a luz da lua.
Por instantes breves.
Segundos feitos relâmpagos, de velocidade triste.
E logo se fechou o luar da possibilidade.
No regresso ao tempo infindo da permanência obscura, vozes que gritaram, ficaram abafadas pela imensidão do som do escuro.
Porque o escuro tem som, um som que grita, que inunda, um som que destrói toda a possibilidade do ouvir.
Consegue ser tão forte e tão intenso, que até o ver se incapacita.
Ficou ainda e por enquanto a memória.
A memória que diariamente se vai confundindo com o espaço do negro que a envolve.
A memoria que se vai esquecendo de si própria,
A memória que progressiva e continuamente se vai dissolvendo no vazio do nada.
Ilusão
Sei lá do ar e do vento....
Sei lá da chuva, ou do sol
Sei lá do futuro que invento
Sei lá para que bate a água em pedra mole.
Porque existem horas e o tempo?
Porque existe a vida que se leva?
E leva-se, para onde? Em sentimento?
Não! É só uma ilusão de luz dentro da treva.
Existe o quê, se nem existo eu!
Nada é mais do que o imaginar
de matéria e pensamento que desceu
dum espaço-tempo, que nem é lugar.
Vivemos em morte continuada,
desde o dia e hora em que se diz termos nascido:
a prova é não restar nada
após uns dias, em que se fingiu ter-se vivido.
Sei lá da chuva, ou do sol
Sei lá do futuro que invento
Sei lá para que bate a água em pedra mole.
Porque existem horas e o tempo?
Porque existe a vida que se leva?
E leva-se, para onde? Em sentimento?
Não! É só uma ilusão de luz dentro da treva.
Existe o quê, se nem existo eu!
Nada é mais do que o imaginar
de matéria e pensamento que desceu
dum espaço-tempo, que nem é lugar.
Vivemos em morte continuada,
desde o dia e hora em que se diz termos nascido:
a prova é não restar nada
após uns dias, em que se fingiu ter-se vivido.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Vísceras autofágicas
Insisto em ver,
(mas os olhos fecham)
Quero ouvir
(o tímpano endurece)
Quero sentir,
(a pele virou quitina)
E na língua,
o tabaco fez das papilas estrada.
Assim desconectado,
sou apenas vísceras em autofagia:
no desespero de se entenderem.
(mas os olhos fecham)
Quero ouvir
(o tímpano endurece)
Quero sentir,
(a pele virou quitina)
E na língua,
o tabaco fez das papilas estrada.
Assim desconectado,
sou apenas vísceras em autofagia:
no desespero de se entenderem.
A chama escura
É esta a chama do vazio:
arde, sem fumo,
acende, sem luz,
toca e queima, sem escurecer o que queimou.
É esta a chama
que não se vê
nem sequer na noite mais escura.
É esta a chama fria,
que em vez de aquecer,
faz descer a temperatura.
Chama que se assopra, mas se não apaga,
que se molha, mas continua acesa,
pois,
uma chama morta,
não se mata!
Desígnio
Naqueles dias, o tempo se faz chumbo
e a água pedra
e o ar opaco, até se bater nele.
O horizonte está à distância de um palmo,
e não tem cor
e não tem luz .
Naqueles dias, o vento seca, e até o som se cala,
em espera das horas
que não acontecem.
Naqueles dias,
o futuro não existe, que o presente parou.
Não se cresce não se envelhece, não se nasce.
Naqueles dias
em que acordar é sonho
e sonho é pesadelo,
a benção da Morte é o único desígnio.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Terminar
Pesa-me o peso do nada
o fardo dorido da ausência
curva-me, verga.me,destrói-me
rasga-me mais que uma faca
quebra-me a noção do eu.
Este nada que é tsunami,
não vejo que vem, mas vem
sinto que vem sem o ver,
invade a minha consciência
corroí a própria existência
de mim.
Nada, ausência, que antecipo,
que sei que me vai matar....
Mas...
talvez não deixe, quem sabe?
Talvez me antecipe e me termine
antes do nada chegar!
o fardo dorido da ausência
curva-me, verga.me,destrói-me
rasga-me mais que uma faca
quebra-me a noção do eu.
Este nada que é tsunami,
não vejo que vem, mas vem
sinto que vem sem o ver,
invade a minha consciência
corroí a própria existência
de mim.
Nada, ausência, que antecipo,
que sei que me vai matar....
Mas...
talvez não deixe, quem sabe?
Talvez me antecipe e me termine
antes do nada chegar!
terça-feira, 22 de maio de 2012
Nada
Vem de manso, devagar,
não bate à porta,
entra sem barulho, rastejando,
inundando o espaço, esvaziando a alma.
Como se fosse um mar de afogamento
uma ânsia de travar o respirar,
uma dor que cresce, sem se fazer anunciar.
Toca um som que faz sofrer,
ao longe,na distância de se ouvir,
cresce o frio, a noite, o negro,
neste sentir sem aconchego.
O caminhos vira becos,
os horizontes, janelas
que se fecham de se abrir
no hã tempo não há vida
só há horas a cumprir.
Neste triste desencanto,
esgota-se o tempo da vida:
passa a vida em pouco tempo!
fica o nada
e fica o pranto.
não bate à porta,
entra sem barulho, rastejando,
inundando o espaço, esvaziando a alma.
Como se fosse um mar de afogamento
uma ânsia de travar o respirar,
uma dor que cresce, sem se fazer anunciar.
Toca um som que faz sofrer,
ao longe,na distância de se ouvir,
cresce o frio, a noite, o negro,
neste sentir sem aconchego.
O caminhos vira becos,
os horizontes, janelas
que se fecham de se abrir
no hã tempo não há vida
só há horas a cumprir.
Neste triste desencanto,
esgota-se o tempo da vida:
passa a vida em pouco tempo!
fica o nada
e fica o pranto.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Ave
Ave de rapina com cara de elefante
Dinossauro de tempos que já vão
caminha pela sombra, triste e arrogante
arrastando palavras de comiseração.
Trànsporta consigo um excell mental
onde regista os outros, nunca a si
só sabe fazer contas de diminuir
é concentrado e sério: não se ri.
Veste a roupa da imortalidade,
julga vir do sempre e sempre cá ficar
Vivendo na ilusão da realidade
Um pequeno verme,translúcido,mesquinho
Criado só com o fim de incomodar!
Dá pena! É mesmo só um coitadinho...
Dinossauro de tempos que já vão
caminha pela sombra, triste e arrogante
arrastando palavras de comiseração.
Trànsporta consigo um excell mental
onde regista os outros, nunca a si
só sabe fazer contas de diminuir
é concentrado e sério: não se ri.
Veste a roupa da imortalidade,
julga vir do sempre e sempre cá ficar
Vivendo na ilusão da realidade
Um pequeno verme,translúcido,mesquinho
Criado só com o fim de incomodar!
Dá pena! É mesmo só um coitadinho...
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Ausência
Chega-me o eco
da tua ausência anunciada
como se fosse pedra da calçada
atirada contra mim
Perco o equilíbrio,
já não oiço, já não vejo,
fico surdo, fico cego,
sei que não sei viver assim.
Depois forço o pensamento,
faço com que tudo seja ruído,
um absurdo feito de imaginação.
Concentro-me em viver no tempo
do instante.
Fazendo do futuro a negação.
Mas sei,
Ah! Isso sei,de certeza certa:
que se do anúncio se vier a fazer caso,
se do receio nascer a concretização,
descerá em mim a noite mais cerrada,
centrar-se-á em mim o total da escuridão
seguirei, caminhando,ao acaso
sem escolha, sem destino
e sem opção.
terça-feira, 1 de maio de 2012
Senescente
Deslizando na entropia
do pensamento e do tempo
tudo está onde não é
tudo se move ao acaso
nada é o que se vê.
Esquizofrenia frenética
que não permite o pensar,
faz viver do imaginar:
em alucinação constante
que faz de guia ao presente.
Passam corpos,estrelas,astros,
em órbitas aleatórias
as palavras viram coisas,
os objetos são palavras
-nada é realidade:
-é tudo fruto da mente.
E da mente em paranóia
jorram vinhos já vinagre,
em misturas de sabores
em que o doce sabe amargo,
em misturas de cores
onde o azul é vermelho.
Universo inexistente
construído ao acaso
do curto-circuito da mente.
Da mente senescente...
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Uma questão de pontaria
Não acerto.
Atiro ao lado, sempre.
Toda a pontaria é vã.
Foge sempre do meu alcance,
porque feito longe não se alcança.
Mas... está mesmo aqui ao lado!
Mesmo ao lado, mesmo ao perto
mas tendo consigo a lonjura de infinitos
a distância do tempo duma nuvem:
que se vê mas não se agarra,
que se sente e não se toca.
Nuvem feita de luz de sol,
inundando o meu Mundo de surpresa:
pela segurança na incerteza,
pela sabedoria ganha sem tempo de se ganhar,
pela enorme dimensão em pouco espaço,
pela serenidade que transpira ação.
Não se acerta no improvável,
mesmo se ele está à nossa vista!
Atiro ao lado, sempre.
Toda a pontaria é vã.
Foge sempre do meu alcance,
porque feito longe não se alcança.
Mas... está mesmo aqui ao lado!
Mesmo ao lado, mesmo ao perto
mas tendo consigo a lonjura de infinitos
a distância do tempo duma nuvem:
que se vê mas não se agarra,
que se sente e não se toca.
Nuvem feita de luz de sol,
inundando o meu Mundo de surpresa:
pela segurança na incerteza,
pela sabedoria ganha sem tempo de se ganhar,
pela enorme dimensão em pouco espaço,
pela serenidade que transpira ação.
Não se acerta no improvável,
mesmo se ele está à nossa vista!
domingo, 15 de abril de 2012
Dormir
Esta noite,
tem as estrelas fechadas e nem a lua abriu.
Esta noite
mão há pirilampos a brilhar,
as rãs não encantam com o seu canto,
o mundo emudeceu e está frio.
Não me chegam as vozes que me encantam,
os sons que me acordam
os gritos que me alertam.
Fico fechado na noite que me fecha:
vou dormir!
tem as estrelas fechadas e nem a lua abriu.
Esta noite
mão há pirilampos a brilhar,
as rãs não encantam com o seu canto,
o mundo emudeceu e está frio.
Não me chegam as vozes que me encantam,
os sons que me acordam
os gritos que me alertam.
Fico fechado na noite que me fecha:
vou dormir!
sábado, 14 de abril de 2012
Encarnação
Tens o tamanho do mundo...
E tão longe como o espaço
e tão fundo como o mar
e tão forte como o vento
tão distante como o tempo,
mas tão perto como o ar.
De tão forte fazes medo,
de tão longe, não se chega,
de tão fundo, ficas longe
da distância, dás saudade
de tão perto, ficas eu.
Como se o Universo inteiro
fosse pessoa.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
medosmudos
Palavras que não há
frases que não dizem
pensamentos que sobram
teimosias que se arrastam,
Incapacidades do falar
deglutições do exprimir
porque há medos no ar:
as incertezas do ouvir
frases que não dizem
pensamentos que sobram
teimosias que se arrastam,
Incapacidades do falar
deglutições do exprimir
porque há medos no ar:
as incertezas do ouvir
sábado, 7 de abril de 2012
Novos evangelhos
Jesus nunca usou um telemóvel.
Em 2000 anos a evolução é espantosa. Ciência e tecnologia ao virar da esquina e em quaquer esquina.
Entretanto, estive a ver, faz alguns dias, o evangelho de Cristo, segundo Angelina Jolie. Cristo humilhado e crucificado milhares de vezes, na Bósnia. Cristo usava telemóvel, e deslocava-se de carro ou de avião.
Remar contra a maré. Teimosia insensata de alguns. Acontecia já há dois mil anos e continua a acontecer hoje, diariamente. E dá origem a segregação, discriminação, violência psicológica ou física ou ambas.
Tanto há dois mil anos como hoje as "massas" aderem à dominante ideológica, reprimindo com maior ou menor violência as opiniões minoritárias. Chegando ao ponto de ser possível o apoio generalizado de milhões de seres humanos, a um genocídio, desde que se crie uma ideologia que o justifique.
Foi possível, há dois mil anos, haver quem genuinamente se divertisse , soltando gargalhadas, com o espetáculo, ao vivo, de um homem a ser espancado, humilhado, torturado até à morte. Táo possivel hoje como nessa época: aconteceu na Alemanha, com Hitler, na União soviética, com Estaline, na China, com Mao-Tse-Dong, em Portugal, com Salazar. Na Bósnia. Em Guantanamo. Etc.
Tão possível há dois mil anos como hoje, uma enorme maioria da população dar o seu apoio à brutalidade e à barbárie. Todos e cada um de nós somos capazes de o fazer, dependendo das circunstâncias e das razões que no momento se nos afigurem como as válidas.
Continuamos a achar que há a perspetiva certa e não encaramos o facto de, na realidade, existirem diferentes perspetivas. *
Em 2000 anos construimos um mundo novo de ciência, tecnologia e sabedoria.
Em 2000 anos permanecemos iguais a nós próprios no que respeita a comportamentos.
* Com um especial agradecimento ao autor desta frase, que aparece aqui adaptapada ao presente contexto
terça-feira, 13 de março de 2012
solouco
A ver nascer o sol:
lá longe, apenas claridade pressentida,
depois, bola luminosa em crescimento,
crescendo em altura, subindo o firmamento,
depois inundando de luz o horizonte
crescendo ainda, até chegar ao topo.
E depois, o extaordinário:
chegado ao topo, alcança novo topo,
estando no seu maior tamanho, eis que cresce mais e mais,
já iluminando o mais que pode iluminar,
eis que a sua luz fica ainda mais intensa,
aquecendo já o mais que aquecer pode,
eis que aumenta ainda mais de temperatura!
Com o tempo que passa,
mais intenso fica.
Cresce em volume, calor, ntensidade...
um sol que não se esgota, que não tem ocaso.
Que sol é este?
Limite da loucura!
lá longe, apenas claridade pressentida,
depois, bola luminosa em crescimento,
crescendo em altura, subindo o firmamento,
depois inundando de luz o horizonte
crescendo ainda, até chegar ao topo.
E depois, o extaordinário:
chegado ao topo, alcança novo topo,
estando no seu maior tamanho, eis que cresce mais e mais,
já iluminando o mais que pode iluminar,
eis que a sua luz fica ainda mais intensa,
aquecendo já o mais que aquecer pode,
eis que aumenta ainda mais de temperatura!
Com o tempo que passa,
mais intenso fica.
Cresce em volume, calor, ntensidade...
um sol que não se esgota, que não tem ocaso.
Que sol é este?
Limite da loucura!
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Putrefação
Chega à porta e ensurdece,
(tanto ruído que o silêncio faz,)
abres, ninguém aparece,
esperas, mas ninguém traz...
Tempos surdos, tempos cegos,
espaços de vazios enormes.
Na carne cravam-se pregos,
cansa-te a Vida e não dormes.
Pões-te à espera, estás à espreita
aguardando quem vem lá.
Nem tu nem ninguém aceita
ter em vida a morte já.
Porque tu julgas viver
(não há medidor da vida)
mas estás só a apodrecer
nem sequer tens quem to diga...
Contradições
As teclas que escrevem tantas histórias
não conhecem as histórias que escrevem!
As térmitas que constroem as galerias,
não vêm as galerias que constroem!
Os pés que nos fazem caminhar
não conhecem o caminho que levamos!
A língua que nos permite falar
não compreende aquilo que falamos!
O rosto que nos faz sorrir
não sabe a razão porque sorrimos!
E se alguma vez, alguma coisa, alguém nos faz sentir
nem sequer alguém sabe o que sentimos!
não conhecem as histórias que escrevem!
As térmitas que constroem as galerias,
não vêm as galerias que constroem!
Os pés que nos fazem caminhar
não conhecem o caminho que levamos!
A língua que nos permite falar
não compreende aquilo que falamos!
O rosto que nos faz sorrir
não sabe a razão porque sorrimos!
E se alguma vez, alguma coisa, alguém nos faz sentir
nem sequer alguém sabe o que sentimos!
sábado, 25 de fevereiro de 2012
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Nem se faz e... acontece
Vai tudo acontecer,
o que pensaste, de olhos abertos, a sonhar,
o que viveste,de olhos fechados, ao adormecer
o que projetaste realizar.
Vai tudo acontecer!
Conseguirás o que sempre buscaste,
encontrarás, sem te esforçares sequer!
Tudo está lá, tudo aquilo que pensaste
e que julgaste tão impossível ser.
Vai tudo acontecer!
Até o que não dizes por medo de que fuja,
te será entregue de bandeja!
E para que assim seja,
muito pouco terás de fazer.
Vai tudo acontecer!
Caminha, apenas, na direção certa!
usa o goole maps, ou então o GPS
e segue, com atenção disperta,
p'ra não andares aos esses.
Vai tudo acontecer!
Lá, na Terra do Nunca,
mais ainda que o que pensas,
irá acontecer.quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Parede
Percorres o tempo
sem dares pelo tempo que passa
inebriado nos turbilhões do presente
esquecido que o presente não é sempre
e que nem o futuro é permanente!
Vais andando, correndo, brincando, lutando...
Levas contigo a força do querer
do querer sentir
do querer fazer
do querer viver
julgas que a força faz parte do teu ser!
E eis que num momento,
olhas em frente,
levantas o nariz do pensamento:
e dás com ela .
Enorme, robusta, negra,
alta de não se ver o topo.
Não dá para trepar,
não dá para derrubar.
Não dá p'ra regressar.
Percebes, então, assim,
que atingiste o fim..
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Mágicas
És de sopro e mágica,
de imaginação que se fez vida,
que se fez pedra e terra e dor.
Nasceste num momento exato
que eu sei e tu não sabes
que eu recordo e tu esqueceste:
pura ilusão feita matéria,
puro irreal feito concreto.
És de sopro e mágica,
mágica violenta e intrusiva
que não pediu licença p'ra chegar
que não bateu à porta,
que não telefonou a avisar::
chegou e entrou!
Fecho os olhos, vejo à mesma;
tapo ouvidos, ouço à mesma,
adormeço, sonho à mesma.
És minha sina
não renego:
fecho portas que não saias,
entraste, é p'ra ficares!
Não deixarei agora que me roubes
a magia que me deste.
de imaginação que se fez vida,
que se fez pedra e terra e dor.
Nasceste num momento exato
que eu sei e tu não sabes
que eu recordo e tu esqueceste:
pura ilusão feita matéria,
puro irreal feito concreto.
És de sopro e mágica,
mágica violenta e intrusiva
que não pediu licença p'ra chegar
que não bateu à porta,
que não telefonou a avisar::
chegou e entrou!
Fecho os olhos, vejo à mesma;
tapo ouvidos, ouço à mesma,
adormeço, sonho à mesma.
És minha sina
não renego:
fecho portas que não saias,
entraste, é p'ra ficares!
Não deixarei agora que me roubes
a magia que me deste.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Magia só
Essa magia me invade
sem pedir licença para entrar
sem explicações a dar
simplesmente chega
e entra
e mora.
Subsiste no tempo que passa
por mais que o tempo passe
essa magia abrangente
que me invade subtilmente
e me transporta ao bem estar.
Bastam minutos, segundos,
de te saber ali ao pé
de te ouvir, ali ao lado,
para se dar a ilusão,
acontecer a fusão
e já nada ser o que é.
O teu poder é total
de eu fazer o que não quero:
basta ler-te o pensamento
para o teu querer ser o meu
sem o meu consentinento.
Magia que não enjeito,
Magia que eu gosto tanto
pode ser até defeito
mas pra mim é um encanto.
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