sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Sem fuga

Daquele mar veio uma onda
e naquela onde veio o mar
que trouxe a água
e trouxe o sal
e trouxe
o que eu não sei
e que guardei.

Não é mar nem onda
e não é água nem é sal
e é enorme:
tão grande que não cabe
nem sequer
na onda que o transportou!

Por isso o guardo
numa sala da dimensão do oceano
e que não tem porta nem janela.

Sabendo que não sei o que será,
sei, porém, que daqui não sairá.








sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Pro Verbum

Não escrevo.
Liberto palavras.
Que se soltam por diapedese de entre as grades.
Saem assim, disformes, espremidas,
num descontínuo de sentido.

Sai liberdade, sai raiva, sai tortura
sai deus, sai.... o que calha sair
e se fica alguma coisa
deve ser talvez por estar tanto frio lá fora.

Talvez não tenha, afinal, ficado nada,
talvez não haja, simplesmente
mais nada pra saír.

Quem disse qua as palavras têm de servir para alguma coisa?
Leva-as o vento.
Não porque as queira levar,
que não precisa delas:
só por não ter outro que remédio
que o de cumprir o seu destino
de provérbio
sem sentido.
Mas sem sentido são
todos os provérbios!




Não

Hoje é o dia do não.

Não faz falta
não chove
não faz frio
não há medo.
Não há culpa e nem há perdão.

Não se sente a fome nem o desafio
não se sente o soprar do vento
porque hoje não.

Hoje?
Nem sequer houve hoje!

Hoje NÃO!!!

Ferrugem

Árvores que cantam
agitando as asas por dentro dos telhados,
furando núvens de terra congelada
em bancos de nevoeiro.

Como se fossem toupeiras
como se voassem livres.

E o que existe não serve para se ver
soa distante
como longe vão os nossos dedos
que não sentimos já de tanto ardor.

Passas longe
e eu sei que ao longe
a distância se faz curta.
Basta um avião e estamos lá!

A serenidade tem um preço
que só se paga
se não há mais nada para comprar.

Dizer adeus
é o mesmo que matar alguém.
E matar
faz nascer do vazio o infinito da esperança
no Além.

Não há tempo. Não há mais:
o que sobrou são pedaços de minutos
enferrujados.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Coisa nenhuma

Serenamente,
o azul que escurece e se faz preto,
os sons que se rarefazem e deixam espaço ao silencio
as cores que se esbatem
o real que se dilui
e deixa, enfim, espaço
 ao fluir do pensamento.

Pensamento
que vira excêntrico
sem lógica interna e sem sentido concreto
apenas um fluir de ideias, de imagens, de absurdos
um brotar de realidades que não existem
geradas por neurónios que se sentiram livres
para estabelecer sinapses aleatórias.
Serenamente.

Sai um cão de focinho vermelho
que não se cansa de rastejar feito minhoca
dentro duma água espessa que não é um rio
e não é mar e nem sequer é água.

Sai um velho que se exibe nu
e no lugar do sexo tem uma bandeira
que agita em gritos de patriotismo.

Sai uma girafa que julga que é governo
e, pescoço levantado, discursa bem alto
programas imaginários que ninguém entende.

Serenamente
há marés vivas de vazio
que enchem o Mundo
da mais profunda mansidão.

Nada algum vez será tão bom
como coisa nenhuma o consegue ser.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Simples

Fazes-me falta.
Tão simples. Só assim.
Conclusão tirada após mais de uma hora de reflexão.
Reflexão precisa, objetiva, ponderada.
Mas que não deu  mais nada.
Senão
que me fazes falta.

Tentar saber dos porquês
ou porque nãos...
Complicado perceber sentires
explicar sentires
causalizar sentires.

O vazio não é objetivável!

Mas a tua ausência
é um vazio palpável.

Fazes-me falta!

Tão simples.
Só assim.


domingo, 27 de outubro de 2013

Lá longe

Lá longe...
Se lá vem ou não
na distância em que a vista já não vê
e o prever é falso.

Lá longe,
ao fundo da noite, no caminho estreito
sem espaço , sem ar, sem vida.
Se lá vem ou não
não sei.

Lá longe,
num futuro desfeito de esperança.
feito de desconfiança
de insegurança

Lá longe,
onde não sei quem está
não sei quem vem
nem sei quem sou.

Lá longe!
Porque perto também não.


Em vão

Posso agora ficar
em vão
aqui o resto deste tempo
em vão
à espera, em espera, sem esperança
em vão

A noite toda e depois o dia todo
 em vão
a olhar para o nada
à espera de alguma coisa
em vão

sem que o som me chegeue ou a imagem ou o sentir
em vão
aqui sentado com redobrada atenção
em vão
até que o tempo acabe
o mundo acabe
a vida acabe
em vão

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O quê?

Mesmo aqui ao lado. Só esticar o braço, abrir a mão!
Lá tão longe que a distância custa tanto a fazer perto.
Aqui e além.

Não é mais fácil o aqui
que justifique o difícil do longe:
aqui ao lado e não se chega,
lá tão longe e não se vai.

Não é o espaço que separa
a lonjura não é sequer matéria.

Será então o quê
que transforma em pensamento
o que em pensamento não passa de ilusão?



quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Vagamente

Horas vagas
de indecisões feitas raízes de hera
galopando paredes velhas acima
sem fim e sem destino.

Horas vagas
em que a vontade é fumo
e em que o fumo é nada.
E em que o nada é tudo.

Horas vagas,
sem que um telefone se lembre de tocar,
sem que uma voz se lembre de dizer,
sem que um deus qualquer
sequer se lembre de existir.

Vagamente estas horas são tempo
que vagamente
se sente a decorrer.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Tempestade

Partiu o navio do cais da Matinha e lá vou eu. Sentado no meio de tantos, expectantes, ansiosos, exultantes.
Para onde seguimos?
Navegamos nem chega a meia hora e o barco entra noutro cais a receber mais viajantes, agora o cais da doca pesca. E ali vai estar por mais 45 minutos.
Enquanto isso o comandante fala aos passageiros e conta sobre a rota que iremos fazer.
Esta paragem, dá-me para sair e "esticar as pernas". Saio e encontro, no meio de tanta gente, uma pessoa que conheço, mas só está ali para se despedir da filha, que essa sim, segue viagem.
E nesta confusão de gente, num instante improvável, mas com a profundidade do mar inteiro, com a fúria da maior onde que alguma vez existiu em todo o oceano que se conhece, recebo um golpe que me atinge e me atira de onde estou para outro espaço: um tremendo golpe de saudade.
Levanto-me então, fumo um cigarro.
E fico à espera que "o mar" acalme.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Sempre a andar!

Sempre a andar,
sem parar, sem olhar,
sem nada a ponderar
sem duvidar.

Porque o que foi já foi
só o que está por vir interessa
esquecer se dói ou o que dói
estamos vivos, temos pressa!

Avançar,
sem perder tempo a pensar
o pensamento demora
a vida é só uma hora
não podemos atrasar.

Não se pode  perder tempo,
(essa gente que não anda...)
empurra-se e lã se vai!
Pouco importa se alguém cai,
é a pressa que comanda.

Chegamos lá, ah sim, chegamos lá!
Só importa quem cá está!

Para trás....

ficaram caídos no chão
esmagados pela pressão
perdidos na solidão

pedaços da construção 
dessa inebriante evolução

Que a ninguém já interessam.



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Para onde?

Momentos de Norte desaparecido,
de estradas que se perdem na poeira
tempos sem eira nem beira
tempos dum céu enegrecido.

Não há, portanto, nem rumo nem destino
só o caminhar sem graça
vida que passa, desgraça,
neste viver sem tino.

Rotinas mil vezes repetidas
até à exaustão. Pra quê pensar o que se faz,
se faça o que se faça, tanto faz,
não se vive pelo querer, mas pelas sinas.

Deixar, pois, correr o sol após o sol
e  a lua após a lua
parar o pensamento: siga  o álcool
enfim, deixar fluir a vida nua.


sábado, 7 de setembro de 2013

Seu a seu dono


Não tas dedico nem das dou,

porque são tuas.

(Bem sei que não as queres para nada…)

Mas isso não fará  com que fique eu com elas.

 estão!

Difícil é a entrega

Pois correm já pelo chão.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O fim

O fim

Era um dia tão negro, tão negro, que a noite teve vergonha de nascer.
Por isso, naquele dia ninguém se foi deitar, todos agarrados às tvs e rádios, para saberem notícias da noite. Na Casa Branca tomaram-se decisões, e os mísseis foram apontados diretamente para o local onde se sabe que a noite todas as noites nasce.
"Ou nasces, ou disparamos!"
Porém, nada aconteceu: nem anoiteceu, nem d...ispararam.
O papa rezou 3 vezes. E por 3 vezes a noite não nasceu.
O almuadem não chamou às orações, pois sem noite o dia também não começa.
Ora é sabido de todos que não se pode viver sem noite, porque não havendo noite é evidente que também não pode haver dia, não fosse a noite o oposto do dia, uma espécie de antimatéria, em que o dia se revê. Sendo assim, não havendo dia nem havendo noite, como se poderia então viver? A vida, ou se faz de noite ou se faz de dia. Não pode fazer-se no vazio do tempo.
Deixaram, portanto, de viver, as pessoas. Só que, também não morreram, já que a noite é o ocaso da vida e não houve noite portanto não houve também ocaso nenhum.
De marte, os telescópios recolheram imagens de um estranho planeta rodeado de luz por todos os lados:
mas uma luz tão escura, uma luz tão fria, que nem a noite teria conseguido produzir melhor.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Libertação

Sombras negras, inesperadas,
cobrem o sol, a terra, a lua,
sombras opacas cheias de morte e de tenura seca.

Esperança murcha, futuro queimado, horizonte que já não se vê,
passos perdidos em caminhos estúpidos
tempo gasto em objetivos idiotas.
Só as sombras justificam o tempo,
só as sombras justificam este viver  sem rumo.

Nada dá brilho ao que não tem cor,
nada explica a frieza do sentir e do agir,
nada explica a indiferença,
a não ser,
o avolumar das sombras da insensibilidade.

De manhã, já não há cantos de aves,  nem risos de crianças
abafados pelo peso do negro deste tempo em que a morte reina.
Morte do sentir, morte do tocar, do ouvir e do olhar.

Agora sim, sem todo o constrangimento que qualquer luz provoca,
ganhamos a liberdade plena:
somos, portanto,  livres,
para sermos indiferentes.






quarta-feira, 17 de julho de 2013

Sempre

Ontem, hoje, amanhã, nunca,
sempre.
Mas o sempre, é sempre relativo.

Nem sequer tenho a certeza de estar vivo...

Numa outra  esfera - pensamento,
confundem-se os tempos.
O que foi ainda é e o que é será.

Mas pensamento é vento,
apenas ar que flui,
e nunca é.

Certezas não passam de ilusões,
sensações de instantes breves
que se esvaem ao segundo.

O sempre, é ontem, amanhã, nunca,
porque o agora...
                         nem sequer existe!


Depois

E no entanto,
no meio dos cacos,
escondido por entre os rios de lixo
que inundam este espaço curto e sem janelas
de vez em quando,
sem grande ruido,
sem anúncio prévio,
surge.

Sempre de forma inesperada,
como se as cartas de tarot fossem verdade,
por não preverem o imprevisível
que acontece apenas por acontecer.

Quando o mundo passar,
e eu estiver naquele espaço que não sabemos onde,
naquele tempo, que não sabemos quando,
será que também surge?

Ou será que nunca mais?

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Futuro

Venha o vento forte
que derrube as casas, as vilas, as cidades
amontoado escombros sobre escombros
que a chuva lavará um dia.

E que venha frio de fazer estalar os ossos
e que eles estalem,
para que os corpos fiquem carnes rastejantes
e  ds diluam na terra.

E depois a chuva,
forte, violenta, persistente,
a lavar e a levar para o desconhecido do mar
tanato lixo que nos destrói as vidas.

Resistirá, talvez,
alguma flor nos confins do mundo,
qua agitará as suas pétalas tranquilas
dando enfim alguma cor a um futuro
tornado, emfim, possível.

Rota perdida

Há um caos
abrangente, determinante, dominante,
que transforma ideias em rascunhos
que enche caminhos de lama
e destrói destinos.

Um caos feito de coisas que não são,
um caos que nasce da mentira
um caos cozinhado em cozinhas bafientas
de cozinheiros decrépitos.

Estradas que já não conduzem a lado nenhum,
passos que se perdem de andar à volta, em voltas repetidas
como se andar fosse só isso, andar!

Andando vamos, pois,
mas sem irmos a lado nenhum

Sede

A voz veste as palavras,
como o verde, as folhas,
como a luz, a vida.

A voz, pode ser presença, grito, choro
e pode ser saudade:
lembrança que se ouve cá dentro,
quando o silêncio é o que nos chega.

Vejo e também ouço,
mas apenas porque fecho os olhos.
Se os abro, vai-se a imagem e cala-se o som,
neste infinito de distância.

Dá-me, pois, o som da tua voz,
envolvendo nele as palavras que me envias
que, só escritas,
não  matam a sede de te ouvir.





sexta-feira, 12 de julho de 2013

Orgia de sangue

Jorra o sangue,
vermelho, intenso, grosso,
da carne rasgada pela ferida
 aberta e exposta.

E corre, e grita,
grita o sangue e geme a carne,
numa orgia de morte
intensa e louca.

Num tempo que se tornou opaco,
iluminado pela luz negra do sol
que não aquece:
arrefece e esconde.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Sem som

Já não sei
de que tempo és.
Se deste agora,
se dum outro da memória
para onde te transportei, trazendo-te a ti
e a esse tempo
para um hoje que não sei se existe.

Num jogo complicado de tempos que se movem,
em que o presente é feito de outros tempos
e os tempos se confundem.

És, provavelmente, a ponte necessária.
que transforma a falha em continuidade
e permite ao percurso o fazer sentido
por transmutações da amizade.

Precisar de ti, é uma evidência,
que, provavelmente, não se vê...
Grito, calado, "preciso de ti...."
já que gritar alto,
seria uma imprudência.

Tempos

Imagino-me com o ar mais idiota do Mundo. A espreitar à porta da sala de professores. E a olhar em volta, a escadaria de acesso e os corredores. Tão idiota devia estar, que ela reparou e sorriu, julgando-me colega.
Mas não, naquele preciso momento não era colega, mas ex-aluno.
Naquele espaço, em dois anos, tanta coisa aconteceu...
Perguntei-lhe pelo velho ginásio, e fiquei a saber que andaa l´estava, com as mesmas varandas de antes, mas agora destinado a reuniões (anfiteatro).
Mas já antes, já antes....Quantas RGAS, ali. Quantas discussões acaloradas...Verdade, foi ali que pela primeira vez comecei a fumar!
Mas não estão lá, já não estão lá... o Zé, o Couto, o Fortuna, o Formigal, (estarão onde?), "peças" fundamentais daqueles anos de descoberta e construção de mim próprio.
Foi ali que passei dum tempo em que era porque era assim, para um novo tempo em que  mais do que p que era porque era, seria também aquilo que decidiria ser - o tempo de construção do eu.
Tempos de construção de sexualidade, de construção de uma visão do mundo só minha, de construção de opções políticas, de descoberta da amizade como valor em si mesmo, tempos de tanta coisa junta.
Ao mesmo tempo que se construa um país novo, construção essa que intricava na minha construção de mim próprio.
1974
Lisboa.
Lyceu normal de Pedro Nunes.

Acho que ficar velho é isto...

domingo, 9 de junho de 2013

Eficácias

Voltar a cara para o outro lado,
ver os carros, as casas, as coisas, as pessoas,
pensar o trabalho, o que fazer, como fazer,
correr à pressa na necessidade de que haja pressa.

Pensar, agir, refletir, reagir
atuar, construir, destruir, falar, ouvir.
Sem tempo, sempre na borda do tempo
quase a cair.

Tão eficaz,
para não sentir!

sábado, 8 de junho de 2013

Irreflexões

Vagueia sem se deter,
assim não para nem vê,
apenas olha, sobrevoando e sem sentir
ave de rapina distraída,
avião com rota indeterminada.

Corre por cima do que existe,
sabendo que o que existe, existe,
mas fazendo como se não existisse.
Não se prende e não se agarra.
Prossegue, possegue sempre.

Este pensar que já não pensa.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

                                      Estado de Consciência


Silêncio. Estás sozinha mas não Só.

Acompanhada por ti e por tudo o que te habita : memórias, pessoas passadas e presentes , paisagens , pequenas cenas , o que gostas , o que não gostas e o que te é indiferente .

Acabaste de jantar . Tens um jardim e os teus olhos seguiram o movimento dos arbustos porque está vento .

Dentro de casa , ouves o som do frigorífico. Pouco mais .

Não é um silêncio completo.

Sentes-te bem : em paz. Bem contigo e com aqueles outros a quem estás ligada com afecto.

Estás acompanhada e sentes prazer nisso : neste tipo de companhia que te permite continuar sozinha.

domingo, 26 de maio de 2013

Sentir

Projeto teias, elos e correntes
num contínuo pensamento que não pára,
dou a volta e volto lá
e saio e entro
e fico.
E não agarro.

Elaboro estratégias,
complicadas, que nem eu percebo!
Como num transe permanente
em que o que é pode bem não ser
e o que faço posso nem saber.

Estranho pedaço
de matéria e tempo
de matéria e vento.
Tão forte como o aço.

E voa pelo céu tão grande
meteorito que mal chega foge
deixando a sua luz cativa nos sentidos.
Sentidos gastos já
de tanto que sentiram.

Sentir,
aqui.

Aqui, o quê?
Se não se vê...








sexta-feira, 17 de maio de 2013

Intrusões de vazio

Chegam visitas e palavras
trabalhos e dizeres
trapalhadas de tarefas e funções
e tu não dizes nada
e estradas a correr,
leituras a fazer,
e papéis, papéis e mais papéis
e vozes que se cruzam e falares
e opiniões, debates, discussões
e tu não dizes nada
A emissão no rádio,
mensagens no email
conversas na internet,
notícias nos jornais
os filmes na TV
problemas que há que resolver
e tu não dizes nada
e o almoço está no prato
é hora de almoçar
o jantar está servido
é hora de jantar,
a cama está à espera,
é tempo de dormir,
o sol já apareceu
é tempo de acordar
e tu não dizes nada,
manifestações, reuniões, protestos,
a luta, o surgir de manifestos
petições e declarações,
aclamações e rejeições
jornadas de luta
(tantos filhos da puta...)
e tu não dizes nada,

Porque diabo só tu não dizes nada?

Baús da memória inexistente

Chego àquela vila pobre, pequena, de ruas estreitas, e caminho. As portas não estão trancadas e por isso posso entrar e entro. Na cassa feita casas, de tão pequenas, uma só não chegava para a velhinha que ali me lembro de ver morar e que partilhava genes comigo. Já não partilha agora.
Uma porta, a casa de jantar. Outra porta o quarto.
Na casa de jantar, ainda lá está mesa e cadeiras, mas que fizeram dos "meus" pratos e travessas? Eram lindos, de madeira, com desenhos de motivos agrícolas. Estavam pendurados nas paredes e daí vinham diretamente para a mesa, Também as travessas eram de madeira, com desenhos de motivos agrícolas e também elas, penduradas nas paredes. E eram lindas. Mas já não estão.
Está tudo cheio do pó do tempo, que a velhinha já não está para limpar.
Saio da  casa casa de jantar, para a rua e entro na porta da casa ao lado, casa quarto. Lá está a cama, ainda pronta para quem se quiser deitar (não fosse o pó). E  na cómoda...lembro-me...e abro a gaveta, e no  meio de duas folhas brancas (mais cinzentas que brancas, na verdade) lá está guardado o manuscrito, como se fosse relíquia, como se fosse tesouro, ou talvez seja mesmo. As letras a tinta de caneta permanente estão lá todas e a assinatura. Aquele papel com aqueles dizeres, não cabia no coração da velhinha saía fora, por isso o tinha de ter guardado ali na gaveta da comoda, bem protegido, por duas folhas brancas (mais cinzentas que brancas, agora) e escondido entre lençóis e toalhas. E  chegam lágrimas por um tempo que já não é.
Já não é nem nunca foi.
Percorro hoje assim os caminhos duma memória que não tenho, para rever uma terra onde nunca estive e contar duma velhinha que nunca conheci e que, mesmo assim, partilhou os seus genes comigo. Agora já não partilha.
Bizarra memória tenho eu que até me lembro de pratos e travessas que nunca houve e de papéis, que o tempo nunca produziu,

domingo, 31 de março de 2013

Ejaculação de pensamentos

Sem ordem
tal com ondas do mar desordenadas,
ideias surgem, desconectadas,
jorram em torrentes descontroladas
e misturam-se descoordenadas.

Vêm de tantas direções
alteram de sentido
chegam e seguem, sem interrupções
numa intranquilidade de espermatozóides.

Não as controlo
nem as chego a perceber.
Mal chegam não ficam, não têm tempo pra perder
Nem são bem ideias...
São mais... ejaculações.

Subida ao consciente

Saltas do sonho:
do inconsciente, num pulo, sobes à tona
e eu acordo
sem saber porquê, primeiro,
percebendo logo a seguir, que é para te saudar.

Saudar, saudade...
Saudade de te saudar, mesmo em pensamento.
Na lonjura que parece eternidade.
Saudar - saúde, que o estares aqui provoca em sentimento.

Subiste pois e estás aqui, no real consciente,
quase tocável, quase existente,
neste espaço tão enorme do sentir.

Fixe.

Fizeste bem em vir!

sábado, 23 de março de 2013

Os peixes


Foi numa noite igual a esta. Uma noite sem luar, em que os cantos das cigarras e dos grilos, o tocar dos sinos, ao longe, as estrelas a brihar em cima, tornavam tão suave o passar das horas.

Mas claro que não há, de facto, noites iguais. Da mesma forma que não há nem pessoas, nem animais, nem plantas, nem rochas iguais.  Apenas nos parecem iguais, pela falta de empenho em observá-las.

Nessa noite, igual e diferente de todas as outras, aconteceu o inimaginável. Do leito da ribeira que se faz esconder das vistas, pelas folhas e ramos das árvores que trepam pelas encostas que a enformam, um peixe saltou para fora de água. E logo a seguir outro e depois mais outro, de forma que, em escasso tempo, centenas de peixes tinham saído da água da ribeira e iniciado, em simultâneo,  uma aventura coletiva terrestre. E isto porque conseguiram começar a respirar o ar gasoso, as barbatanas ventrais, viraram patas, com garras nas extremidades, permitindo-lhes assim novas caminhadas por locais que nem imaginavam existir.

Como aconteceu e porquê? Vá se lá saber...

 Dirão uns que foi um acaso da genétca, outros descobrirão ali a mão do Criador, outros dirão que é a vontade que domina o corpo, e que a ânsia de se libertarem do fluido existencial, ganhou tão forte energia transformadora , que impôs ao corpo a criação de novas aptidões - ou seja, uma transformação psicossomática.

Fosse  lá porque razão fosse, a verdade é que mal puseram barabatanas em terra firme, os peixes iniciaram a sua caminhada, que, não passou desapercebida a  um rapaz da aldeia ali ao lado, que, ao passar de manhã junto à ribeira, se deparou com o extarordinário caso de ver centenas e centenas de peixes fora de água, mas vivos e bem vivos, caminhando em terra, e trepando aos troncos das árvores, numa estranha ânsia de ascender, como se o simples visualizar do céu, os impelisse a caminhar para cima, sempre para cima.

Ficar calado é próprio dos peixes, que não falam, mas não dum ser humano. E assim foi que de imediato correu este rapaz à sua aldeia a contar o que acabara de ver. O difícil foi fazer que acreditassem nele. Chamaram-lhe, pois, grande mentiroso, disseram-lhe que se embebedava logo de manhã, sabemos lá nós, que mais lhe terão dito! 

 Acreditar seja em quem for, é sempre tão difícil, até mesmo nas situações mais simples, quanto mais num caso como aquele. Acreditar implica confiança e confiar é um risco que pode ter um preço que o mais das vezes não se quer pagar.

E foi por isso que uma delegação de gentes respeitáveis lá da aldeia, se decidiiu a acompanhar o moço, pois de outra forma não havia meio de o fazer calar.

E logo a seguir foram os jornais, as entrevistas, as notícias, que colocaram aquela aldeiazita com nome nos mapas. O caso estava mais que confirmado. O caso estava mais que divulgado.

Foi a partir dessa noite memorável, que os hábitos das pessoas se alteraram, já que, a zona da ribeira rapidamente se transformou em local de romaria de fim de semana, para todos os moradores das aldeias da região. E era vê-los, logo pela manhã, a caminharem quais romeiros pelos caminhos da encosta, cesta do farnel e garrafão de vinho, mantas para colocar no chão, enfim, tudo o necessário para um dia bem passado. 

E foi assim que, num desses fins de semana, alguém que já perdeu o nome devido ao tempo que se encarregou de o apagar dos registos das memórias vãs, se lembrou de, enquanto assava um chouriço na fogueira, deitar a mão a um dos peixes que trepava por uma árvore logo ali ao seu lado, e colocá-lo na grelha, ao lado do dito chouriço. Estranho, de facto, era não ter havido ainda alguém com a mesma ideia...

Assada que estava a criatura, foi dividida em pedacinhos pela família e amigos. Um espanto! Esquecendo o pormenor das patas, em tudo o mais um peixe como os outros, e fresquinho, pois acabado de "ser pescado" da árvore!

Mais dois fins de semana, bastaram.  Dois fins de semana de matança e festim, foram o suficiente para que não sobrevivesse nem sequer uma única daquelas estranhas criaturas.

Mas também nunca mais se voltou a repetir o estranho fenómeno daquela noite aparentemente igual a tantas outras.

Há quem diga que a razão de nunca outra vez tal transformação ter acontecido, está na aprendizagem:

- os peixes aprenderam que, o ser diferente, mesmo no caso dum simples peixe, pode ter como custo a sobrevivência.

terça-feira, 19 de março de 2013

Paredes

Saem vozes de dentro das paredes
que eu oiço e não entendo
gritos, choros, raivas, deseperos, preces
sons do além que não desvendo.

Vidas passadas presas em cimento
em tijolos dum tempo que já passado
chegam até mim  em pensamento
mas sen que eu entenda o seu significado.

Casas sinistras, feitas de pecados
recheadas de mortos conservados.
Vozes, sensações, vivências de desnterrados.

Amanhecer

Que digo, que te faça?
Se nem a mim eu sei fazer...
Que dizer para inverter uma desgraça,
se palavras não constroem o viver...

Invento frases que quero sejam mensagem
que saem perfeitas na gramática,
mas sem alma, não aquecen a friagem
não são mais que uma intenção simpática.

Que digo, que te faça?
Nada sei pra te dizer!
Mas sei que o tempo passa
e cada dia há um amanhecer.

Almas

Almas sem rumo,
deambulando em corpos com tarefas sem sentido
em direção a um futuro desconhecido
pensamentos em desaprumo.

Dias que se esperam
mas que vêm sempre iguais,
tirando as noites de improváveis bacanais
mas que na essência nada alteram.

Lágrimas que não caem por vergonha
que se engolem por dentro
em sofrimento
de quem já não sonha.

Houvesse Deus, hovesse a esperança:
o vinho viraria esquecimento,
a morte jamais um pensamento.



terça-feira, 5 de março de 2013

Sem norte

Perdido o norte
a estrada se faz curva,
cruzamento - escolha à sorte,
quase sempre sem sorte
destino sem promessa
fugindo à pressa
da vida que é como a morte.

Guincho, choro, desespero
incompreesnsão de ser
ser o quê e ser pra quê?
Numa feira de gente que se encontra
mas em que não se encontra nem revê.

Talve, quem, sabe
encontre um dia a lua
e nela montado
percorra o firmamento.
e lá, num lugar qualquer que não se sabe
surja, porventura, aquele momento
aquele instante tão sagrado
em que finalmente encontre.
E depois esqueça.

Enfim, reencontrado.


domingo, 3 de março de 2013

Perdendo o comboio da história

Que o PS não tenha declarado publicamente o seu apoio á manifestação de hoje, é compreensível: o PS assinou o pacto com a troika, o PS irá fazer a mesma política que está a fazer o PSD, se voltar a ser governo. Nada a estranhar.
Mas e a esquerda?
Como explicar a invisibilidade tanto do BE como do PCP nas manifestaçoes do dia de hoje?

Tese oficial: o movimento é unitário, autónomo, não convém que se façam conotações com este ou aquele partido, pois isso poderia tirar-lhes força.

Um verddeiro absurdo. Ou melhor, um completo disparate sobre múltiplos aspetos. Ao correr da pena, vou explicitar alguns:

-Clareza- se há coisa que os portugueses reclamam hoje dos políticos é clareza e honestidade.  Esconder-se, não dar a cara, não dizer claramente se se apoia ou não, se se incentiva ou não, é contribuir para dar razão aos que dizem que os politicos são todos iguais - não falam verdade às pessoas.

-Capitalização política- como pode um partido querer capitalizar em ganhos de votação e portanto em perspetiva futura de conduzir ou influenciar na condução das vontades, se se põe à margem dos acontecimentos mais marcantes do desnvolvimento da luta de massas na rua?

Oportunismo- direi que afinal apoiei se correr bem e me der jeito, reservarei a minha posição,se "der para o torto".  O oportunismo nunca tem ganhos no médio longo prazo.

Incoerência: - dizer que se defende o marxismo.leninismo e ao mesmo tempo esquecer ideias fundamentais de Lenin????
Passo a citar: " "Não nos isolemos do povo revolucionário, mas submetamo-nos a seu veredicto cada um de nossos passos, cada uma das nossas decisões, apoiamo-nos por inteiro, e exclusivamente, na livre iniciativa que emana das próprias massas trabalhadoras".-V.I Lenin
e ainda: (observação cheia de ironia que ause pqrece referir-se aos acontecimentos de hoje:
" "Nós, dirigentes do proletariado social-democrata,( assim se designava o partido comunista na época) nos comportámos como aquele chefe militar que havia disposto seus regimentos de um modo tão absurdo que a maior parte de nossas tropas não participou ativamente da batalha."

E citando, agora, Augusto Cesar Buonicore: "Lênin compreendia o Partido como um instrumento à serviço da revolução socialista e não como um fim em si mesmo. O desenvolvimento das formas organizativas está intimamente ligado com o desenvolvimento dos processos revolucionários na Rússia. O partido deve se adaptar ao processo revolucionário e não a revolução ao partido. Portanto não existe, a priore, um modelo único de organização leninista. O que existem são alguns princípios gerais que poderíamos, a grosso modo, definir: um partido de vanguarda vinculado organicamente com a luta do proletariado, um partido comprometido com a ruptura em relação a ordem capitalista e com a conquista do poder político para os trabalhadores.Nesta nova fase de luta pelo socialismo, no início do século XXI, é preciso que repensemos coletivamente a forma-partido e sua relação com os movimentos sociais. Neste sentido Lênin pode nos oferecer pistas preciosas mas não pode responder por nós, pois estes é o nosso problema e não o dele. "
* Augusto César Buonicore, Historiador, doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp, membro do Comitê Estadual de São Paulo, do Comitê Central do PCdoB e do Conselho de Redação das revistas Debate Sindical e Princípios.

Não sei se Augusto Cesar tem razão ou se não tem. Também não sei se as teses leninistas fazem ainda sentido ou não.

Mas sei que quem se afrima leninista e na prática "faz tudo acontrário" j´só éleninista "pra fazer de conta que mantem a tradição"!

Venham depois criar manifestações "organizadas" a apoiá-las.
 Cuidado. Muito cuidado, não vá acontecer que elas depois não tenham lá ninguém para além dos próprios organizadores....

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Obsessão

Já não sei do tempo,
há quanto foi
que dia
mas no meu pensar, (que teimosia)
não arreda pé por um momento
esse momento.

 Passa a memória
de tanta coisa, de tanta história
que já não sei.
Apaga-se a lembrança, foge a recordação...
E , no entanto,
persiste no tempo a emoção.

Emoção feita tatuagem,
gravada na pele rasgada
com dor.
E não se extingue:
que a cada dia se acrescenta 
ganhando mais vigor.

Não tem razão de ser,
nem para ser se acha razão.
Não é opção.

Talvez, apenas, obsessão.







sábado, 16 de fevereiro de 2013

Não previsível

Aparece, ou não
fala ou não
responde ou não.

Sei lá.
Não decido o mundo, nem o fluir do acontecer.
O que Deus nos dá
o que deus nos tira:
impossível prever.

Será pois, como Ele quiser:
Ele, o Deus, que escolhemos ter.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Tranquilidade

Se fosse possível o silêncio,
total, completo.
Despido de cores e de paladares,
feito ausência de sentir.

Se fosse possível a invisibilidade.
total, completa,
sem deixar sombra ou rasto
feita buraco negro da visão.

Se fosse possível não saber,
não ler, não ver e não ouvir.
Nem sequer se imaginar
uma ausência total do conhecer.

Seria então possível,
talvez
tranquilidade.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Stress

Trepa pelas paredes, mas não sobe,
num trepar continuo que se arrasta
e ouvem-se as unhas a raspar
num som que mais do que ouvir, se sente,
e faz arrepiar.

Invade desde os pés e sobe,
mas persiste,
invadindo em contínuo.
Vem dos pés, trepa,
mas permanece nos pés enquanto trepa,
e não desiste.

Uma erupção teimosa que não cede
e alastra e queima.
E irrita o corpo e mais a mente
durante todo o dia,  durante a noite toda,
e não se vai embora
teima.

Espera-se que, enfim expluda.
Mas não explode.
Prefere ser insidiosa e permanente.
destruindo em ciclos redundantes.
Sem que nunca sobre ela a noite caia,

indefinidamente.





sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

asperger

Está  na hora. Ele aí vem. Passo apressado, sabe ao que vem para onde deve ir e o caminho. Entra à minha frente, abranda no local onde sabe que devo ir buscar a chave e assim que pego a chave, continua até à porta e deixa um espaço para que eu possa abrir a porta, Abro a porta, ele entra, tira a mochila das costas tira o livro e os cadernos. Tudo previsto, tudo controlado.
E é então que eu estrago tudo fazendo uma pergunta: "então como está a tua namorada?"
Não estava previsto, não era suposto, não fazia parte da rotina. Na cara dele a desestabilização é total.
Já não fala, balbuceia até que consigo entender que me está a dizer que não tem namorada.
Digo-lhe então: ok, vou arranjar-te uma, espera aí e abro a porta fingindo que vou à procura...
Maior desestabilização. Toda assertividade da chegada se desfez.
Entramos então na matemática. essa sim é a rotina. É isso que está previsto.
E tudo volta à "normalidade"-

Asperger é assim. Há que saber lidar com ele.

Apenas

Rua, carros, árvores,
vozes, passos, sons,
desaparecem,esfumam.

Quando lá ao longe a tua voz
e me volto e estás.

Subitamente o vento para,
o mar agitado transforma-se num lago
e a mansidão do tempo inunda o espaço.

Depois o fluir das palavras faz o resto
naturalmente, sem esforço e sem pensar
ao correr do sabor e do olhar
ao ritmo do apetecer.

Não se descobre a pólvora,
não se inventa a roda,
não se constrói ideologia.

Apenas sinto o teu sentir,
que me importa mais do que o devir do mundo!

Apenas isso
apenas tanto
apenas tu.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

aqui

Pode a porta estar aberta, O vento soprar ciclone... A corrente não se quebra Nem o tempo te liberta! Vives aqui.

existência

Nem faz falta Nem faz som Nem se ouve Nem se vê. Existe? Nem que exista... O que conta é o que se sabe O que importa é o que se toca. Se existe, não se da por nada. Existência nula.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Associações

Deus - é pena
Vida - é esperança
Dor - é permanência
Engano - é ter paciência
Esperar - é desespero.

Céu - morada de anjos
Inferno - esta loucura
O Diabo - é estar aqui
Perdido - é da lonjura.

Ilusão - é conveniência
Pensamento - é ilusão
Vinho  - libertação
Amor - é consistência.

Palavras - estão no vento
Ouvir - não é escutar
Escrever - passar o tempo
Morrer- é o que está a dar!






Nevoeiro

Âncora içada, soltas as amarras,
vai-se afastando lentamente,
num nevoeiro de tempo, tão ausente.

Na beira do paredão do cais,
já debruçado, meio corpo sobre a água,
estico so braços, tento deitar a mão,
quase a cair no mar, da minha mágoa
que cresce por dentro da emoção.

O barco desliza, balanceia, não para
como se os barcos fossem feitos para ser livres!
Leva de mim mais do que me trouxe
depois de me trazer mais do que jamais tivera.

Progressivamente a neblina cresce,
já tudo mal se vê e mal se ouve.
Olho em frente e já não vejo o cais
e já nem sequer ouço qualquer som.
O tempo engoliu o mundo.
Sem mundo, já não pertenço ao tempo,

Apenas sentimento é o que sou.





poner un anuncio gratis